O menino observava, através do vidro do balcão do caixa, a variedade colorida de guloseimas e, indeciso, queria um… A caixa, gentilmente, apanhava o solicitado e o entregava à criança, que o analisava e, em seguida, o devolvia, para pedir outro, que lhe parecia ser mais apetitoso. A funcionária cumpria pacientemente seu papel, atendendo a criança, que não ouvia os conselhos da mãe. Esta lhe indicava um produto, dizendo ser melhor, ou tentava proibir outro, alegando fazer mal à saúde ou… em vão. O pequeno somente atendia aos seus próprios impulsos. A fila se formava; os clientes a tudo observavam, impacientes. Por fim, a funcionária permitiu que o moleque rodeasse o balcão para ver de perto o que ia escolher, na tentativa de agilizar o atendimento. Ele apanhou um pequeno recipiente colorido de plástico, em forma de brinquedo. Dentro, docinhos em forma de bolinhas coloridas. “Esse não”, disse a mãe, “você não vai nem comer os doces”. E tentou retirar o objeto das mãos do menino, que se esquivou e correu estabelecimento afora para saborear a sua conquista. A moça, educadamente, indagou se a senhora desejava mais alguma coisa. Ela respondeu que não, perguntou quanto devia e, enquanto pagava a conta, fez uma observação: “essas crianças… a gente não consegue mais lidar com elas…” E a fila aumentava. Os que estavam mais próximos, ao ouvirem o comentário da mãe, tiveram reações das mais diversas; muitos se entreolharam indignados, outros não se furtaram em olhar para ela com olhar de desaprovação, outros, ainda, balançaram a cabeça ou simplesmente riram. Certamente, todos que presenciaram a cena, até mesmo sem ter consciência do que realmente representava aquele ato, assistiram a um exemplo claro de como deseducar um filho. Afinal, o garoto nada mais é do que o reflexo de uma sociedade de consumo, que tenta nos enfiar goela abaixo, diariamente, todos os tipos de produtos. As crianças são o alvo predileto. Convivemos com a sedução do consumismo, não somente através da mídia, mas também nos supermercados e shopping centers, nas pequenas ações diárias, e até mesmo nas escolas. Mas o pior é o veneno que nossos filhos estão engolindo diariamente. Eles crescem, tornam-se adultos, sem terem vivenciado a experiência dos limites. Muitas vezes, nós, pais, escondemo-nos na desculpa de que somente queremos dar aos nossos rebentos aquilo que não tivemos a oportunidade de ter. Atitude que nos conforta e nos permite a cômoda facilidade de não ter que dizer não. Ou mesmo de enfrentar resistências. Não percebemos que estamos a um passo de nos tornarmos reféns de nossos próprios filhos. Antes de retirar-me do estabelecimento, observei que, logo atrás, se achegava mais uma criança, querendo a todo custo desprender-se da mão do pai. Pensei em ficar mais uns instantes por ali, mas decidi sair, para não ter que assistir ao mesmo filme.


Valdir José Pagliarini (Luzerna, Santa Catarina, 1956). Poeta, contista e cronista. Professor da Rede Estadual do estado do Paraná. Casado com Solange Fagotti Pagliarini. Reside em Toledo desde de julho de 1965. Titular da cadeira número 7 da Academia de Letras de Toledo (ALT), Paraná.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Doce de menino, por Valdir José Pagliarini

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