O outro lado da sua alma. A identidade de nomes, pessoas e lugares, os traços humanos, comuns e originários, as desmedidas propensões fraternais e culturais, os hábitos alimentares e sociais, as manias, as vaidades, os orgulhos, as presunções, as medidas e as desproporções, as lógicas, superstições e místicas. As idiossincrasias, as pretensões, as crendices, o folclore, e… sobretudo a fé. Brasil é Portugal em tudo! De tudo que resultou nesta grande nação, cujo traço marcante de sua identidade original é lusitano, de bom e de mau, de miséria e grandeza, tem como vibrante presença ainda hoje, passados 125 anos que não temos um Bragança a nos governar, ou seja, que a mão portuguesa retirou-se definitiva e ostensivamente do Brasil, e que o Brasil passou a ser outra coisa, em sendo a mesma Portugal! Os mesmos nomes de pessoas e lugares para pessoas e lugares tão diferentes: Óbidos a pequena vila medieval amuralhada da zona oeste junto das Caldas em Portugal, e a cidadezinha paraense, com feições do XIX, no meio da selva amazônica, à beira do rio Amazonas, tendo do outro lado Santarém na confluência com o Tapajós. Santarém, que em Portugal é a capital do distrito do mesmo nome à beira do Tejo, exceto as margens que estão trocadas entre a Santarém do Tejo e a do Amazonas, direita e esquerda respectivamente. Tendo a mesma perspectiva de uma cidade/porto num grande rio, também fez a opção pelo nome. Não tendo sido moura por 432 anos como sua homônima portuguesa, a Santarém amazônica, sem lezírias, desempenha o mesmo papel de porto de grande rio, como a Santa Iria de outrora num Tejo primitivo. Há também os nomes de pessoas que são de lugares, nomes que servem para apelidarem os Catanhedes, os Gouveias, os Lisboas, os Paivas, que há tanto num como noutro país. São exemplos de uma lista bem grande que não cabe no âmbito de um artigo. As mesmas peles trigueiras ou brancas, as mesmas bundas enormes nas mulheres para gosto e gáudio de seus homens, os mesmos rostos bonitos de homens e mulheres com seus traços característicos, tanto nos louros como nos morenos, tanto nos celtas como nos mouros, tanto nos tipos de um país como nos do outro, vamos encontrar identidades de jeitos e trejeitos, de queixos e narizes, de braços e bigodes, de gente que se funde e se confunde, de gente que se busca e se perde nesse encontro. O branco português, que no Brasil tem um espectro mais alargado, assim como o moreno, incluindo aí muito mulato, tem uma origem muito antiga, e que pelo seu caráter maleável, se fizermos uma pesquisa, vamos encontrar seu gen(e) em toda a gente no Brasil, inclusive em muitos contados como negros, e o contrário também é verdade. Só mesmo dizendo como Caymmi, na sua “São Salvador”, que esta é a terra do branco mulato, o que é visível, ou como podemos também comprovar invisível e geneticamente, o Brasil é a terra do negro-branco; não o vemos, mas está lá, e não atende nenhum telefone. Colorações e genética à parte, temos este maravilhoso ‘melting pot’ que se chama Brasil. Mas não se enganem, vão a Alcácer do Sal do outro lado do Tejo, quase em frente a Lisboa, e façam uma pesquisa, e verão quanto branco-negro está ali também, numa população pequena de treze mil almas. A afabilidade lusitana e o gosto pela cama fizeram a mais prodigiosa miscigenação, raiz da ausência de ódios ‘raciais’ no Brasil. Lei Afonso Arinos à parte, o branco português ou a branca portuguesa queriam era se deitar com os negros e negras lindas que pudessem, inzoneiros ou não, bendito instinto que nos deu este Brasil brasileiro. As mesmas bases alimentares introduzidas aqui e acolá, importadas por ambos os lados atlânticos, em sentidos opostos, com imensos desdobramentos, resultando em estupenda culinária nos dois países. No Brasil, guardando as bases da cozinha mediterrânica incorporada e modificada até não mais poder; e, em Portugal, importando produtos d’além-mar, sem os quais já não podiam passar no dia a dia, africanizando ou abrasileirando uma culinária tão estruturada, eventualmente aqui e ali e ali e aqui. Gostos à parte, ambas as culinárias estão no ‘top 5’ mundial! O que quer dizer que juntos temos 40%, ou quase metade da excelência gustativa à mesa. Porém, o mais curioso de tudo é a lógica, muita vez ilógica, comum às duas nações. Seu jeito autoritário, seus nacionalismos acendrados e regionalismos exacerbados, suas presunções, seu fatalismo e sua crença desmedida, fé, paradigma de esperança, ou, como queria o Vianinha ao brasileiro, sua profissão, podem incluir aí, sem receios, o português. Vaidades e superstições à parte, temos um folclore de alma comum, e manifestações ainda que tão diferentes, tão iguais. Desde o círio da Nazaré até à procissão das velas em Fátima, e desde as cavalhadas em Vildemoinhos (Vizeu) Monte Real, Azeitão, Ferreira-a-Nova, Ançã ou na Pocariça em Catanhede, como em Pirenópolis, Poconé, Corumbá de Goiás, Guarupava ou Vacaria, são a mesma festa, a mesma fantasia. Imenso Portugal como diria o Chico, não o rio que integra e une o país gigante, mas o Buarque de Holanda, de sobrenome tão ilustre, que de Holanda não tem nada, apesar de também ‘pernambucano’ e são tão como o rio, nos dois sentidos. Encontro a mesma fé na Nazaré paulista, paraense, baiana ou portuguesa, com mais ou menos farinhas, com que Fernando Cabral Ataíde, natural da antiga capital algarvia de Silves, nunca sonhara quando atravessou o Jaguaribe, certamente seu Rubicão, fundando aquela que iria ser terra morena como a Grândola de seu Alentejo. Fé de fazer, fé de querer, fé de ser, a fé que nos une e nos iguala, e que, também, como o imenso mar “entre nós dois a nos unir e separar”, pois nos separa com suas variantes dicotômicas óbvias, mas é a mesma, a da Nossa Senhora da Nazaré, ou doutra, de qualquer outra de suas muitas denominações, comuns ou não, aparecidas nos dois países pela força da contingência de crer, crer fortemente. No falar lusitano, crer é um querer apocopado, já que sempre algo se quer quando se acredita. Esta mística de cruzes e destinos que nos inaugura e conflagra, bem como nos iguala, a ambos, e que nenhum dos lados se conhece bem sem conhecer o outro, sem se ver e se encontrar no outro, não só na magia do encontro, esta arte da vida como queria Vinicius, mas na magia de todas as magias, que é ser não sendo, e não ser sendo, num abraço de almas e desejos. Por isso, na mesma medida que o sentir português se amplia, renova e define ao conhecer o Brasil, podendo-se mesmo dizer que não será total e pleno enquanto não se revê em sua maior obra, o Brasil, já que a obra maior dos portugueses é o Brasil certamente, maior e inigualável obra, pode-se então afirmar, ao mesmo tempo, que ninguém verdadeiramente conhece Portugal, sem ir ao Brasil, bem como NINGUÉM CONHECE O BRASIL, SEM IR A PORTUGAL!


Hélder Paraná do Coutto (Niterói, Rio de Janeiro, 1956). Biólogo, pesquisador, poeta, cronista, teatrólogo, escritor, historiador, colecionador, antiquário, jornalista, guerrilheiro, político, sociólogo, combatente.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Ninguém conhece o Brasil sem ir a Portugal, por Helder Paraná do Coutto

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