hoje entendi porque os franceses chamam o mar de la mère: mar é feminino mesmo. o que chamamos de ressaca é tpm. calmaria é resultado de noite de amor ardente com o sol – tudo escondido, enquanto a lua brilha. manhã seguinte, gozando a paz, espalha na areia cacos de estrelas – sobras da farra sideral. mar é a mãe que acalenta com suas águas ondulantes. tem colo melhor que colo de mãe? mãe natureza, onipotente. generosa quase sempre, rigorosa se desrespeitada. o tempo passa tão rápido que a vida quase não vê. na praia, desacelera e a deixa passear na areia, devagar, amornada pelo sol, refrescada pela brisa marinha. caminhando com dificuldade na beira da mar vem o vendedor de amendoim. anda na ponta do pé esquerdo para compensar os centímetros à mais da perna direita. leva uma cesta carregada de delícias doces e salgadas. há muito criou calo nos ombros, mas ano vindouro vai conseguir se aposentar. aí então, é sentar na areia e, ao invés do fardo pesado, vai segurar uma – ou várias geladas na mão. a vendedora de sorvetes tem mais de setecentas músicas no playlist; quando passa por uma faixa de areia deserta, aumenta o volume, porque tem de tudo um pouco nessa seleção, inclusive rock and roll. a velha quituteira tem os braços cansados de carregar o cesto de salgadinhos por trinta anos. hoje vem pra praia acompanhada da neta, mas é ela quem empurra o carrinho novo. a menina segura uma sombrinha na mão esquerda e digita no celular com a direita. acima de todos, o homem-pássaro, que foi proibido de voar por aqui. teimoso, finca sua biruta na areia e decola com o para-motor por um momento de paz. de cima, observa cardumes nem sonhados pelos pescadores, um segredo entre ele e a mãe-mar. por fim, nós banhistas na areia, protegidos por cogumelos coloridos de lona (o meu, um cogumelo–corcunda, entortado por um vendaval noutra temporada). passamos os dias observando maria-farinhas e dando sombra aos cães sem-teto que perambulam pela praia. esses são os capitães da areia. assim que amanhece, se esbaldam nas águas do riozinho que desemboca na mar. correm, rolam e latem, celebrando mais um dia de vida no verão.


Cristina Bresser de Campos (São Paulo, 1962). Formada em Comunicação pela UFPR, especialização em Creative Writing pela University of Edinburgh, autora do conto Capitolina, do livro Torre de Papel em 2015, e do romance Quase tudo é risível publicado em 2016. Prêmio melhor conto pelo Nidil, Fortaleza, 2016.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A mar – um conto de areia, por Cristina Bresser de Campos

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s