Corre uma brisa muito fina, alígera, não chega a ser um fio, é um desfio, dir-se-ia desfiada como uma mexa de seda, mas corre célere como os carros das Equírrias, e corta como os venábulos de Martius, acotovela as núvens dos seus sonhos ociosos, sacode as migalhas de cinza do inverno, enxuga as lágrimas do sobrecenho cansado do tempo. Balouça-se em irises onde o sol se contempla ufano, no cabelo de persefónes com o oiro insolente dos narcisos a nascer-lhes da nuca, dos rasgões do sorriso despreocupado. Sim, já pendem os narcisos, desmanchando as estemas amarelas e brancas sobre a água dos jardins, vão nascendo adormecidos sobre o lago e nem a brisa os estremunha.
Chegou – como veio, quem a trouxe – a primavera, anuncia uma ementa. É mais que hora de desenroscar os tonéis de vinho, sorvê-lo fresco da concha de mãos de Dionísio. Chegou a primavera – é um ditame, as palavras criam, mandam, sujeitam, enunciam o livro, o capítulo, o versículo. Assenhoream-se de todos os espaços, até não haver espaço, nem palavras. É mais que hora de estender o linho sobre a mesa, ombrear senhores e servos, amigos e desavindos, beber do mesmo cálice. A ementa sobre a mesa, e a ausência dos simpósios, das músicas, das danças de roda – o silêncio. A terra explode de cores, ninguém viu passar o cortejo de Dionísio no seu carro de flores.
Estão sentados, um par, frente a frente, cada qual encarando o seu apetrecho, estarão de costas voltadas, os rostos debruçado sobre um espelho metálico, uma caixa esquisita, um lago, onde contemplam o teatro de sombras dos acidentes de viação ocorridos no dia, da variação da humidade no percentil 90, das crises sanitárias na Eritreia, do filho do amigo do primo do vizinho que teve a sua primeira vomição. Onde se contemplam a si mesmos, estendem o espelho no alto, examinam criteriosamente a beleza própria, e as imagens sucedem-se, a perfeição inatingível, a beleza adulterada, decorativa, empoada para entrar em cena – o teatro de sombras do mundo.
E as palavras, palavras, urgentes, prementes, assoberbantes, tantas que nada lhes resta para dizer – um pequeno movimento involuntário para soltar um refrão, uma abreviatura, ou uma sigla, bonecos em gargalhadas. Mas sobre a mesa ninguém gargalha, há um silêncio tumular entre dois corpos, o linho aguarda paciente como uma mortalha. Já disseram tudo sobre o sol, a ementa, a conversa. Os lábios morrem num espasmo involuntário, ninguém humedeceu os lábios de vinho, estão de costas voltadas, não há palavras, o sol não roçaga a primavera pela pele, há um silêncio tumular entre dois corpos. É primavera e os narcisos cabisbaixos envergam o seu luto sobre o lago, nada lhes levanta as cabeças entorpecidas, a brisa desistiu e prefere, ditosa, entreter-se chocalhando as cerejeiras. A terra explode de cores, ninguém viu passar o cortejo de Dionísio no seu carro de flores.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “As agonias da primavera, por Helena Barbagelata

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