As cabeceiras do Rio

“Et fluvius egrediebatur de loco voluptatis ad inrigandum paradisum qui inde dividitur in quattuor
capita […].”
G. 2-10.

Esconde o teu rosto na máscara
que Ésquilo te estendeu do outro
lado do mar, para que te confundas
entre os histriões da tragédia, não
te denuncie o nome, para que se
esboroem das praças as sombras
dos teus passos, não te denuncie
o fado; estavas às portas do paraíso,
um amurado de homens farpados
com a cólera a ranger-lhes nas artérias
hidrofóbicas, os fuzis dos dedos
polvilhados de morte, as bocas
açoradas e salivosas, esperando-te
em todos os gargalos da cidade, nos
carris abandonados, nos atalhos
silvestres; para onde quer que dirijas
a tua lamparina de óleo, precingem-te
como os olhos eversíveis da noite,
– tu és a lamparina de óleo; nos
cercados do paraíso, nas represas
que separaram as águas das águas,
as primeiras águas a fender o
ventre do mundo, aquela planície
gestante de sedas e pomares
indeiscentes, antes da história
de todas as histórias,
[por onde correm os leitos vestais
da tua infância, o saibo, o aroma indenes –
esses rios de leite, de bálsamo, de vinho
e mel, ó dai-me a beber longamente
esses rios;

Estavas às portas da paz, a cidade
levantara-se sobre o mar, levantada sobre
o levante, em estacadas de véus,
brancos e incorruptíveis, não sabes
dizer se seriam noivas, desposando os
seus perfumes pelas noites dentro, ou
revoadas de pombas, roçando a
liberdade nas alas, a cidade
irrigada de jasmim, os pais já não
têm filhas para dar, estacadas de
carabinas, murados que desirmanaram
os homens dos homens, os pais,
enterrando as sementes do seu
seio, com os corações violados das
crianças nos braços, as bodas da
morte, e as aves, foragidas a
ocidente e tu;
[por onde correm os leitos vestais
da tua infância, o saibo, o aroma indenes –
esses rios de leite, de bálsamo, de vinho e
mel, ó dai-me a beber novamente
esses rios;

Mahjul, poderias ter o nome de todos
os homens, quem te distingue na
circum-navegação do nosso pacto
nomádico com o tempo, segues
o ondular dos corpos na
mortalha das marés e sem faros,
– tu és a lamparina de óleo; erigimo-nos
e andámos, não paramos, inventamos
paraísos contrafeitos de infernos,
a flagelação inquieta de abocanharmos
alguma fímbria primitiva – ali
algures sob os pés desnudos do sol
crescem também as tuas flores, e os rios,
esses rios da infância, quando – toma
a tua máscara no mergulho anónimo
da cerração, rios de leite, de bálsamo,
de vinho e mel,
amanhã, finda a travessia
talvez aportes
sobre a memória do teu nome
ó dai-me a beber eternamente esses rios


Helena Barbagelata (Lisboa, Portugal, 1991). Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Vencedora do “Prémio Poesia e Ficção” (Edição de 2012), com a obra “O Mar de Todos os Deuses”. Publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Dossiê de Literatura Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Helena Barbagelata

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