Na Rua das Goiabeiras, ele quase enfartou ao colocar a mão no bolso da camisa e perceber que o embrulhinho não estava lá. Que suadouro! Fez o trajeto de volta até chegar a casa e, com a face branca, começou a revirar as primeiras gavetas da cômoda. A mulher não poderia pegá-lo ali, todo sôfrego, a fuçar em toalhas alvas dobradas. Fechou as gavetas. Abriu-as outra vez na esperança da olhadela mal dada. Perda de tempo. Apalpou o bolso, por instinto. O embrulhinho não estava lá. Caíra na rua, decerto. Saiu correndo, triplicando o suor colado no corpo. Andou como cão farejador que não levanta os cílios. Percorreu tudo, até parar outra vez diante da palmeira da Rua das Goiabeiras, onde tudo começou. Nada na calçada. Nada!
Foi para o trabalho mesmo assim. Talvez o tivesse deixado sobre a mesa. Foi consolando-se com mentiras de algodão-doce, até sentar-se diante da máquina de escrever e constatar que o embrulhinho sumira de fato. Datilografou tudo errado naquele dia. O cesto ficou cheio de papel amassado, e o café respingou na camisa bem passada. Abriu e fechou todas as gavetas da mesa de cinco em cinco minutos, até dar as cinco no relógio grande da parede encardida da repartição. Quem sabe, no trajeto de volta, ele encontre o embrulhinho tão particular. Quem poderia querer ficar com ele, tão pequeno e sem importância?
Em casa, a mulher o estranhou. Roupa suja de café e cabelo desgrenhado. Cara de quem viu lobisomem. Pálido. Aquele não era o seu marido. Jantaram sem diálogos. Pensava nas gavetas da cômoda. Abriria as outras também, além das duas verificadas pela manhã. Faria enquanto a mulher estivesse prendendo os cabelos antes de dormir. Empurrou uma a uma das gavetas para fora, com a língua entre os lábios. Sem ruídos. Passou a mão em cada dobra de lençol, fronha e toalha perfumados. Fez isso com todos os panos dobrados em todas as gavetas. Olhou até entre os perfumes sobre a cômoda. Nada! Dormiu gelado. A mulher suspeitava de febre. Teve pesadelos horríveis. Seu futuro estava perdido.
Tomou café da manhã com olhos esbugalhados. A mulher quis chamar o médico. Ele fez que não. Parecia mais velho, com cara de lobisomem. Na Rua das Goiabeiras, lembrou que era sexta-feira. Dia da entrega do embrulhinho. Deixá-lo na repartição, para melhor segurança, até o ato da entrega, falhara. Agora tinha o coração aos saltos. Pensava em não derrubar café na camisa. E em manter os cabelos alinhados. Naquele dia, trabalhou muito. Houve vários imprevistos. Cólicas renais. Andava esquecido. Esqueceu que era dia de ir mais cedo para substituir o colega que faltaria. Deixara o colega na mão. O serviço acumulara. Recomendaram-lhe jabuticabas para refrescar a memória. E sopa de cebola antes de dormir. Isso lhe causou náuseas. O embrulhinho feito órfão no mundo. Almoçou pouquinho. Só um terço do bife e meia folha da alface. Tentava baixar mais as pálpebras para não mostrar os olhos esbugalhados de terror. Voltou para o trabalho e avisou a mulher que era dia de serão. Prometeu a si mesmo passar na farmácia depois do expediente para ver o remédio da memória. Dali em diante, escreveria bilhetinhos para se lembrar das tarefas. Só não poderia se esquecer de escrever os bilhetinhos. Imaginava o embrulhinho aberto e a cara de espanto de quem o abrisse. Tão pequenininho e revelador. As mãos tremiam com os pensamentos. Disseram a ele que mãos geladas eram lombrigas. Quem sabe mais jabuticabas não lhe fariam bem? Terminou o serviço às sete da noite. Que dia longo e sofrido! Olhou no espelho do pequeno banheiro e viu que o cabelo estava alinhado e que os olhos estavam na posição normal. Também verificou se havia café na camisa. Depois lembrou que nem tomara café. Jabuticabas e sopa de cebola cortaram seu apetite.
De volta às ruas, refez o trajeto, feito cão farejador. Nada de embrulhinho. Bateu na janela em frente à palmeira da Rua das Goiabeiras. Uma voz abafada respondeu lá de dentro que o ouvia bem. De fora, apenas respondeu que naquele dia não teria poesia e doce de amêndoa. A voz chorosa indagou o porquê. Ele, com coração apertado, disse que depois explicaria. Apressou o passo e, em casa, a mulher já estava com os cabelos presos para dormir. Pediu a janta. Ela colocou sobre a mesa um prato tapado com o outro, e lhe deu “até amanhã”. A sós, pensava onde estaria o embrulhinho. Não estava em casa, nem no trabalho, nem jogado na rua. Nenhum vizinho o encontrara. Ninguém. Mais uma vez verificaria cada espaço das gavetas, entre as roupas lavadas, entre as esperanças brancas perdidas. Emagrecia a olhos vistos. O rosto estava fundo nas maçãs. Na sala, em frente ao santo, a vela acesa quase se apagando fazia figura de lobisomem nas paredes. Não poderia orar pelo embrulhinho. Tinha vergonha do santo. Tinha vergonha da falta de memória. E, nessa sexta-feira, não se lembrou de escrever nenhum bilhetinho para refrescar as tarefas do dia. Era um homem sem jeito, sem sorte e sem embrulhinho. Dormiu como pedra. A mulher já se acostumara com seu ar perdido de menino que sempre observa os outros a brincar. Estranhou que ele chegara cedo ontem. Sexta-feira era dia de serão que durava até as onze da noite.
Hoje faria diferente. Disse que precisava sair ainda de manhãzinha. Era melhor que ele respirasse ares puros matinais. Depois do café, percorreu o mesmo trajeto do trabalho até chegar à Rua das Goiabeiras. Bateu dois soquinhos na janela em frente à palmeira. A voz abafada lá de dentro custou a responder. Mais dois soquinhos. Escutou o ranger das dobradiças da porta. Depois de olhar para as duas direções da rua, entrou sem barulho no piso. Na sala, ainda de cabelos com grampos, ela o apertava em abraços sufocantes, dava-lhe beijinhos na testa e nas bochechas. Dizia que ele era a sua amendoazinha favorita. Largaram-se no sofá. Ele, com os olhos esbugalhados, não entendia nada. Ela, com o sorriso esbugalhado, disse que adorara a surpresa deixada na janela em frente à palmeira, na Rua das Goiabeiras. Não merecia surpresinha tão íntima. O embrulhinho estava lá, todo desfeito, sobre a mesinha de centro.


Munique Duarte (Santos Dumont, Minas Gerais, 1979). Jornalista e escritora, autora dos livros “O salto do guepardo” e “Espelho oxidado”.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O embrulhinho, por Munique Duarte

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