“Não posso evitar de dizer a todos que devemos nos acautelar de frequentar os mutilados ou com imperfeição em algum membro (…). Exemplo do que digo: aqueles que tem os olhos mutilados ou imperfeitos, o nariz, a boca, os pés, as mãos, com má-formação ou que mancam de um dos pés, ou que sabemos serem saturninos”.

As minúsculas manchas metálicas na íris dos olhos cor de ocre de Apolônio irradiavam fios.  Uma teia de aranha se formava sobre a Plaza Alfredo Jarry, uma lona de circo esburacada a cobrir o corpo moribundo recém explodido.  Um policial chutou o morto três vezes para certificar-se de que estava abaixo do horizonte. Zumbido da sirena.  Ronco de motores.  Apolônio observava a barafunda, sentado em um banco, cara a cara com a carraspana que o espreitava do céu.  Chegara ao povoado depois de percorrer a superfície inesgotável do caminho, a pele inteira do mundo, e, enquanto desfrutava de um churro recheado de doce de leite, ouvira o berro de “Allah uh akhbar”.  Um disparo de bomba seguira.
Apolônio era um homem caolho, extremamente comprido e ossudo e que tinha, à altura das espáduas, uma corcova, proteção adicional ao coração, nem à direita, nem à esquerda, que soprava para as costas, inflando-as.  A dois passos de distância dele, naquele momento, uma anciã se curvara para resgatar a bengala tombada com o susto.  Do rosto dela projetavam-se olhos inchados e remelosos, de cílios imensos, nariz bicudo e lábios descarnados.   Uma velha guardiã de gatos e aves falastronas.  Assumindo vida, a senhora Laurita soltou que  “em Jalisco, estamos cansados das pregações dos lunáticos!”.   Fez com os braços para pegar os quatro cantos da praça e dobrar como uma colcha para si.  Apolônio mastigava o churro morosamente e conteve-se para não falar de boca cheia.  O doce de leite derretido sobre a língua desfazia-se como sal na água.  “Menos um para entregar cartas e pacotes”, queixou-se a senhora Laurita.  “Você não imagina a dificuldade para encontrar-se sinaleiros, assistentes e mensageiros neste povoado.  Uns morrem, outros matam-se, por fanatismo.”   Laurita embrulhou a colcha e colocou-a dentro da bolsa.  Vestia um xale de rendas brancas sobre o manto espanhol e ficava de pé com dificuldade apesar de confiar na bengala.
Temeroso pelo doce que se fundia, Apolônio deu a última mordida no churro. O indiano, tão celebrado por Teofrasto, de turbante preso por uma pedra de rubi colada sobre o desenho da antiga suástica advertira-o sobre os perigos que o acometiam.  Por dez pesos, o guru lera a fortuna indicada pelas bicadas de um periquito de penas verdes e cabeça e bico de amarelo solar.  A tira de papel fisgada pela ave, replicava a mensagem de um biscoito da sorte chinês aberto no galpão da rodoviária quinze anos antes daquela viagem.   Ambos os mistérios asiáticos vaticinavam: “Cuidado”.  Na boca de Apolônio, a saliva perdia o doce.
Apolônio acompanhou a velhota em lentidão reumática descer a rua estreita de pedestres até que a viu entrar numa casa em restauração, com um sinaleiro que segurava um anúncio em neon:  Morales y Morales, investigadores.  Voltando os olhos para a Plaza, Apolônio  notou que os policiais e uma ambulância estacionavam os veículos próximos ao cadáver e recolheram-no.  A euforia ficou suspensa até os lixeiros coletarem os destroços e os músicos dançantes subirem ao coreto.  Cinco homens tocavam o “Tango 31” em acordeão e violinos.  Uma “quinceañera” posava para fotos, com um buquê de rosas vermelhas para tapar o rosto maquiado.   Uma hemorragia tingia as nuvens singradas no vácuo entre o povoado e um universo negro estelar arrancado de fábulas noturnas.  Ainda era dia.  Havia luz.  Apolônio recordava as cores e fisionomias infernais dos painéis de Orosco, que vira em visita a casa de Las Cabañas; não teria estado o rosto da senhora Laurita naquelas estampas?  Não seria de lá que ele a reconhecera?
Uma grande romaria se organizava ao redor.  Os camarotes dos engraxates permaneciam fixos em seus lugares, alguns fechados, outros a funcionar.  Fora das igrejas, os ceguinhos ordenavam as coletas de dinheiro e o negócio das velas.  Apolônio levantou-se do banco para sacudir os cristais de açúcar do churro e limpar a roupa.  Após a publicação de seu último livro, ele tivera que fazer as malas e registrar-se num congresso de astronomia para iniciantes.  Críticos e acadêmicos haviam massacrado a edição de  “O Supermacho II, continuação patafísica” em que Apolônio trazia André Marcueil de volta.  O personagem retorcido entre ferragens se entregava ao amor, do qual teria sido incapaz até julgar a amante morta.  André casava-se afinal com a personagem Ellen.  Um joalheiro criara pérolas a partir das lágrimas sólidas do Supermacho para adornar o pescoço da noiva.  O coração rígido do protagonista fraquejara numa reviravolta absoluta e quebrara o ciclo de voltas sobre si mesmo, numa sacada considerada surpreendente por Apolônio.  Durante a escrita do “Supermacho II”, Apolônio andou como se estivesse doente, quase não se alimentara, o corpo se resumindo em pele e osso apenas, e para que?
Ao galgar os degraus que davam para o portão de entrada da casa azul, Apolônio sentiu uma leve tontura. Com a respiração ofegante à guisa de quem troca de órbita, encontrou uma mulher quase anã, atrás de um balcão de madeira tão alto que a fazia desaparecer.  “O senhor tem hora marcada?  A minha agenda está vazia para hoje”, irrompeu a voz escondida para rachar o silêncio ao meio.  “Não, minha senhora, não tenho hora marcada mas se me fizesse a gentileza… “, retrucou Apolônio.  A assistente explicou:  “Vou ver se a Grande Investigadora, a senhora Laurita, pode atendê-lo.”  Apolônio assentiu.  Da rua, ouvia os autofalantes a replicarem sermões, santos e anjos conclamados por padres que empurravam os fiéis pelas testas e exorcizavam os maus pensamentos da soberba, da inveja e da fornicação.  O churro o alimentara porém uma sensação de incompletude despontava nas vísceras, um desejo corporal, uma vontade de consumir o Demiurgo pela boca, morder a panturrilha de Jesus ou a orelha do Espírito Santo.  Experimentava a conhecida fome da fé.
O rosto feminino e envelhecido da senhora Laurita não desgrudava da memória de Apolônio.  Viera até a casa azul trazido por uma curiosidade inusitada.  É bem verdade que desde sempre admirara investigadores particulares, sendo aquela ocupação superior a de um escriba.  Entretanto, não teria sido do seu conhecimento que a senhora Laurita era uma investigadora.  Tinha a fisionomia de uma herbolária.
Sem que se desse conta, Apolônio abriu o coração para a Grande Investigadora tão logo ela o recebeu na antessala.  “Senhora Laurita,  gostaria de lhe confidenciar sobre o meu sonho de tornar-me um detetive selvagem, destes que só a América Latina produz, um homem com poderes especiais, alguém que se esconde na Amazônia para descobrir coisas.”   Laurita reagiu com uma gargalhada jovial.  “Sou velha o suficiente para farejar disparates! Vamos direto ao ponto, Apolônio!  Sei que aprecia churros de doce de leite e usa calças listradas por falta de opção.  Preciso de um novo assistente, não me importo com o que veste ou como se alimenta.  O último não durou nem um mês na agência.  Está no hospital, ligado aos tubos.  Os médicos dizem que foi envenenado e perdeu o funcionamento dos órgãos vitais.”  Ao terminar a frase, Laurita dissimulava a alma ou alguma outra coisa interior, ou inferior.
Apolônio quis explicar-se, argumentar que um detetive latino-americano e selvagem aventura-se ao invés de esconder-se sob uma cortina de laudas e deixar-se imprimir a qualquer preço.  A quantas não andava a sua coleção de atos de covardia?  Relegara Lídia ao irmão mais velho e, em sua solidão miserável, obedecia a Silfo pela mão solitária.  Detetives, por outro lado, usavam disfarces para uma finalidade racional, não preenchiam lacunas solucionadas pela imaginação.  Os labirintos tinham centro e faziam sentido.  Ao invés de livros, produziam relatórios com fotos e descrições.  A América Latina precisava ser investigada. Apolônio queria independer-se da patafísica, entupir-se de churros recheados com doce de leite, aderir a uma religião e, sobretudo, assumir o posto de assistente investigativo da Grande Investigadora da agência Morales y Morales.
A Senhora Laurita, apesar dos anos avançados, demonstrava energia.  “Se estiver interessado em trabalhar para mim, posso levá-lo agora para ver a porta que encerra as tralhas abandonadas por Ernesto Garcia na cobertura desta casa. Garcia não passa de um astrônomo inescrupuloso cuja sala está trancada há trinta anos.  Odiara a José Clemente Orosco, os dois havendo competido pela fama dos murais e por uma mulher.  Desistindo da arte que o atraiçoava, assim como da tal mulher, Ernesto buscou abrigo no interior da província, na fazenda de uma antiga amante com sotaque francês e relacionada ao último tzar da Rússia.  Ouvi que mantém um aviário lucrativo, dirige embriagado e  apanha cornichos, um tipo de fungo crescido no centeio e conhecido como “ergot” , ou esporão de centeio distribuído nas panificadoras de aldeia em aldeia.  Basta uma grama em cada quilo para a produção de sinais clínicos de intoxicação nos comensais.  A formula algébrica de Leo Perutz estabelece os números exatos para o alucinógeno provocar o aumento do fervor religioso em humanos já que animais não aderem a religião, sequer conversam com Deus.  A fé se instaura é por processo químico… está comprovado.”
No topo da casa, encontraram o terraço escancarado para o céu e com uma construção aos fundos.  “Apolônio, repare nesta porta podre por causa das infiltrações.”  Apolônio, animado a abandonar a condição de escritor, tateou a porta coberta por vários dedos de tinta cinza e espessa.  Cadeados impediam a entrada de estranhos embora a porta estivesse traumatizada por tentativas de arrombamento.  “O que me espanta, senhora Laurita, é que esta não é uma porta forte, indestrutível.   Com um bom pontapé, eu a derrubaria facilmente.”   No canto esquerdo, uma pequena janela de vidro na lateral do quarto exibia mesas e cadeiras escolares, papéis soltos em alfabeto cirílico e uma lâmpada solitária pendurada no teto.  O coração de Apolônio deu um pinote, era o sopro na corcova a vibrar.
De volta a pensão onde se hospedavam ele e outros participantes do congresso de astronomia para iniciantes, Apolônio anotou num bloco os detalhes investigativos apreendidos e permaneceu horas na sala de estar, preparando-se para as palestras sobre buracos negros e novos planetas, a sua boca salivava por um churro de doce de leite e a sua fé o inflamava ao refletir sobre a imaterialidade cósmica.  Cansado de estudar, colocou o chapéu do Panamá sobre o crânio e navegou pelos logradouros, entre a populaça miúda em reza e orações e as igrejas ebulientes.   Comprou dois churros recheados e experimentou ter os sapatos engraxados num dos camarotes que rodeavam a Plaza.

***

Na manhã seguinte, a Senhora Laurita estranhou que Apolônio não aparecesse na agência conforme combinado.  Teria sido o seu primeiro dia de trabalho como sinaleiro.  Ao meio dia, a velhota deu início a uma procura pelo antigo escriba que a levou ao hospital metropolitano.  Encontrou Apolônio tão entubado quanto o assistente do mês anterior e sob os cuidados de enfermeiros encantados pela neve de São Pedro a cair pelo vidro das janelas da central de tratamento intensivo, um jogo caleidoscópico intenso de elevação divina que não deixou de transtornar a Grande Investigadora, cujo repasto da manhã incluíra um pãozinho de centeio.  A decadência erótica de Jalisco não escapava aos espíritos entre milhares de demônios, jinns elusivos ou a audácia de Mefistófeles.  Laurita abriu as pálpebras dos olhos dormentes de Apolônio e constatou que as manchas metálicas na íris se esparramaram pelos globos oculares, reproduzindo imagens das páginas escritas por ele em vitrines de livrarias fechadas, por onde os curiosos lamentariam a passagem de um escritor com ganas de ser detetive.
A dona da pensão explicou a senhora Laurita que tudo se passara com a rapidez de um verso.  Apolônio voltara do passeio noturno, reclinara-se em uma das poltronas e perdera consciência.  Gritou com nervosismo, chamou por sereias, pássaros marinhos sobrenaturais.  Parecia estar em transe.  Implorou a Alá que lhe abrisse um postigo no paraíso.

***

Mais tarde, numa fazenda perto dali, o Professor Garcia e Madame Petrósvska, agora sem a máscara postiça, comemoravam o sucesso de mais uma rendição.  Os envenenamentos se propagavam e repercutiam.  Laurita flanava de bengala em busca de eleitos, como convém à Circe.


Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas.  Publica no Jornal Rascunho.  Colisões BESTIAIS (Particula)res pela Editora Oitoemeio (Rio de Janeiro) é o seu terceiro livro de contos. Antes, publicou Forrageiras de Jade (2009) e Forasteiros (2013), editados pelo Projeto Dulcineia Catadora.  Lançará Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas pela Editora Oito e Meio em Dezembro de 2016.

 

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Churros de Saturno, por Kátia Gerlach

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