Mais uma noite às claras. Novamente uma sensação de inquietação tomava conta de Beatriz, de tal modo que ela se pôs a caminhar pela sala, vagando entre os móveis e as sombras dos seus pensamentos. Ela não conseguia se desvincular das dúvidas que insistiam em invadi-la naquela madrugada abafada. Decidiu então abrir a porta de sua casa; queria que uma ventania forte, dessas que arrastam tudo, logo chegasse. Com as mãos ágeis, escancarou com pressa a porta e viu, à sua frente, a rua completamente vazia, sem ruídos, nem humanos a caminhar. A rua estava arrebatada pelo silêncio, e isso a enchia de um medo definido, quase parecido com o temor de se levar uma vida calada. A natureza humana é propícia para a atividade de prisioneiro. Os humanos são destinados às grades – pensava tais coisas Beatriz, oriunda de uma típica família conservadora.
Seu pai era um evangélico fervoroso e sua mãe, uma dona de casa taciturna, reclusa ao ambiente doméstico: roupas sujas para lavar, creme dental para incluir na lista de compras da semana, receita de bolo de fubá; essas eram as falas ditas comumente pela sua mãe. Quantas vezes Beatriz desejou que aquela mulher que a parira tivesse aspecto de fêmea que anseia por calor e paixão?! Mas não, a sua mãe era a mesma senhora recatada, do tipo que nunca falava em sexo, apenas em problemas de saúde no seu aparelho reprodutivo.
Agora, aos 32 anos, Beatriz havia realizado todos os desejos que nutriram para ela. Não formara família, nem procriara herdeiros. Dedicara-se logo aos estudos, terminando, aos 21 anos, a sua faculdade. De cara, conseguira um bom trabalho na sua área de graduação e já morava sozinha em seu próprio apartamento; certo que ele era pequeno, mas era seu, financiado por um projeto de moradia social, por longos anos, que ela, por vezes, esquecia tal detalhe. A rotina da jovem se reduzia às obrigações adultas numa sociedade de consumo: conquistar dinheiro, pagar suas despesas mensais e usar roupas de grife, cujas marcas escravizavam trabalhadores bolivianos. Mas isso seria tudo? Será que sua mãe tinha razão, quando lhe argumentava que a mulher, para ser feliz, tinha que ter marido? Não, não podia ser.
Decerto aquele vinho chileno, bem adstringente, meio amargando, não lhe caíra bem. Também, como sempre, Beatriz degustara um bom vinho sozinha. Qual a graça que há em provar um vinho sem uma companhia sequer? Ela bem que poderia ter convidado o vizinho do apartamento 301 ou o seu chefe, que vivia a se insinuar para ela. Entretanto, Beatriz parecia querer se tornar sinônimo da palavra solidão, e tudo por uma questão de enfado. Ela achava profundamente cansativa a corrida para encontrar um par, a tão famosa alma gêmea. Quantas vezes recebera um convite de uma amiga para conhecer um fulano de tal que diziam ser interessante! Mas ela acabava desistindo do encontro antes mesmo de se maquiar na frente do espelho. Pensava logo nas horas intermináveis do ritual de beleza a que seria forçada: maquiagem impecável, cabelos alisados, vestido adequado, unhas feitas… E, ainda assim, o tal sujeito nem notaria nada; apenas passaria a noite se vangloriando, exibindo penas, numa tentativa de autoafirmação semelhante à que os pavões fazem com suas fêmeas.
São quase 4 horas da manhã; Beatriz ainda não foi visitada por nenhuma ventania. Parada bem à porta de sua casa, ela apenas avista, a poucos centímetros, sua caixa de correio abarrotada. Por não conseguir dormir, a moça resolve verificar aquela papelada toda, que certamente se resume à cobrança de contas mensais. Pega o enxame de correspondências e corre apressada para o seu quarto. O que a insônia é capaz de provocar na gente? Checar papéis de correio em plena madrugada?! Com desinteresse, começa a separar cada postagem; um ato inteiramente automático, sem chance para divagações. Talvez fizesse isso até conseguir dormir. Tenta então guardar as contas de telefone na escrivaninha da direita e as propostas de cartão de crédito, bem ao lado; até que nota um envelope maior, empacotado com um papel brilhante. O que poderia ser? Beatriz imaginou logo os seus tempos de meninice, quando corria aos braços do pai sempre que ele recebia qualquer correspondência. Quis ela que fosse um convite para visitar Isfahan, a sua cidade persa preferida. No fim das contas, Beatriz cresceu sem se transformar na aventureira andante que idealizara em sonhos. O seu mundo se reduziu aos 54 m² do seu imóvel.
Entre indagações e insônia, Beatriz tentava dormir; seria então mais um dia de sonolência no trabalho.
Todas as manhãs, a moça se levantava cedo, comprava um café e pão recheado com requeijão, vestia-se sem vaidade e ia para a labuta. Ao chegar à empresa, cumprimentava os seus colegas de trabalho, desviando os olhos do chefe, no intuito de se sentar rapidamente na sua cadeira, sem a impressão de que o abusado do patrão continuava a observá-la. Que raiva sentia dentro de si! Ela considerava espantosa a obrigação de viver atrelada a algum homem. Não conseguia compreender o fundamento dessa lei cogente, se até Deus, no ato de fazer nascer o seu único filho, deu uma prova clara de que os homens são dispensáveis. O Todo Poderoso precisou tão-somente de Maria para que o Verbo se tornasse carne. Mas, parecia que os olhos do mundo estavam vendados. Cada vez que visitava os seus parentes, Beatriz tinha certeza disso. Por que você quer outro emprego, se o seu chefe é tão bom? Por que você não arruma um namorado? Tais eram as iguais indagações das suas tias, sempre que as visitava.
A esfera da privacidade é regida pela singularidade, até porque cada criatura humana deve ter o direito de escolha sobre com quem dividir a cama e se ela deve ser um objeto de partilha. A busca da felicidade pessoal prescinde da bússola das convenções sociais. Embora assim pensasse, por vezes, Beatriz até chegou a se questionar se o problema não era mesmo com ela, indagando-se: O que me falta? Por que não conduzo os próprios passos?
Espatifadas na cama, as correspondências de Beatriz continuavam presas ao ritual de descoberta. O envelope brilhante permanecia nas mãos da moça. Com selo postal da Índia, Beatriz apressada rasgou logo toda a embalagem. A curiosidade não permite recato. Viu assim que era um livro de poesias, enviado por uma boa amiga de infância, que trazia logo nas primeiras páginas a seguinte dedicatória: Amiga Beatriz, segue este livro de poesias formatado de saudades. Estou aproveitando os meus dias aqui pelas terras místicas da Índia. Como dizia o imperador filósofo Marco Aurélio: “Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros… Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes.” Abraços da sua irmã de alma, Helena. Nesse instante, Beatriz respirou um ar congelado. Aquelas palavras vindas de uma terra distante estavam destinadas para ela. O tempo permanecia em marcha, enquanto Beatriz passava. Lembrou-se logo da força arrebatadora do vento. Sua amiga Helena tal qual uma folha, na ânsia de partir para novos mundos, ficava à espreita, esperando o momento em que o vento pudesse afastá-la das secas árvores e assim a conduzisse para o mais longe possível; agora ela já havia chegado à Índia. Em seu coração, Beatriz temia o pior, imaginando que nunca se permitiria ir pela vontade do vento.
Todos os males nascem das correntes, arrematou Beatriz. Para ela, o acorrentado era aquele sujeito permissivo, subserviente aos desejos alheios, um típico escravo dos outros. A moça sem sono prometeu a si própria que se rebelaria contra os seus carcereiros a partir de amanhã. Ousaria gritar um NÃO bem alto contra todos. Ela se delimitaria frente às intromissões do mundo; afinal, a busca da felicidade é um direito inalienável.
O dia clareou e o relógio já imperava a sua ordem: 6 horas da manhã; é tempo de se arrumar para o trabalho. Novamente Beatriz não contestou, obedeceu ao mandamento do relógio e saiu para a rua; lá acharia um café requentado e um pão recheado com requeijão, torrado num forno de micro-ondas. A moça dispensou, como sempre fazia, a carona do vizinho e todas aquelas reflexões que a haviam atormentado durante a madrugada. Como é bom viver numa metrópole sem ter tempo para se debater em questionamentos!
Beatriz então desceu a escada do prédio e já na saída sentiu a dormência de suas dores íntimas. A agitação da cidade era mesmo um santo remédio. Sem pausa para reflexões, sem espaço para sofrimentos. A vida superficial seguia em igual compasso ao tempo do semáforo. Ao cruzar a esquina, uma sensação maior de calmaria a invadiu.
Beatriz percebeu um pai carregando as mochilas do filho, já um adolescente robusto. Lembrou-se nessa hora da onipresença de Deus. Tal qual um pai, Deus está em todos os lugares, sempre guiando as nossas vidas, sem que precisemos nos preocupar com os fardos das consequências de nossos atos. Ele tudo sabe e tudo vê. Somos como as criancinhas, concluiu Beatriz agora com um sorriso de alívio no rosto. A razão por que toda criança procura instintivamente o pai para conduzi-la nesse mundo é que ela é incapaz de se orientar pelo seu próprio julgamento. À medida que os pais assumem o norte do destino dos seus filhos, a estes deixam de pertencer os seus fracassos. O preço da liberdade é a angústia.
Finalmente, parecia que um sopro de leveza tinha encontrado Beatriz. A vida sempre meticulosa tinha cedido à força da providência divina, tão inexplicável e fantástica. As ruas estavam silenciosas, apesar das buzinas dos carros, já que agora os pensamentos de Beatriz não mais falavam. Ela assim seguia feliz, arrastando seus grilhões, entre os outros vultos humanos.


Ana Farias (Caicó, 1984). Advogada e contadora de histórias. Autora do livro infantojuvenil Enquanto o Sol Teimar em Brilhar.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Os outros somos os carcereiros, por Ana Farias

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