Inaugurando as novas páginas da segunda edição de nosso Dossiê de Literatura Neolatina, apresentamos a obra da escritora e artista plástica Helena Barbagelata. Curadora da Philos na sessão de Literatura portuguesa, a autora é também colunista de nosso editorial.
Para homenageá-la, a Philos publica dois de seus poemas em nossa Mostra de poesia lusófona acompanhados de um portfólio de imagens selecionados pela nossa curadoria de artes visuais. As fotografias são do Maison Européenne de la Photographie, importante museu parisiense dedicado à arte fotográfica e fazem parte do circuito Uma temporada brasileira, que consiste em quatro exposições de artistas brasileiros de diferentes épocas e estilos, entre elas, Marcel Gautherot – Brasil: tradição, invenção.

Hagiológio

Não era verão, mas alguém
baldeara descuidadamente a
cidade de noite, com borras
espessas e frias de cal- tudo
branco; um pintor descuidado
que deixara à fúria de Adriano,
entre olivos e mármores gotejados,
um embrulho rarefeito de névoa;
ou seria o linho, mais fino e bordado
da espuma cristalina dos tecelões de
Amorgos, que trouxesse a maresia
trançada, naquele lavor, com o zelo
de uns dedos urdido no tear;

Olha o menino, olha – não ficaram
mais do que os dedos, e toda uma
alcova, que acobertasse a vergonha,
de algum ventre, mal-amado, traído
pela míngua ou por algum sonho
– os dois; traído agora pelo timbre,
que se insinuara numa escala
lamentosa, que subira pela escadaria
de sinos da torre dos ventos, sacudindo
a geada das alas das pombas; olha o
menino, olha, alguém se esqueceu
de um, como esquecer – e cantara
melhor que o rouxinol dório, nas
ramadas brancas;
é só um frouxel,
em desafio à gravidade como as
folhas de água que as núvens
janeiras deixaram de noite; alguém
deixou, mas como deixar – elas,
talvez, no seu descuido, ou
um pintor descuidado; era um floco
no branco de todos os outros
brancos, mas este cantara – era
escutado por um aluvião
penitente, empapados no olíbano
das preces madrugadas, enquanto
a cidade dormira, falavam,
velavam o pudor nos xailes
negros, desapareciam na bategada
das campanas, davam a senha
aos braseiros do meio-dia;

Já se trocavam ouros por milho,
ouros por ouros, e cantara
melhor que o rouxinol dório,
nas ramadas brancas;
era dia de reis e os mendigos
cortavam os pés nas garrafas
quebradas dos cabazes de
dezembro – olha o menino,
olha; tinham os olhos amargos,
embalsamados num abandono
longínquo, a íris cravada de
espinhos – mirra, não era
mirra, o que trazia o último
rei; encolhiam-se com o
frio a roer os ossamentos,
à passagem das crianças que
levavam a alegria em braçadas
de neve; levavam os flocos
ou eram levadas por eles, leve
no leve, um floco no branco
de todos os outros
brancos- olha o menino,
não lhe toques

deve ser árabe
deve ser cigano.

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Tekton

Largaste as esquadrias e as
plainas, na abulia mecânica de
governares as técnicas, ou
de deixares que os técnicos
te governassem; onde estão
os carpinteiros do
levante sul,
[seria necessário que soubessem
sangrar os pómulos dos dedos
nos formões, ter o pulso gretado das
árvores, rasgando mundos,
tábula a tábula, como o homem
que reergueu diocesareia – eles
não erguem, não reerguem,
casas, templos ou cidades,
mas governaram-te, para
servires no ofício da
destruição;

Largaste enxós e compassos,
com as peugadas tropeçadas
em que calcorreias pela sacral
curvada do tempo – até à sutura,
refazes o mesmo exercício a
cada dia, os técnicos
cegaram-te de papelório e
minudências, vives prisioneiro
dos detalhes, incinerado pelo
lusco-fusco de qualquer prazer
tremeluzente,
[chamas-lhe ocupação,
embevecido como um
moscardo na tua própria
sentença – foras homem; eles
não erguem, não reerguem,
a vida, o tempo, a tua vontade,
mas governaram-te, para
servires no ofício da
anulação;

Os técnicos – houvera
carpinteiros no levante sul, sem
algoritmos de usura mas
com a matemática perfeita, com
que moldeavam os berços de
tudo o que havia por ser,

mas tu

ainda tens um machado, um
martelo de penas,

porque esperas

 

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Helena Barbagelata (Lisboa, 1991). É licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. Vencedora do “Prémio Poesia e Ficção” (Edição de 2012), com a obra “O Mar de Todos os Deuses”, atribuído por unanimidade pela Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade de Língua Portuguesa e pela Câmara Municipal de Almada. Colabora como autora e ilustradora em diversas publicações, destacando-se: Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira, Diversos Afins – Entre Caminhos e Palavras, e Mallarmargens – Poesia e Arte Contemporânea. Participa em antologias no espaço latino e tem sido agraciada em vários concursos internacionais. Publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). É colunista e Curadora da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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