Carta de Herta Antipoff para Gunnar Seymour

Gunnar,
Antes de iniciar para você um breve relato sobre minha vida nos últimos meses em que estive na ilha de Bali, quero que saiba que os anos em que vivi ao seu lado foram suficientemente construtores para mim, que me senti realizada como mulher e mãe. Mas quero que saiba também que o Amor é uma pequena gota de tinta que vez ou outra escapa das mãos de Deus e colore os nossos quadros brancos com um pouco mais de vida.
Neste momento, escrevo em tom de despedida, mas também de gratidão, afeto e profunda admiração pelo homem que você é. Quando retornar à França, em uma ou duas semanas, irei vê-los, pois tenho saudades de você, de nossa casa, de nossos filhos. Mas, para lhe ser fiel e sincera, adianto-lhe que não existirá mais entre nós nenhuma ligação primordial de homem e mulher, apenas um sentimento de respeito e cumplicidade. E é por conhecer intimamente essa alma compreensiva, disfarçada de ser humano, existente em você, que lhe descrevo as sensações, amores e conexões com o divino, experimentados neste lugar maravilhoso. Tornarei a escrever em poucos dias, quando chegar ao Paquistão, pois a mim restaram apenas o dever e a necessidade de realizar os seus últimos desejos de vida.

***

Existia, entre nós, algo menos metodológico e mais pluralizado em relação aos sentimentos que nos cercavam. No primeiro dia de sua chegada à ilha, contive-me em apenas elaborar um plano sucessivo de voyeurismo filosófico longe de qualquer óptica carnal e primária que fosse possível. Tinha, pela Ashna, um sentimento espontâneo de admiração em sua capacidade de permitir-se enxergar de outras formas, em outros olhares, pontos de vista, simétricas, parábolas.
Desembarcara em meio às chuvas torrenciais que chegam ao arquipélago todos os meses de maio, e, junto com ela, havia um casal de ingleses e espanhóis, que aparentemente não se conheciam e tornaram-se companhias de viagem, o que é, para mim, um fato completamente normal, visto que eles seriam as únicas pessoas estrangeiras com as quais manteria contato por estes lados do Índico nas semanas seguintes. Ashna saiu por último, com seus cabelos esvoaçantes, frente ao vento sul que soprava forte; mas não foi isso que me chamou a atenção, não foi a sua beleza ou características físicas, e sim o pequeno baú chinês que carregava nas mãos e algumas telas em branco debaixo dos braços.
A jovem paquistanesa, além de ser a primeira artista que eu conhecera pessoalmente na vida, foi também a primeira mulher que amei intensamente. Havia, entre nós duas, um espaço intransponível que ligava qualquer razão de sentimentalismo e racionalidade. O início dos exercícios de amor não veio à minha presença como algo premeditado ou arrebatador, eu sequer fui capaz de perceber a sua essência, a sua forma de manter-se vivo ou de nascer dentro em mim. Tenho uma ideia fixa em minha mente: que o amor nasceu às cinco horas da manhã de uma quarta-feira à noite, bastante fria e perturbadora. Foi somente quando avistei, de minha janela, dois pássaros azuis voando baixinho por entre as flores tropicais, que ele brotou em minha alma.
A partir daí, tive de conviver com esse pequeno deus das misérias que nos traz toda a sorte possível e deslumbre com o mundo e os seres que nele vivem. Fosse como fosse, inesperadamente ou não, o amor tinha dessas características mais sublimes de nos tomar o tempo de repente, e agir como se fôssemos pequenas peças de um quebra-cabeça onde tudo estava interligado.
Tudo que Ashna pintava, desenhava, rabiscava em seu caderno de anotações, ou mesmo escrevia, era para mim como um retrato, uma fotografia, uma arte concreta de si mesma. Nunca fui capaz de entender os seus desejos de desvencilhar-se logo de suas obras, assim que elas estivessem prontas, não gastando mais do que dez ou quinze segundos para apreciar a sua magnitude. Foi assim também com as cartas que me escrevera um dia, foi assim com alguns pequenos textos e anotações de seu caderninho, foi assim comigo.
Mas a sua presença ainda reverbera, isso eu não posso negar. Aliás, tudo que ela construiu ainda a contém, e por isso mantenho, sob meu alcance, seus desenhos, quadros e anotações desde o primeiro dia em que esteve em Bali.
Se havia algo de resplandecente no sorriso da Ashna, era o fato de que ela havia se tornado uma das pessoas mais contraditórias que se pode imaginar. Não bastava apenas amar-me, mas também usar-me de inspiração para as suas mais tristes aquarelas, e escrever sobre mim como uma de suas divagações psicológicas no seu caderninho de anotações. A partir dela, comecei a perceber que algumas coisas eram mais simples e menos figurativas do que eu poderia imaginar.
No dia em que nos encontramos, o céu era azul e as ondas ondeavam lentamente os mares do sul. Ashna mostrou-me um desenho que havia acabado de concluir enquanto esperava pelo café da manhã em uma das belas sacadas do prédio em que nos hospedamos. Na ocasião, vestia-se com um lindo vestido floral alaranjado e um chapéu com algumas flores pintadas. Hoje posso dizer, com toda certeza, que ela mesma foi responsável pelos desenhos no chapéu. Chamou-me para conversar e, sem receios, atendi ao seu convite, era o início de uma amizade de longos anos, que culminaria com um amor eterno e uma vida bastante curta.
Conversamos sobre a sua viagem e sobre o seu trabalho. Ela me contou que voltara de uma exposição naturalista no Brasil, e que se sentia inspirada para trabalhar com algo semelhante ao que havia visto. Aparentemente, ela experimentava uma nova áurea pela pintura, um novo sentimento instigador e inspirador. Estava começando a criar um novo conceito para suas obras, e escolhera as remotas ilhas da Indonésia para momentos de paz e tranquilidade, enquanto depurava as doses extras de arte que recebera.
Foi nesse mesmo dia que ela me fez outro convite irrecusável, mais formal que o primeiro. Depois de me presentear com o desenho de dois pássaros feito em nanquim e papel naquela mesma manhã, perguntou-me se eu estaria interessada em posar para algumas telas que ela estaria pronta para começar. Queria retratar algo mais natural e bruto das riquezas de Bali, e queria começar pela sua visão mais antropofágica e enaltecedora.
Olhando bem em seus olhos, fui tocada pelo som de cada palavra emitida pela sua boca. Soavam como sinfonias delicadas e chamativas, fazendo-me aceitar o convite, como se as ninfas o tivessem feito ao pé do ouvido. Saímos juntas naquela manhã, e nunca mais voltei ao quarto do hotel onde me hospedara.
Ashna me presenteou com os dois quadros que fizera nas duas semanas seguintes às que ficamos juntas. No primeiro, apenas o meu rosto tomava conta de toda a extensão da tela. No segundo, havia uma floresta e algumas flores com insetos e pássaros azuis. Algo de surrealista permeava as suas pinturas e eu somente fui capaz de perceber essa essência particular quando já era um pouco tarde demais.
Todas aquelas noites foram encantadoramente maravilhosas, assim como também os dias, as horas e todos os ternos segundos em que estive ao seu lado. Mas, foi ao final da pintura de uma série de sete quadros intitulados ‘Divagações em Bali’, que Ashna adoeceu. A deusa da enfermidade transpassara a sua órbita universal e desposou o corpo dela. Seu olhar era doentio, sua boca era pálida, sua face amarelada; apenas o seu coração frutificava.
No dia do ocaso, Ashna ainda estava bastante fraca, mas fez-me prometer que iria levá-la ao monte Gunung Agung, o ponto mais alto da ilha. Assim dizia ela: – “Estarei o mais próximo possível de Deus e de toda a criação”. E foi somente quando chegamos que ela me beijou ternamente; conversamos durante muito tempo sobre como fomos felizes em nos encontrar naqueles dias em Bali e sobre as armadilhas do destino. Juramos viver intensamente qualquer amor que nos fosse oferecido, desde que puro e gentil.
Estava prestes a amanhecer o dia quando ela retirou do bolso de seu vestido um pequeno caderninho de anotações, que eu nunca vira. Havia em sua capa algumas inscrições em português. Imaginei que poderia se tratar de um poema, e que ela o trouxera de sua última viagem ao novo mundo. Em suas páginas, uma série de poesias intituladas “Biografia da Esfinge”. Hoje, dias passados desde a sua morte, percebo que a Esfinge, a que ela se referia, estava muito mais próxima de mim do que eu poderia imaginar. Cada verso seu me ressoava.
No final do caderno de anotações, havia um endereço da cidade de Lahore, próxima à divisa do Paquistão com a Índia. E é para lá que serei direcionada nas próximas horas, meu voo sairá em poucos minutos. Uso o tempo que me resta em Bali para redigir esta carta e avisar-lhe que nunca estive mais feliz em toda minha vida. Antes de enviar este correio eletrônico, vejo pela janela da cafeteria do aeroporto uma imagem arrebatadora. Está chovendo, assim como no dia em que nos conhecemos, e sou capaz de avistar dois pássaros azuis voando: eu e ela.

Herta Antipoff,
Bali, 2005

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Pássaros azuis, por Souza Pereira

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