A Morte de Virginia

À tela homônima, de Antônio Parreiras (1905)

O céu é torvo.
O espaço escancara-se incoercível,
esfaimado.

A natureza inteira parece querer hostilizar
pelo silêncio que reina
e se embuça nas furnas.

À beira de deserta praia,
uma mulher está morta: é Virginia.

Ondas espumantes abeiram-se, lestas,
inflando-lhe as vestes encharcadas
– seu leve vestido de tom sulferino…

A aparência arcangélica denuncia
que ela dorme
e seus restos permanecem tão frescos

(a pele cetinosa, os longos cabelos desgrenhados),
quem os vê, crê que não morreu.

Almejaria saber o motivo pelo qual morrera na praia
em vez de num bosque ensombrado
ou numa alcova de rainha, morna e perfumada.

Dizei-me, Inspiração, há quanto tempo está morta
e se ela sonha na excelsa paragem!…


JackMichel, pseudônimo das escritoras Jaqueline e Micheline Ramos (Belém, Pará, 1990). Juntas, formam o “primeiro grupo literário na história da literatura mundial, composto por duas escritoras”.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.

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