Sou heteroafetivo e quanto a isso nada posso fazer; se eu fosse outra coisa já estaria lá, sem dúvida. Mas torço pela felicidade de todos os gays do mundo, pelo menos dos que fazem mais bem do que mal à sociedade e ao planeta. Sinceramente, por mais que reflita, não consigo entender o que uma pessoa tem a ver com a sexualidade da outra, a não ser que se esteja num relacionamento amoroso com essa outra pessoa; no máximo. Motivos religiosos? Aqui para nós e para quem quiser ler: ninguém que frequenta uma igreja é religioso. Sem querer ofender, honestamente, é no que acredito: religioso é quem possui religiosidade inerente e não quem vai buscar uma de concreto, de palavras, postiça, junto a meros homens que se dizem representantes de Deus na Terra. Fazendo uma analogia, não tão barata: cantor é alguém como Milton Nascimento. É quem abre a boca e canta, não quem precisa se concentrar ou raciocinar para cantar. Religioso, portanto, é quem é, e não quem tenta ser. É quem existe rezando, não quem vive rezando. Não há igreja que torne alguém religioso. E gay, da mesma forma, é gay, e pronto. Não pode, simplesmente, não ser. E nisso não há culpa, não há vergonha, nem imoralidade. Não há desrespeito a ninguém, muito menos a Deus. Desrespeito é alguém achar que quem é, não deve ser, ou não tem o direito de ser, em toda sua plenitude.

Nenhum branco preconceituoso contra negros tem medo de se tornar – ou lá no fundo é – negro.

Quanto a um que não se diz religioso e ainda assim condena a homoafetividade, só posso perguntar: o que exatamente o agride? O mesmo tipo de preconceito que se tinha e ainda se tem contra os negros? Talvez não. Nenhum branco preconceituoso contra negros tem medo de se tornar – ou lá no fundo é – negro. Ou, de outra maneira, achar que os gays são mais promíscuos que os não gays, e por isso ameaçam a moral e os bons costumes, e não perceber esse fato apenas como um reflexo temporal, pela marginalidade na qual foram obrigados a viver ao longo da história, é declarar-se burro. Uma vez aceitos com naturalidade, os homoafetivos de forma alguma serão mais promíscuos que os heteroafetivos, e boa parte já não é. Ou será que os héteros acreditam que o sexo gay é mais prazeroso?

os héteros acreditam que o sexo gay é mais prazeroso?

De resto, só consigo imaginar o preconceito estético. Que, no entanto, não se sustentará por mais de duas décadas. E com relação a isso, nada melhor que se divulgar, em todas as mídias possíveis, belas e humanas demonstrações de afeto entre gays, lésbicas, travestis, transexuais e qualquer outro tipo de gente (exceto crianças) em suas inclinações e opções sexuais, e afetivas; evitando-se, é claro, o erotismo banalizado, que só presta um desfavor à libido dos povos.

Dois últimos recados aos preconceituosos: achar-se dono da moral é a coisa mais cara-de-pau que existe neste mundo, basta se olhar no espelho para ver o tamanho do ridículo, as bochechas moles, o olho de peixe morto. E condenar a afetividade alheia, simplesmente, é nada entender sobre o amor.


Magno Mello (Brasília, 1966). Compositor, escritor, educador e livre pesquisador. Vencedor do Prêmio Interações Estéticas do MinC/Funarte, 2010. Vencedor da Maratona Literária 2016 do concurso nacional de publicação, da Editora Oito e Meio.

Créditos ilustrativos: Hommage to Marquis de Sade (2015) do artista polonês Juliusz Lewandowski.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “A legitimação da Homoafetividade, por Magno Mello

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s