“Eu [Janus] sento-me às portas do paraíso com as gentis Horae: Júpiter vai e vem pelo meu escritório.”

Ovídio, Os Fastos, 1. 125.

Calare, calends, calendário, ainda não arribara o Ano do Senhor, ainda não havia um só amo, mas não faltaram anúncios, pregões, deprecações, sobre o escrínio gasto de Januário, que todos os anos como um velho porteiro, apontara os rumos aos viajantes, boas entradas. Por onde entramos, qual a nossa porta, o aeroplano está pronto para a descolagem, qual o algarismo, a letra, que a identifique, ou será uma cor, um relevo – estugar o passo, já se prepara para voar, e se não encontrarmos a porta, última chamada, calare, calends, e se –
Houvera o sol, a lua, os intercalários, e antes houvera o espanto, de o desconhecermos por inteiro, lembrar a primeira noite da primeira lua, não lembro – onde dormia o meu pensamento, o mistério de a sabermos levantar-se no momento preciso, o pressentimento. Poderá ser essa a medida do tempo, só um pressentimento, e assim esperamos sob os umbrais que nos pertencem, sob uma porta pressentida – anelada.
Calare, calends, calendário, a lua era o mês, era esse o seu epíteto, mês, de asa-longa, com o corpo de neve do firmamento, Januário recordara-a agora, num instante em que lhe apetecera arrojar com os seus trabalhos às calendas gregas, debruçado sobre avios de homens e mercancias, os eixos cruzados e recruzados sobre todos os semicírculos possíveis. Quantas portas existem – ela jorrara o leite de ossos de todos os átimos, governara os céus, da Mesopotâmia às câmaras vermelhas e cerradas da terra central – todos os reinos se vertem sobre si mesmos – e houvera quem recobrisse a sua fronha delicada de cerefólios e flores-de-mel. As usanças do gosto romano pelos regramentos, tinham deixado de a invocar solenemente à ágora, na noite da primeira adimplência perfeita do seu robe, embuçada e negra.
A batida das horas, chamamentos, de cobranças, impostos, dividendos, a primeira lua-nova, maestrina, marcara o compasso de todas as marés do ano – e aqui se assenta Januário, nem faces de sóis, nem faces de luas, um esgar sumítico, colhendo escritorárias as súmulas dos sumários encargos, não colherás antes o teu dia. Assim o chamámos mundo – forjámos as grilhetas maciças da nossa existência, e perdemos as chaves, condenados de nós mesmos. Regrados, resguardados -ou covardes, de um caos inerente, ou de um caos imaginário – desconstelar, os céus, as normas, os medos –
Calare, calends, calendário, chamados aos nossos afazeres, a boa-ordem fora outra, Januário amigara-a, uma jovem de passo leve, e duas irmãs, trouxera cestas de pastoreio no colo, desarmara com rosas o excesso e a insolência, fluía, na outra ordem, a sua, a da terra inabitada. As horas ardem nas achas das nossas insignificâncias, que tememos. As horas riram de roda com Januário, as irmãs, trouxeram a paz, trouxeram a justiça – que nos trazem as nossas horas, o que nelas trazemos.
Sim, Janus, que é o mesmo que dizer, Januário, que é o mesmo que dizer, Janeiro. Tivera duas faces – ou uma só: por aqui a guerra, por aqui a paz, por aqui a vida, por aqui a morte. Por aqui nós, com os nossos rostos, e as nossas passagens, para onde vamos, por onde –
qual a nossa porta
o que transportamos


helenabarbagelataHelena Barbagelata [Lisboa, 1991]. É licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. Vencedora do “Prémio Poesia e Ficção” (Edição de 2012), com a obra “O Mar de Todos os Deuses”, atribuído por unanimidade pela Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade de Língua Portuguesa e pela Câmara Municipal de Almada. Colabora como autora e ilustradora em diversas publicações, destacando-se: Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira, Diversos Afins – Entre Caminhos e Palavras, e Mallarmargens – Poesia e Arte Contemporânea. Participa em antologias no espaço latino e tem sido agraciada em vários concursos internacionais. Publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). É colunista e Curadora da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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