Quem me contou foi um amigo. A história ele a ouviu da namorada de seu primo. Tinha origem em alguma mistura embaralhada entre um sonho real que teve e um país exótico que visitou durante uma temporada de trabalho na África. Para ser mais preciso, não foi exatamente ela a ter presenciado este empreendimento que hoje nos parece tão insólito. Quem lhe contou foi uma senhorinha nativa, cuidadora de animais domésticos abandonados, no dia da entrega do cãozinho que tão boa companhia fez a ela durante aqueles tempos cada dia mais distantes na memória.
Alguma pergunta despretensiosa, creio eu, levou a senhorinha a discorrer uma longa narrativa sobre o vilarejo onde havia nascido e crescido. Tão boa contadora de histórias que era, acabou sendo convidada pela jovem a entrar e tomar um “café brasileiro”, como disse na ocasião. E a conversa avançou por algumas boas horas. Dentre as coisas que atraíam a jovem, estavam o impressionante efeito encantatório daquela narrativa oral, o domínio que a senhorinha possuía do inglês, o delicioso sotaque muito particular, e, ao menos pelo que chegou a mim, o fato inegável de que falava realmente muito bem a senhorinha. Não sei se foi para justificar esse seu talento, ou se em razão de algum detalhe da trama das histórias contadas, mas, em dado momento, a senhorinha falou sobre uma peculiar escola de seu vilarejo. Na verdade, era a única escola de lá, e todos a chamavam de “escola do livro”.
Havia muitas décadas, um dos homens mais velhos deste vilarejo retornara depois de dez anos vivendo em uma cidade de porte médio em outro país da região. Era uma cidade já bastante urbanizada, e de onde ele trouxe uma ideia ainda inédita para o vilarejo. Ele queria fundar uma escola. O vilarejo, por sua vez, era na época uma comunidade de pequeno porte, com atividades majoritariamente rurais e alguns hábitos ainda tribais. Segundo consta, era um ambiente muito feliz, pacífico e de grande liberdade. Não havia muitos ritos de aprendizado, mas fazia parte da cultura local que um ou mais membros de cada família saíssem em longas jornadas pelo mundo e voltassem depois de anos com ao menos alguma novidade, podia ser material ou cultural, a ser incorporada ao vilarejo. Devido a isso, algumas coisas curiosas podiam ser notadas por lá. O vilarejo possuía dois carros apenas, muito antigos, eram comunitários, presentes de dois viajantes. Gasolina e manutenção, no entanto, não eram fáceis de se conseguir. Havia também uma cabana que funcionava como minimuseu de artes e objetos curiosos do mundo. A maioria dos objetos era de utensílios modernos cotidianos. Só eram curiosos para o olhar deles, naturalmente. Mas era bonita a maneira pela qual refundavam a percepção acerca de coisas como um esquadro ou um vidro de perfume. O que mais me intrigou nesse detalhe da história foi a beleza de terem um museu por lá. E isso foi também uma ideia trazida por uma viajante. Nesse caso, a principal artista do varejo, e a idealizadora de maior parte do artesanato local. A própria senhorinha era igualmente uma dessas viajantes. E só não tinha voltado ainda porque não conseguia decidir o que levaria consigo na volta para casa. Dizia que enquanto não decidisse o que levar, aproveitaria para transmitir ao mundo as histórias de sua terra natal. E uma delas dizia respeito à escola do livro, voltemos a ela.
Quando aquele viajante retornou com a ideia de fundar uma escola no vilarejo, todos receberam a novidade com grande entusiasmo. Em geral, algumas lideranças e membros mais velhos da comunidade eram sempre lembrados para serem os primeiros professores. E realmente o foram. Mas, notem, eles podiam lecionar unicamente sobre os assuntos que dominavam e sobre temas da cultura local. No entanto, ao trazer a ideia, o viajante queria que mais coisas fossem ensinadas na escola, coisas diferentes. E todos estavam de acordo. No entendimento deles, essa era graça. O viajante citava coisas que ele mesmo aprendera em distintas salas de aula mundo afora. Todos ansiavam por novas descobertas. Então, como não havia professores para esse tipo de tema, e nem mesmo se sabia quais seriam os temas em si, o vilarejo inteiro se reuniu e formou um grande pacto. A solução estava nos livros. A partir daquele dia, todos os viajantes passaram a trazer também livros com ensinamentos que julgavam valiosos para a comunidade. E os livros é que seriam os professores da escola. Isso mesmo, nessas aulas quem tinha status de professor eram os livros.
Os livros como professores? Quando ouvi isso não entendi. Mas logo me foi explicado. O conhecimento de fora vinha das pessoas, mas estava gravado nos livros. Na maior parte dos casos, ninguém no vilarejo dominava seus conteúdos a ponto de ter autoridade sobre o que estava escrito neles. A autoridade sobre o conteúdo dos livros era dos próprios livros. E de mais ninguém. Por isso eram eles os professores de seus respectivos conteúdos. À comunidade do vilarejo restava a não menos importante tarefa de selecioná-los. Muitas aulas, portanto, precisaram ser de ensino à leitura. Esse foi o grande esforço inicial. Todos tinham que ler razoavelmente bem. Mas o que mais intriga é a maneira como as aulas transcorriam tendo um livro como professor. Os encontros entre alunos de todas as idades eram organizados com a turma sempre em círculo. Um livro-professor ficava posicionado no meio. Havia também um monitor principal que coordenava as atividades de cada encontro, e todas as atividades eram centradas na leitura. Pelo que entendi, se dava mais ou menos assim, os próprios alunos passavam o período inteiro se revezando na leitura em voz alta. Um por vez. Iam ao centro do círculo, recebiam o livro-professor das mãos do antecessor, e continuavam a leitura de onde o outro tinha parado. Toda vez que alguém não entendia alguma passagem, a leitura era interrompida, o grupo debatia o assunto até chegar a uma ou mais respostas à dúvida, e seguiam em frente. Nem sempre as respostas eram totalmente verdadeiras ou precisas, eles não tinham muito como saber, mas também não ligavam tanto para isso. O importante era extrair de cada livro o que cada livro tinha a oferecer a eles. E assim seguir em frente, de livro em livro, de professor em professor.
A senhorinha estudou na escola do livro durante a juventude. E disse que ela mesma já tinha reunido alguns bons livros para levar. Quando voltasse, disse ela, tinha certeza de que seria monitora da escola do livro. A namorada do primo do meu amigo, que ouvia a tudo muito atenta, disse que nesse ponto da conversa já estava bastante emocionada. Contou ainda que fez questão de se mostrar admirada e parabenizou a senhorinha por depois de tantos anos querer voltar ao vilarejo para ensinar tudo o que aprendeu às crianças da comunidade. Nesse momento, a senhorinha a corrigiu. Eu quero voltar para escola do livro é para aprender ainda mais, disse ela, e não para ensinar. Por isso estou juntando tantos livros.

Posted by:Leandro Jardim

One thought on “A escola do livro, por Leandro Jardim

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