Uma simples história da carochinha pode bem motivar toda uma animada discussão.

Foi Jean-Jacques Rousseau o primeiro a perceber o caráter particular da personalidade da criança, ao observar que ela não é um adulto pequeno que vai crescer, mas um ser com necessidades próprias e uma mentalidade adaptada a essas necessidades.

O estudo da arte infantil possibilitou a compreensão das características específicas da criança e também da sua relação com o mundo que a cerca.

No entanto, foi só a partir da segunda metade do século XIX que essa nova visão começou a penetrar o campo da Pedagogia. Por sua vez Herbert Spencer, filósofo inglês que não frequentou escolas e recebeu toda a sua educação em casa dos pais, condenou a prática do desenho de cópia nas escolas, por considerá-la inibidora e repressora das tendências naturais da criança.

Mais tarde, em 1904, com a publicação do livro Estudos sobre o Desenho das Crianças até aos 14 Anos de Idade, do psicólogo S. Levinstein, teve início toda uma série de estudos de psicólogos sobre arte infantil, e William Stern foi o que mais se destacou. Mas foi o austríaco Franz Cizek quem primeiro pôs em prática as novas ideias sobre arte infantil, fundando, já em 1897, um curso de arte para crianças, que dirigiu até 1938. Durante esses quarenta e um anos, num trabalho incansável e sistemático, observou e estudou nada menos que milhares de trabalhos das crianças que por ali passaram, e descobriu as leis permanentes que regem a atividade criadora da criança. E foi assim que nasceu uma nova pedagogia – o Ensino pela Arte -, que aos poucos se firmou e estendeu por outros países.20032924094_8a2de785f1_k

O estudo da arte infantil possibilitou a compreensão das características específicas da criança e também da sua relação com as outras pessoas e com o mundo que a cerca. Permitiu pois entender que a sua expressão é essencialmente imaginativa e conceitual, e que ao pintar, desenhar, esculpir, cantar, dançar, tocar um instrumento, escrever ou encenar um papel teatral, ela quer dizer o que sabe sobre as coisas e não representar as coisas, não se preocupando assim com a totalidade mas apenas com os detalhes que lhe interessam.

Ainda não conscientes dessa realidade, os primeiros estudiosos da arte infantil acreditavam que a expressão da criança era naturalmente imperfeita e ilógica. No entanto, ela tem a sua lógica, ainda que diferente da lógica do adulto, é perfeita naquilo que quer expressar, e, sob vários aspectos, é muito mais concreta. Vale lembrar a clássica anedota do professor que perguntou à menina por que pintara a figura do elefante de vermelho, ao que ela respondeu: “Cinzento não é uma cor tão esquisita para um bicho tão esquisito como o elefante!”. A criança não representa a natureza, ela expressa o que sabe e o que sente a seu respeito, pintando a figura do pai ou da mãe maior do que as outras, e por vezes, como no caso do elefante, também corrige a natureza. Através da arte, procura organizar o seu mundo interior e comunicar, exteriorizando os sentimentos, medos, sonhos, desejos e frustrações. Assim, é da maior importância o papel que a Arte pode desempenhar na sua educação, como também na educação e orientação das suas fases mais além, da puberdade e da adolescência.

Longe de ser uma escola de Arte, é antes uma arte lúdica, interessante e sábia de educar, dentro e fora da escola

No mundo de transição em que vivemos, em que os valores morais e de cidadania parecem cada vez mais fora de uso, vemo-nos, a cada instante, confrontados com os valores cada vez menos elevados de uma sociedade cada vez mais violenta, em que os interesses do lucro imediato e da concorrência, por vezes infelizmente feroz e desleal, estão sempre a impor os seus ditames.

A hipocrisia, a arrogância, a falta de respeito pelo indivíduo e pelo ambiente, e a indiferença pelo próximo são, em consequência, as constantes mais comuns. Dentro desse quadro, as crianças, por não possuírem ainda os elementos de crítica necessários para julgar o mundo com discernimento, conhecimento e liberdade, tornam-se o alvo mais fácil, porquanto o mais desprotegido e indefeso, de todos esses bombardeios: de manhã à noite, mesmo no aconchego do lar, através da maior parte dos programas televisivos, de que não estão isentos em geral os chamados programas infantis – a começar pelos próprios desenhos animados -, ou na escola, elas sofrem, e sem se darem conta disso, as agressões do elogio do poder, e da apologia da violência.

14605425294_a72c276c36_kÉ pois na urgência de uma alternativa a essa situação, tanto mais grave quanto é verdade que as crianças de hoje são os futuros cidadãos que vão decidir e governar os destinos do mundo de amanhã, que surge a proposta de uma Educação pela Arte, destinada a formar um bom caráter, a fornecer equilíbrio às crianças rebeldes ou hiperativas, a alimentar a sensibilidade e valores morais, a alargar os horizontes e a compreensão, a enriquecer a linguagem, a facilitar a expressão e o diálogo, a despertar vocações e, sobretudo, a proporcionar, a essas cabecinhas capazes de opiniões próprias e através da livre expressão artística – Desenho, Pintura, Canto, Dança, Música, Escultura, Teatro, Poesia, Literatura e Cinema -, e da troca de ideias sobre os diversos temas aí abordados, a auto-descoberta, o exercício do pensamento, o desenvolvimento da criatividade e da comunicação, a autossegurança, a auto-confiança e a aquisição, de maneira lúdica, pedagógica, interessante e divertida, de elementos capacitadores de análise e de crítica. Uma simples história da carochinha pode bem motivar toda uma animada discussão sobre uma infinidade de temas, assim como uma determinada escolha de figuras, de formas e de cores pode ser reveladora de uma sensibilidade delicada ou sonhadora ou de carência afetiva, solidão, frustração, timidez ou rebeldia.

A Educação pela Arte não visa criar artistas – nela o que menos importa é o produto artístico daí resultante -, mas sim permitir que o alto poder criativo da criança, do pré-adolescente e do adolescente, se desenvolva em plena liberdade, e possa influir de modo correto ao longo das suas vidas. Longe de ser uma escola de Arte, é antes uma arte lúdica, interessante e sábia de educar, dentro e fora da escola.28708274342_f668ff92aa_k

É sabido que o Ensino pela Arte, a grande descoberta pedagógica da primeira metade do século XX, capaz de reverter a tão comum desmotivação dos estudantes em verdadeiro gosto ou mesmo paixão pelos estudos, infelizmente não é praticada na maioria das escolas do mundo, o que inclui plenamente Portugal, por uma questão de desconhecimento e de consequente falta de preparação específica adequada do corpo docente e sobretudo dos responsáveis pelo sistema de Ensino. Contudo, se em contrapartida os pais, avós, educadores, professores, monitores etc, estiverem devidamente esclarecidos sobre a importância da Arte na Educação, e preparados, no desempenho do seu papel pedagógico, para exercer a Educação pela Arte, o resultado far-se-á logo sentir num maior sentido de responsabilidade das crianças e dos jovens, e, em consequência, num seu maior interesse pelas disciplinas escolares, e na superação do insucesso escolar.


Sylvia de Montarroyos (Recife, Brasil). Cidadã do mundo, lutou contra a ditadura militar na América latina. Editora e co-fundadora da Revista Philos, é também uma escritora multipremiada na Europa e no Brasil, dramaturga, socióloga, historiadora e psicanalista. Atualmente vive em Portugal onde escreve e atende em sua clínica. Recentemente publicou seu livro Réquiem por Tatiana, pela editora Cepe. Acesse a biografia completa no site da autora: aquintaestacao.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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