Em um tempo onde o imperativo do teatro é trabalhar com imagens e a criação coletiva é quase uma obrigação politicamente correta, o texto teve de sair do lugar que antes ocupava e se reinventar, para não ser definitivamente exorcizado do universo teatral. Deixando de lado radicalismos passionais, o fato é que o texto virou artigo acessório; e o dramaturgo, uma figura quase ausente dos processos criativos, por mais que os nomes se mantenham em evidência, seja por vaidade ou por um corporativismo que tomou conta até do fazer artístico, coisa impensável para quem não corrobora dos valores da indústria cultural. Sem aprofundar esse debate, pois não é esse o objetivo dessa missiva, e sem nenhum tipo de saudosismo, não dá para esconder o prazer do autor dessas tortuosas linhas com a leitura de um texto teatral, principalmente quando o texto reflete todo esse processo de transformação que o fazer teatral vem sofrendo no decorrer do tempo. E esse prazer veio como uma enxurrada extática com a leitura das peças de José Manuel Lázaro. DÍPTICO – ALÉM DAS CINZAS, O OCASO DA PRIMAVERA e OS ÚLTIMOS OLHARES DE VLADIMIR formam uma trilogia não intencional, que mais parece um oceano, ora embalado pela leve brisa da poesia, ora revirado por altas ondas tempestuosas, mas sempre com a dose exata do mistério oceânico, que nos obriga o tempo todo a um navegar respeitoso e compartilhado, para não sermos tragados por suas múltiplas surpresas, o que, no caso dessas peças, às vezes, é uma inevitável alegria. OS ÚLTIMOS OLHARES DE VLADIMIR é a mais dramática das três peças. Com uma estrutura próxima da tradicional, dividida em atos e cenas, o texto está longe de ser conservador. Com um lirismo típico da linguagem poética, misturado com a forte carga simbólica do expressionismo, e com os gritos hiperbólicos característicos da própria linguagem do poeta russo, o texto nos coloca magistralmente diante do conflito entre o indivíduo que se move pelo amor e um sistema opressor que impede qualquer manifestação libertadora. É a melancolia solitária do Dr. Gachet de Van Gogh, misturada ao Grito excessivo de Edvard Munch, em um mundo onde, às vezes, é possível respirar e sorrir, mas que, quase o tempo todo, nos coloca diante de seus bufões-homens (sejam eles com gatos ou sem orelhas) para nos mostrar o vazio em que estamos mergulhados. O sacrifício final do poeta é redentor, sinalizando uma possibilidade de cores vivas nesse mundo cinza… Talvez o amor seja um pincel… Ou uma pena… O OCASO DA PRIMAVERA é um ato sem palavras, apesar de as palavras estarem presentes o tempo todo… Mas elas são apenas sons… Sussurros e delírios… Dividido em oito partes, as quatro estações do ano entremeadas por um ciclo de nascimento e morte, o texto tem a poesia angustiante de Beckett e a crueldade imagética de Jean Genet, isso só para ficar nos autores do Absurdo. Capulho foi estuprada? A Avó assassinou O Aparecido? Ou tudo é um projeto de vida, o desenrolar sarcástico da normalidade? Com alguns momentos do Romantismo – no melhor estilo do – ou morrem os amantes ou morre o amor, o texto nos leva às ligações perigosas de Heiner Müller. Só não sabemos se são duas, três ou muitas pessoas que amam… Ou nenhuma… E o mundo continua rodando lá fora… DÍPTICO – ALÉM DAS CINZAS é um tratado indigesto da impossibilidade do amor. Um prólogo de névoas, uma interseção de fumaça e um epílogo de cinzas mostram os paradoxos inevitáveis e dolorosos que nos cercam, recheando duas cenas onde o amor é o centro e a periferia. Os dois calculadores despejam sem piedade o desespero de quem quer se libertar das paredes matemáticas das relações padronizadas. É um turbilhão cabalístico de quem tenta fugir das abstrações vazias que reinam no nosso mundo… E que acaba virando, ele mesmo, uma abstração… As duas portas se abrem para uma nova versão do universo de Ibsen, só que sem nenhuma esperança, nem para Nora, nem para Torvald. A secura maravilhosa dos roteiros-rubricas de Beckett se junta às feridas das carícias de Sergi Belbel… A faca é cravada no nosso coração e a lâmina fica rodando eternamente… Não temos descanso… Essas três peças de José Manuel são relíquias de uma dramaturgia que poderia estar sepultada na cova rasa do teatro contemporâneo, mas que, no sentido oposto, alimentam incrivelmente esse teatro, pois são verdadeiras fontes de imagens e ações densas e plenas… É o manifesto de uma narratividade líquida, difusa e multifacetada… A leitura dessa dramaturgia tão complexa e, ao mesmo tempo, tão simples e direta nos faz sentir o gosto amargo dos sentimentos improváveis em um mundo onde, para eles, não há espaço. A poesia nos traz a ilusão de que é possível cultivar esses sentimentos, apesar de o meio lutar contra (OS ÚLTIMOS OLHARES DE VLADIMIR). Quando a ilusão acaba, sobra a violência dessa luta (O OCASO DA PRIMAVERA). Quando a violência já se tornou parte do nosso organismo, restam apenas as cinzas do vazio (DÍPTICO – ALÉM DAS CINZAS)… Entretanto, a leitura traz também o alento de que a dramaturgia conseguiu reencontrar o seu espaço no teatro atual, com a palavra mais viva e vibrante do que nunca…


Roman Lopes (Brasil, 1969). Brincante das palavras, que navega nas águas da poesia, da prosa ficcional, da dramaturgia e dos ensaios. Pesquisador acadêmico nas áreas de Artes e Educação. Premiado em concursos literários no Brasil e editor independente de suas obras, tendo publicado uma novela e dois textos teatrais.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O coro das Oceânidas – uma nova aurora dramatúrgica, por Roman Lopes

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