Úrsula

Úrsula acorda ainda de madrugada,
Úrsula prepara o café e a marmita,
Úrsula deixa os filhos na escola,
Úrsula lava, passa e cozinha,
Úrsula vai buscar os filhos,
Úrsula serve o almoço,
Úrsula faz compras,
Úrsula faz o jantar,
Úrsula cospe no café,
Úrsula espera o marido.
Talvez ele não chegue bêbado,
Talvez não cheire a perfume barato,
Talvez ele lembre que é oito de março,
Talvez traga bombons e rosas vermelhas,
Talvez a leve para algum restaurante chique,
Talvez agradeça por ela ser tão companheira,
Talvez a convide para dançar como antes fazia,
Talvez não bata nela e nos filhos assustados,
Mas talvez, e Úrsula implora por esse talvez
Ele sofra um acidente no caminho pra casa,
Tórax esmagado contra o volante do carro,
Morra sufocado balbuciando o nome dela,
Um banho de sangue na Avenida São Paulo,
Talvez não. Um cheiro familiar cruza o portão,
Sem rosas, bombons ou um convite pra jantar,
Apenas um “homem de bem” cheirando a álcool,
Gritando com a esposa que sonha um talvez.
Talvez ele mude, talvez ele morra, talvez…
Talvez amanhã, finalmente, a Avenida
São Paulo, além das águas de março,
Seja banhada com um bruto vermelho.


Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Escritor, contista e poeta; é professor de História nas horas vagas.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.

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