Eu ainda não me havia dado conta de que já existia. Meu corpo se formava dentro de uma bolsa especial. Na medida e no instante certo, tinha o necessário: oxigênio, alimento, repouso, carinho e calor. Como era confortante aquele ninho, tendo uma mãe inteirinha pra mim! E eu era somente dela. Nada me perturbava. Com ninguém precisei disputar coisa alguma. Contudo, sem ser consultada, fui trazida à luz. Só porque à minha hora eu havia chegado.
O colo da minha mãe tinha um calor diferente do de seu ventre. Mais instável. Ainda assim, era prazeroso estar ao seu peito, sentir o aperto de seus braços, sugar o seu leite, enquanto ouvia as batidas de seu coração, como antes. E quando ela me embalava então? O corpo dela, em balanço firme, era impulsionado por uma canção italiana, cantada por ela, com um tom vivo de saudades. Eu a fitava com insistência, pois me parecia que o meu mundo estava todinho ali, limitado ao corpo dela. Quando se aproximava de mim, eu via anjos em nossa volta. Um deles parecia ajeitar as estrelinhas no azul dos seus olhos.
Cresci sob um manto de amor e cuidados. Ao perder o colo, porém, eu não quis aceitar o fato de dividir a minha mãe. Teimava e chorava, suplicando atenção exclusiva. E ela se rendia, reservando um de seus braços para mim. Com o outro, dava conta de suas tarefas. Ela me queria bem, mas queria por igual aos demais filhinhos seus que iam chegando. Um a cada ano. Tive que aprender a ceder. Desde então, a minha vida foi ficando do jeito que deveria ser de verdade, com ganhos e perdas.
A partir daí, aventurei-me a ajudá-la no exaustivo cuidado com os menores. Percebi que ela ficava feliz com o meu papel de ajudante. Passei a gostar da nova fase e deixar de lado o desejo de ter o colo de volta.
Nossos tempos eram muito diferentes. O meu não tinha despertador e os ponteiros andavam normais. O dia dela precisava urgente ter mais de vinte e quatro horas, pois os filhos, devagarinho, somaram onze.
Pelos dias sagrados da infância, o eco, o vento, a chuva faziam parte dos nossos brinquedos. Os raios solares indicavam a hora, pois não tínhamos relógio. Um chamado da nossa mãe significava o toque de recolher.
Naquelas tardinhas, eu via que ela ficava mais linda e mais cheirosa se iluminada pelo sol tênue. Ou pela lua, nas noites em que passava ao nosso lado, confortando-nos. Ela surgia do nada, na meia escuridão, sempre que solicitada. Fosse por quem fosse. Eram momentos em que não precisávamos dos anjos, pois ela era o nosso anjo guardião.
Veio-me a adolescência. Passei-a ouvindo conselhos de pura sabedoria. Nem sempre os seguia. Achava que aquilo era coisa de mãe exigente. Eu me julgava pronta para enfrentar o mundo, de salto alto. Desci dele todas as vezes em que não seguira o que me fora ensinado. Esperava, com ansiedade, pelos meus dezoito anos. Depois, pelos vinte e um. Daí em diante, parecia que o “tempo voava”, como dizia ela.
Adulta, passei a observar mais os seus exemplos. A me espelhar neles e valorizar tudo o que dela viera. Foi quando o fato de tê-la ainda ao meu lado significou muito para mim. A melhor companhia em horas preciosas que me transportavam de volta à infância querida. E a saudade daqueles tempos me queimava o peito.
Vieram-me os filhos, a realizar o meu sonho acalentado desde menina: o de ser mãe. O simples chazinho para os nenéns até, mais tarde, o diploma universitário que se agitava nas mãos deles eram motivos para lembrar-me dela. Incontáveis são as lições que dela aprendi. Todas válidas e ricas, embora ela não fosse letrada.
Passados os anos, foram-me colocados nos braços três netos. Bisnetos dela. E eu me vi como ela, mãe e avó ao mesmo tempo. Dos meus velhos brinquedos, dos preferidos, alguns foram passados para as mãos deles, outros não existem mais. Porém, os ensinamentos ainda latentes dessa – mãe, avó e bisavó querida – movem os meus dias e me despertam o desejo de também chegar com saúde ao pódio a que ela chegou.
Que fases espetaculares da vida eu vivi até então! Cada qual com sua graça e grandiosidade. De algumas, eu não queria me desgarrar. Mas, embora sinta saudades, não tornaria a vivê-las, pois ainda tenho a experimentar o gostinho de ser bisavó e o sabor absoluto da eternidade. Sei, de lá também não desejarei voltar. Pois hei de reencontrar o anjo que se vestiu de Adiles Anna e cuidou de mim aqui na terra com um amor possuído de plena vida.


Lucrecia Welter (Paraná, 1953). Escritora multipremiada e presidente da Academia de Letras de Toledo, Paraná. É Revisora de textos da Revista Philos e Curadora de Literatura lusófona da mesma Revista. Tem diversos livros lançados e publicações em coletâneas poéticas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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