Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
[…]
António Ramos Rosa

Observamos a magnificência das árvores, a sua quietude segura.
Intuímos o seu tempo particular, a sua lentidão.
À nossa volta, é como se os ponteiros inexoráveis do relógio desacelerassem até ao limite da imobilidade, em avanços imperceptíveis.
E então, cansados da velocidade, queremos fazer parte desta outra realidade.
Nasce em cada inspiração o desejo crescente da metamorfose.
No entanto, não queremos ser Dafne a fugir de Apolo, como se o adquirirmos a forma vegetal fosse um refúgio de algo que nos indigna. Antes queremos entregar-nos todos à mudança como um fim em si.
No meio das árvores, sentimos que se pudéssemos desejar ainda um pouco mais, ou respirar um pouco mais fundo a sua exalação, poderiam crescer-nos minúsculas raízes nos pés, ou folhas nas pontas dos dedos…
Então, deparados com a nossa impotência, criamos para a fotografia um teatro lento.
Impingimos à película os nossos corpos como os corpos das árvores.
Como atores, pausamos todos os movimentos voluntários. Imaginamos como será viver dentro da rigidez de uma casca, estar preso ao chão, movermo-nos não por vontade própria, mas pela solicitação do vento.
Ver as folhas, flores, os frutos caírem aos nossos pés e ver a natureza fazê-los seguir os seus desígnios.
Não fazer nada.
Só ser.
Só estar.
Só sentir.
Mas a câmara denuncia o tempo fugaz da nossa humanidade. Trai-nos a ânsia pulsante da nossa seiva íntima.
Não há alquimia suficiente na fotografia que permita a transformação.
Revela-se na imagem a maciez da nossa carne, a elasticidade dos músculos, a mobilidade das articulações.
Ficam registrados os nossos constantes movimentos internos, involuntários.
É nesse ponto de bloqueio que nos vemos obrigados a aceitar a nossa condição – a nossa humanidade permite-nos (mais ainda, pede-nos) que abrandemos o nosso tempo voraz, mas não nos deixa mudar…
E é nesta aceitação da impossibilidade da metamorfose que se induz um novo e perfeito estado de comunhão com a natureza.

Texto relativo ao projeto Metamorphosis. Acompanhe o trabalho no portfólio da Imagerie.


Magda Fernandes (Porto, Portugal, 1981)  e José Domingos (Paris, França, 1974). Colunistas da Philos e fundadores da Imagerie, Casa de Imagens, criada em Lisboa.

Posted by:imagerie - casa de imagens

A NON-VIRTUAL, PHOTOGRAPHIC ALTERNATIVE SOCIAL NETWORK. Ateliê de formação, dedicado à imagem fotográfica e em movimento

2 replies on “A impossibilidade de ser uma árvore, por Magda Fernandes & José Domingos

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