Tinha 19 anos e acabado de me mudar pra Recife. Apaixonei-me pela minha nova rua logo no primeiro mês. De domingo à quinta, o silêncio era quase sepulcral; às vezes rompido pelo saxofone de um senhor de 93 anos que morava no começo da rua e os gemidos da vizinha do andar de baixo. O meu apartamento ficava no quarto andar e, da varanda, era possível ver a casa 26 que, aos fins de semana, enchia toda a rua de música. Ninguém reclamava. Na verdade, o incomum seria alguém não descer até a casa 26 para dançar frevo e paquerar as meninas que ali apareciam. Foi numa dessas descidas até a casa 26 que conheci Bernadete. Ela era uma negra linda, tinha cabelos cacheados, cuidadosamente bagunçados, lábios carnudos, um belo nariz arrebitado e olhos castanhos escuros que pareciam enxergar minha alma e minhas intenções. Dançava frevo como nunca antes ou depois eu vira alguém dançar. Quando nos vimos pela primeira vez, ela me virou o rosto, me esnobou. Ouvi do dono da casa que ela não era dali. Que estava de passagem e tinha se hospedado na rua de cima, numa pousada entre a igreja e a delegacia. Uma semana havia se passado desde a primeira vez que a vi. Logo que a banda começou a chamar para o frevo, eu desci correndo as escadas do prédio. Sentei-me na calçada e esperei Bernadete aparecer. Não demorou, e ela apareceu de guarda-chuva de frevo na mão, saia rodada, pés descalços e um sorriso no rosto que, dessa vez, me contemplava. A música começou e os passos de Bernadete também. Logo procurei desviar o olhar de suas coxas que brilhavam sob a luz do sol, seus seios que começavam a suar na blusa amarela, sua saia que levantava a cada descida ao chão. Olhei para os pés, foquei ali minha atenção, eu era quase um devoto dos seus pés, pés firmes e belos que ignoravam o chão quente e a poeira. Após duas horas de tão belo balé, Bernadete entrou na casa, e eu, como um menino que espera um doce, acompanhei-a. Assim que ela pegou um copo de água no filtro de barro, eu lhe ofereci um lenço.
– Eu conheço você? – ela me perguntou me encarando.
– Não. Meu nome é Pedro, eu sou novo na cidade. – respondi.
– Ah, eu sou Bernadete.
– Você dança muito bem, Bernadete.
– Você é um bom observador, Pedro.
– Desculpa, não queria ser indiscreto.
– Tudo bem. Pelo menos você olhou para os meus pés. – Ela disse, devolvendo-me o lenço e voltando para a rua.
Tentando não parecer que a perseguia, esperei alguns minutos e saí para vê-la dançar. Não a encontrei. Pensei que, se esperasse, talvez ela aparecesse correndo, sorrindo e dançando; mas ela não apareceu mais naquele dia. Voltei pra casa no fim da noite, pensando no que teria acontecido com ela. Aquela noite, eu quase não dormi. Cheirava o lenço e pensava em Bernadete. Pensava no sábado, talvez no sábado ela aparecesse. No sábado, acordei cedo e, antes mesmo de a banda chamar, eu lá estava. Não demorou muito e a rua começou a se encher de gente, se encher de carro, se encher de música, se encher de um boato. Disseram que a menina que estava de passagem tinha ido embora e não voltaria mais. Tomado pelo desejo de que fosse apenas boato, corri até a rua de cima. Chegando ofegante à pousada, perguntei à senhora que era dona do lugar.
– Uma moça chamada Bernadete? A senhora sabe se ela está aí?
– Uma que dançava frevo com os pés descalços?
– Sim, a senhora sabe dela?
– Ih, menino! Ela foi embora ontem mesmo.
Meu rosto vermelho do sol de repente ficou pálido. Como ela tinha ido embora assim do nada, se ainda ontem ela dançava frevo na rua de baixo? Nada fazia o menor sentido pra mim.
Quando eu estava saindo da pousada e dentro de mim começando a odiar a rua nova, a senhora que antes fora a portadora de uma má noticia me chamou.
– Ei, menino! – Sim. – Seu nome é Pedro, o observador? – ela perguntou enquanto segurava um envelope na mão.
– Sim, por quê?
– Ela deixou um envelope pra você.
– Envelope? Pra mim?
– Sim, aqui. – respondeu ela me entregando o tal envelope.
Sentei-me na calçada da pousada e, respirando fundo, abri o envelope com o cuidado de um apicultor mexendo num ninho de vespas. Dentro tinha uma foto de Bernadete sorridente numa nudez tão bela quanto eu imaginava. No verso, uma mensagem: “Ao observador que olhou apenas para os meus pés enquanto sua alma pedia para olhar o meu corpo, ofereço minha nudez. Procure-me. Sua Bernadete.”


Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Poeta e contista, é também professor de história, graduando-se pela Universidade Federal de Alagoas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Os pés de Bernadete, por Francisco Carvalho

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