O maço de cigarros quase vazio. O copo derramado sobre a mesa. A pinga forte recendendo no quarto sujo, escorrendo até o cabo do 38. Melando tudo. O dedo longo, amarelado pela nicotina, rodando o tambor, roçando o gatilho. E então se desviando para mais um cigarro. A reprodução malfeita de um Van Gogh na parede, imitando uma noite brilhante. Desbotada. Mesmo assim mais brilhante do que o céu que se vê agora pela janela. A pintura conversando com ela. Agonizando beleza em meio às coisas feias.
O banheiro rançoso. O barulho do ventilador. A cozinha sem comida. A mesa melada de pinga.
O 38 melado de pinga. A vida melada de merda.
O deboche do macho que foi embora na véspera. Gritando que ela não tem coragem. Que ela é um blefe.
Mulher ameaça se matar para o homem ter pena e ficar com ela. Mulher nem sabe se matar direito. Toma comprimido que é para dar tempo de alguém encontrar, ter pena, levar para o hospital, fazer lavagem, salvar.
Foi o que ele disse.
Só se esqueceu de falar da terapia. Para encarar com os mesmos olhos os mesmos abismos, e repetir com a mesma pressa os mesmos erros. Um se curar para se ferir de novo. Sobrevida em ciclos. É para o que servem as terapias. Engodo. Não tem sobrevida no abandono.
Ela quis conversar sobre essas coisas. Não deu. Ele saiu sem saber que ela não vai precisar de hospital, lavagem, terapia. Ela comprou uma arma. Que já matou antes. Alguém. Alguns. Uma arma safada, ungida de sangue. Velha e usada. Calejada como ela. Marcada por histórias recorrentes, por dores recorrentes. Recorrente foi um requisito que ela exigiu na hora de escolher a arma. Pessoas e coisas precisam se assemelhar para se unir.
O estômago se agita em náuseas que não têm a decência de virar vômito. A tontura não dá trégua. O corpo dói. O corpo se revolta. O corpo luta. Desperdício. Tudo inútil. A alma não luta faz tempo. Cansada, cansada, cansada. De um cansaço que cresceu desde que ela cismou de amar. Não deveria. Nem ter cismado nem ter amado. Como se isso fosse possível. Besteira. Ninguém cisma ou ama com a razão.
Balanço. Quantos homens estiveram dentro dela? Do corpo. Da cabeça. Cada um arrancando um pedaço do quebra-cabeças que ela montou de si mesma. Nenhum deles foi bom. Nenhum. Ela é ciclos repetidos de escolhas erradas. Fruta de tabuleiro que todo o mundo apalpa e deforma. Mas não leva. Apodrecendo sem viço, amassada e malcheirosa.
Sem culpas. Pazes feitas com a inveja de nunca ter sido um retrato roubado. Desses com risos e paisagens e tardes de sol e abraços de amor e outras mentiras. Ela não cabe em cenários felizes. Não combina com conselhos, rezas, doutrinas, fórmulas. Desfez-se de tudo isso. Mantras sem serventia. Ensinados por gente que não erra. Ou diz que não. Gente que não conhece a desistência. Que nunca partilhou de um desmonte. Desfez-se deles, também.
Restam apenas ela e os demônios. Mas eles podem ficar. São hóspedes antigos. Conhecem as regras da casa. Sem hospital, sem salvação, sem terapia.


Cinthia Kriemler (Rio de Janeiro, 1957). Contista. Semifinalista do Prêmio Oceanos 2016 com o livro Na escuridão não existe cor-de-rosa. Publica pela Editora Patuá. Graduada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade de Brasília-UnB. Mora em Brasília.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Regras da casa, por Cinthia Kriemler

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