Quando os avós ligavam e diziam alguma coisa sobre saudade, eu ia. O telefone parecia trazer um inverno ameno, repleto de sabores e aromas peculiares, nem tão doces ou amargos, mas uma nuance que estabelecia um elo entre os paladares. Um querer e não querer, gostar e não gostar, tensionando, equilibrando. Eu chegava à sala depois dos abraços… Eu chegava ao sofá preto, antes de tudo. O sofá preto de jabuticaba, com textura de jabuticaba, com olhar de jabuticabeira para mim. Ele me dizia com silêncio breve de fruta: – Sente-se. Eu sentava. Bem no meio, no encontro. Bem no encontro, o desencontro. Havia um buraco entre as almofadas, um buraco solene, do qual não haveríamos de escapar, nem em mil estalos de dedos ou piscar de olhos. Eu sentava e afundava. Afundava lentamente até o avesso do sofá. O mundo abaixo, onde enxergava apenas as estruturas firmes de ferro, amparando as almofadas. Estruturas ondulares, cujo esforço era recompensado com desenhos espetaculares feitos de desgaste e desbotamento. A impressão precisa da força dos corpos denunciava até as ausências. O mundo abaixo do sofá era feito de pregnâncias e impressões. Eu escorria, sentindo o peso do meu corpo flutuar no ínfimo espaço até tocar o chão. E lá permanecia. Era como nascer. Era como reinventar o nascimento. Era também morrer. Era uma espécie de passagem secreta entre as vidas. Todas as vidas que quisesse. Cada uma delas vividas sob o aroma do ferro no tempo. O tempo escrevia poemas inteiros em uma língua inventada somente para essa experiência. Nós tocávamos as pontas dos dedos nesse braile de memórias, afetos e alguma ferrugem, até que decidíamos voltar à superfície. Eu morava dentro do tronco da jabuticabeira e podia ouvir as vozes de fora. As outras vozes perdidas nas mãos e nas bocas que apanham as frutas maduras, que falam de amor em excesso, que ensinam a fazer um suco macio sem jamais ter provado do estado de ser raiz. Para ser raiz é preciso ultrapassar as vidas e as mortes. É preciso afundar no buraco do sofá preto da sala da casa dos avós. É preciso sentir saudades.


Rafaella Rímoli (Brasil, 1988). Poeta vencedora dos prêmios: Literário Paulo Freire (2012), ‘Escritores in Progress’ (2012) e Literário Darcy Ribeiro(2014). Autora do Livro ‘O Haver Flor’ (Editora Coruja, 2013). Escritora e ilustradora da página virtual ‘Contínuo Instante’ (livro em constante composição).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

4 replies on “Jabuticabeira, Rafaella Rímoli

  1. Que belo texto, quanta poesia. Cada palavra é tão carregada de sentido que sentimos a nitidez da sua poesia nas nossas retinas, pele, memória. Mesmo eu que não tive avós com um sofá preto tive a convicção de ter vivido essa chamada de saudade por telefone que me levou a sentar no sofá preto de jabuticaba.

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