Hoje, como acontece com muitas pessoas, sinto-me nostálgica ao me lembrar da infância. Remeto-me a um sítio, situado na cidade de Itapipoca, a 150 km da capital Fortaleza. Vivíamos na zona rural, não muito longe do centro urbano. Ali criávamos o nosso mundo. Poucas vezes saíamos do sítio onde nossas brincadeiras e peripécias aconteciam apenas entre nós irmãos. Tínhamos poucos amigos. Éramos – ou melhor – somos seis irmãos, cinco filhas e um rapaz, hoje homem. Ele era meu principal parceiro nas aventuras diárias.
O proprietário do sítio, patrão do meu pai, era o Sr. Ribeiro, homem de semblante firme, cabelos grisalhos, estatura média, além de muito sério, cheio de regras e, por vezes, intolerante com as crianças. Pelo menos era assim que eu o percebia. Infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo (percebê-lo) como meu pai o retratava. Segundo meu pai, seu patrão era um homem bondoso, íntegro, justo e respeitável. E foi nas terras do Seu Ribeiro que vivemos a maior parte da nossa infância. Trago-a viva na lembrança. Meu irmão e eu desbravávamos as serras, aventurávamos nos riachos, criávamos mundos fantásticos.
O mês do ano que eu mais gostava era agosto – pois se comemora o aniversário da cidade – e muitas escolas nos procuravam, querendo trazer grupos de alunos para conhecerem a Pedra Lascada, símbolo da cidade, localizada na subida da serra, com aproximadamente 40 minutos de caminhada desde a nossa casa do sítio. Naquela época, ouvíamos histórias sobre a Pedra…, que ela era monumento histórico da cidade, de como ela foi lascada e deu nome à cidade; ita: pedra, pipoca: lascada. Não sei precisar data, nem razões do fenômeno, mas isso não importa. O que mais me maravilhava era servir de guia para os inúmeros grupos de estudantes e professores que visitavam a Pedra. Fazíamos a caminhada várias vezes ao dia, sempre dispostos, e, a cada viagem, uma nova empolgação.
Tenho boas e saudosas lembranças dos anos vividos no sítio. Saímos do lugar em 1993, e minha última ida à Pedra foi em agosto de 1992. Até que recebemos – meu irmão e eu – o convite de alguns amigos para nos aventurarmos em um passeio à Pedra. Marcamos para sair às seis da manhã do dia dez de agosto. Minha emoção só não foi maior do que minha ansiedade. Meu coração pulsava apressado ao imaginar como estaria o local, qual seria a sensação de rever os ambientes de minhas peripécias. Cheguei a sonhar que não conseguíamos chegar ao sítio. A cada minuto que passava, sentia-me mais perto de reviver bons e memoráveis momentos de minha infância.
Muito cedo estava em pé e pronta para o passeio. Não continha o desejo de rever o local. Comecei narrando à minha filha algumas travessuras que meu irmão e eu aprontávamos nas idas e vindas à Pedra. Pra mim, a viagem já havia começado. Meus apetrechos ficaram prontos na noite anterior.
E o grande momento chegara. Estávamos – minha filha, seu namorado e eu – no carro do nosso amigo a caminho do sítio. Passamos na casa do meu irmão que ia nos guiar até a Pedra. Lá um grupo de amigos (aventureiros) nos aguardava para seguirmos caminho.
Dois minutos de carro e já estávamos na entrada da propriedade atravessando um mata-burro (estrados instalados em cima de valas que impedem a fuga do gado). Naquele momento, fiz uma viagem aos bons tempos de minha infância, vendo a primeira casa em que moramos quando minha família chegara ao sítio. A habitação ficava na entrada da propriedade. Quase não acreditava que seria possível reviver, em minhas lembranças, tantas recordações…
Tudo me pareceu menor. A estrada que ia do mata-burro até a casa do Seu Ribeiro já não era tão longa como vislumbrava. O curral, onde fui muitas vezes às quatro da manhã para ordenhar as vacas com meu pai, ainda estava lá. Abandonado, mas ainda existia… Ao descer do carro, contemplei o ambiente à minha volta. Já não era como antes, não tinha o mesmo cheiro. A grandiosidade que via na casa do patrão já não me deslumbrava. Não tinha a pompa que esperava encontrar, talvez por estar abandonada há muito tempo e não ter mais a vida que um dia tivera.
Começamos nossa caminhada. Passamos a primeira porteira que dava para uma estrada de terra, que exalava esterco fresco e remetia meus pensamentos aos passeios nos currais de gado, que tantas vezes fiz sozinha, destemida, fantasiando um mundo que precisava ser salvo. E lá estava eu para fazê-lo.
Nossa aventura era composta por um grupo animado de dez pessoas. Seguimos caminhando, abastecidos de água, disposição e ânimo. A estrada de terra foi estreitando à medida que avançávamos serra acima. Estar naquele lugar depois de tantos anos parecia irreal, embora não fosse impossível.
O mato foi ficando, a cada instante, mais apertado. Quando nos percebemos, estávamos num matagal de bamburrais e marmeleiros que mediam uns dois metros de altura. Tentei reconhecer a trilha estreita que criávamos em meio à mata de bamburral e marmeleiro, mas todas as trilhas de matagal seco pareciam iguais. O cheiro do bamburral chegava com força às minhas narinas num primeiro momento. Era agradável aquele cheiro de perfume silvestre que lembrava travessura. Trazia-me imagens do meu pai retornando da roça e das inúmeras viagens feitas à Pedra para levar os visitantes.
Estava eufórica. Todo o tempo vinha à minha cabeça uma travessura, antes esquecida e substituída pela rotina diária. Encontramos um lajeiro, recoberto por cactos com espinhos compridos e afiados, onde fizemos nossa primeira parada para descanso e hidratação. Naquele momento, as lembranças vieram como um tornado, trazendo-me um turbilhão fascinante de recordações.  Não era a primeira vez que estivera naquele exato local.  Eu havia reconhecido o lugar. Foi naquele lajeiro, em meio aos cactos, que caçávamos ninho de rolinha, fato lembrado por meu irmão, pois sabíamos que as aves, para proteger o ninho dos predadores, intuitivamente construíam seus ninhos em meio aos pontiagudos espinhos. Ficamos ali por uns cinco minutos, fotografando, conversando e tentando planejar o percurso da caminhada.
De volta à trilha, agora não mais tão aparente, chegamos à mata fechada. Impossível continuar. Senti um aperto lancinante no peito ao pensar na possibilidade de não finalizar o percurso. Tentei contornar a minha decepção, considerando que já valera a pena. Mas não queria desistir. Embrenhei-me mata adentro na tentativa de convencer a todos que seria difícil, mas que poderíamos conseguir. Advertia o grupo de que havia somente um trecho penoso, e logo estaríamos em nova vereda.
Meu irmão, mais experiente, conhecia o lugar melhor do que eu. Indicou uma picada, tomada pelo matagal de bamburral. Foi possível abrir caminho com os pés, enquanto flores secas de bamburral caíam sobre nós, causando uma coceira irritante. A caminhada ia ficando mais complicada. Passamos por trechos íngremes. As “maliças” (Corruptela de malícia), planta espinhenta que se fecha ao ser tocada, grudavam em nossas roupas. Quando criança, sempre que encontrava um pé de “maliça”, cantava uma musiquinha, pois acreditava que ela só se fechava se ouvisse a canção.
Depois de muito caminhar, nos deparamos com o leito seco de um riacho e uma parede de rochas. Impossível seguir em frente. Meu irmão, mais disposto, localizou uma nova vereda. Ficamos aguardando. Ele retornou dizendo que fomos além do previsto e deveríamos voltar. Apesar da exaustão, nada nos abatia. Minhas pernas estavam em frangalhos, o cansaço e o calor me faziam ofegar. Retornamos confiantes e seguros com a direção a seguir. Nosso último obstáculo até a Pedra foi um pé de juazeiro, com ramos tortuosos protegidos por espinhos. Esquivando-nos por entre os galhos espinhosos da planta, chegamos.
Quase não podia acreditar que estava ali, aos pés daquela rocha. O nosso sentimento era de conquista. Ela continuava como a minha memória a retratara. Grandiosa!
Subimos à Pedra com dificuldade. Contemplamos aquele fenômeno ininteligível ao senso comum. A paisagem nos encheu os olhos de uma emoção inexplicável.
A aventura me levou a duas grandes descobertas: a que não tinha noção do que aquilo representava pra mim; e a outra, não menos importante, que já não tenho a mesma disposição de vinte e três anos atrás.
No silêncio da mata, nos embriagamos de fascinação.


Aurilene Sampaio (Itapipoca, 1982). Professora da rede estadual de ensino, nas horas vagas abstrai escrevendo e pintando.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A pedra lascada, por Aurilene Sampaio

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