Alternando-se entre danças, diálogos e discursos, embalado pelo som de uma orquestra local, o Tchiloli, espetáculo santomense é, não apenas uma narração teatral de uma história de traição e morte, como também um desbravamento sobre as matrizes culturais e expressões da arte africana. A apresentação teatral é datada do século XVI, escrita pelo dramaturgo Baltazar Dias, e se transformou, ao longo dos séculos na representação historiográfica da ilha de São Tomé e Príncipe.

A essência da encenação é abordar temas políticos e principalmente a igualdade perante a lei

O texto escrito em meados dos anos 1540 é inspirado em romances ibéricos derivados do ciclo carolíngio do século XI. O teatro conta a história do príncipe Dom Carloto, herdeiro do trono do imperador Carlos Magno, o qual assassina, durante uma caçada, o seu melhor amigo, Valdevinos, sobrinho do marquês de Mântua. O motivo da tragédia é a paixão súbita de Dom Carloto por Sibila, esposa de Valdevinos. O crime entre as duas famílias leva ao debate sobre justiça, lei e governança. E apesar do tema trágico, a essência da encenação é abordar temas políticos e principalmente a igualdade perante a lei.
preview_n20050Na trama, o imperador Carlos Magno é confrontado com o dilema ético de escolher entre o seu filho e a raison d’État. Por fim, Dom Carloto é condenado e a justiça é feita. O enredo desenvolve-se em torno de um dilema em que o criminoso nega o crime, enquanto o Imperador é forçado a decretar pena de morte contra o próprio filho.
Ao longo da história muitas adaptações foram feitas na narrativa original, atualmente, existem em São Tomé e Príncipe dois teatros populares ditos do “Ciclo de Carlos Magno”, sendo eles: A tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno ou Tchiloli (da ilha de São Tomé) e o Auto de Floripes (no Príncipe). Ambos os textos são encenados tradicionalmente em 15 de agosto, no dia da festa de São Lourenço, e são exemplos emblemáticos do processo de crioulização cultural e da formação e permanência do teatro sincretista na África.
O nome tchiloli é sinonímio da palavra teatro e na etimologia da palavra advém do português clássico tiroliro, que significa pífano, a flauta transversal que se toca durante todo o espetáculo. As encenações costumam perdurar por quase um dia inteiro, e são apresentadas ao ar livre em chão de terra batida, quintais ou praças públicas. Os espectadores participam ativamente no espetáculo que serve de agente moralizador.
É clara a distinção de classes na montagem cenográfica do espetáculo, onde de um lado do palco, sobre madeiras suspensas, cortinas e flores, ergue-se a alta corte; e do outro, no chão de terra seca e palha, ergue-se a baixa corte da família dos Mântua. No decorrer da encenação, um pequeno caixão de madeira é colocado numa mesa no meio do palco para simbolizar o falecido Valdevinos.

O tchiloli é um desbravamento sobre as matrizes culturais e expressões de arte africana.

Apesar da modificação do texto ao longo dos anos, a maior parte dos versos é declamada sem quaisquer alterações dos manuscritos originais de Baltazar Dias. O tchiloli também retrata as diferenças culturais dos próprios santomenses, que durante séculos coabitaram pacificamente com povos de diversas origens, cultos e religiosidades diversas. É o caráter de multiculturalidade e plurilinguismo que revela-se como o principal elemento antropológico desse povo.


Sobre o tema, indicamos o documentário Tchiloli – Identidade de um Povo (2010) com direção do cineasta Felisberto Branco em uma produção apoiada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Créditos fotográficos: Inês Gonçalves, fotógrafa que vive e trabalha em São Tomé e Príncipe. Desde 1998 realiza documentários historiográficos, entre eles Tchiloli: Máscaras e Mitos (2008).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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