Um dia qualquer de novembro… O tempo não passa e só me apetece apanhar ar fresco, ou talvez o expresso da noite. Eu necessito de uma lufada de bálsamo puro. A hora perdeu-se na noite ao acertar o relógio da sala. Andou sessenta minutos para trás; não como o caranguejo, porque esse, ao contrário do dito , anda para o lado.
Hoje eu desejo caminhar para o passado, não só uma hora, mas muitas vinte quatro badaladas, e voltar a acreditar. Não sei qual seria a estação da vida a que iria regressar se, na primavera ou na entrada do verão, já não consigo recordar mais. Agora, neste ano, neste minuto, não sei medir a estação em que me encontro. Talvez esteja na entrada do outono, com o dourado e o prateado constantes, brilhantes; e ainda há flores. A claridade já não é florescente como na primavera, mas é terna e constante. O sol dá seu brilho muito próprio, calmo e charmoso. O dia não é tão longo; mas a noite, essa sim cresceu uma hora. Hoje, especialmente hoje, neste dia de novembro, a tarde diminuiu na luz e só me apetece apanhar ar fresco. O sol está a ficar pálido e as folhas estão espalhadas pelo chão. São elas amarelas, castanhas, vermelhas ou rosadas. Olho da minha varanda, sozinha, como sempre, e o silêncio invade o meu pensamento. A companhia é ou pode ser apenas a presença física, e estar-se sozinha na alma e no toque. Estar ou não estar tanto faz. A diferença já não existe. A indiferença é a presença de duas almas e dois seres que ocupam um determinado espaço físico, sem contato emocional. Daqui a pouco, irás ver a tua TV, e eu a minha. Passarão as horas, devagar, e aquela que diminuiu ou aumentou a luz nada traz de novo, porque há duas almas. Depois iremos para a cama e nada vai passar, porque o inverno está gelado e não me deste os parabéns pelo meu aniversário, nem te levantaste para diminuir o gás do fogão; e deixaste a sopa torrar. Já não me importa o que fazes, porque será sempre igual,; e a hora voltará novamente dentro de uns meses. Não quero falar de ti. Não quero falar da hora. Vou ver o filme que está passando na minha TV “Married by Christmas”. Será este o único comboio desta noite? Eu não quero ver uma alma à procura de outra. Talvez se tornem uma só, ou não. Mas não é este um filme de Natal?! Ainda é só novembro e o “thanksgiving” ainda não chegou, mas Carrie tem que procurar um marido até ao Natal. Não é, com certeza, uma lufada de frescura neste exato minuto, mas é o único expresso da noite disponível no momento. Quem sabe amanhã terá chegado a uma estação que se chame primaverão e que fique na zona mais bonita do Cais do Sodré, ou talvez, mais certo, no labirinto do Times Square, onde o tempo não tem tempo e corre com velocidade. Corre tão veloz como as agressões da Hillary x Trump ou vice-versa da campanha eleitoral. Todos sabemos que o percurso é estreito e longo como as horas sem luz . Nem sempre a noite tem luar, nem o dia tem sempre nuvens. Um copo de água não afoga, nem o vinho limpa. O chocolate, esse adoça e dá prazer ao estômago, e se torna companheiro físico no toque e no saciar circunstancial. Será sempre o doce que não azeda, o amante que espera a mais sensacional afrodisíaca relação entre dois. Talvez haja um novo expresso da noite…


Ilda Pinto de Almeida. Encontra-se radicada nos Estados unidos há três décadas. Tem como passatempo o campo das Artes Plásticas, onde tem participado em várias exposições colectivas nos estados de Nova Jersey e Nova York, com trabalhos de colagem sobreposta – técnica mista de acrílico sobre tela. No mundo da escrita, tem trabalhos publicados em várias coletâneas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

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