É na alma do ser humano que está sua essência. Nela mora a beleza do divino, fonte das manifestações do amor, da compaixão, da humildade, da gratidão, do altruísmo, da felicidade, valores universais, nos quais o homem busca inspiração para sua tarefa maior, a transcendência na existência.
É dessa fonte, também, que brotam o sonho e a poesia, inspiração para o pensamento, semente fértil que vai germinar a palavra. Em ecos de liberdade, ela nasce, e, manifestando-se por letras ou sons, se enriquece com a multiplicidade de significados que pode expressar. Então, como um milagre, num sopro vital de beleza, graça e simplicidade, vai dar vida aos sentimentos, aos sonhos da alma e às inquietações da mente humana para as suas realizações. Assim, corações e mentes que buscam realizar fantasias e ideais – frutos da comunicação do pensamento – usam a palavra  como  imprescindível instrumento.
A propósito da palavra, assim se expressa o poeta português Eugénio de Andrade em um de seus poemas:

As palavras
São como um cristal as palavras
algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho  apenas.

É para isso que serve a palavra, para comunicar, comunicar ideias e sonhos, tecendo laços e estabelecendo relações que vão contribuir para a plenitude do ser humano em sua busca pela felicidade e por uma vida harmoniosa em sociedade. No entanto, o território da palavra vai muito além e, conforme o solo em que germina, ela, com sua força devastadora, pode desempenhar a função do punhal que destrói esperanças, espalhando a morte e a desilusão. As palavras rompem fronteiras, superam limites, inauguram horizontes, e, muitas vezes, se manifestam como o doce orvalho que vivifica, acalma e embeleza. Por tudo isso, devemos à palavra extremo zelo e respeito. Como diz o escritor africano Luandino Vieira: “As palavras mentem, mas os homens falam verdades com elas.” Então, as tempestades, catástrofes, suaves aragens ou brisas perfumadas que elas espalham nos corações que as recebem, sempre dependem do espírito em que foram geradas, da indiferença, da hostilidade ou do amor que lhes deram vida.
A palavra sempre foi, é e será fundamental como elemento de comunicação em nossa vida. Seja ela oral, escrita, desenhada, transmitida por meios convencionais ou modernos, nos jornais ou redes sociais, ela é importante e essencial sempre. Para expressar sim, para dizer não, para deixar dúvidas, ela acompanha o homem ajudando-o a fazer história e estórias no seu cotidiano. Segundo o pensador russo, M. Bakhtin, a palavra é o modo mais puro e sensível da relação humana. As palavras depois de ditas ou escritas passam a ter vida própria. Já não pertencem a quem as proferiu. São do mundo, pertencem ao outro – leitor ou ouvinte. Com isso, ganham novos sentidos. Cada um de nós percebe as palavras de acordo com suas vivências.
As palavras, quando bem escolhidas, comovem, tocam. São capazes também de polemizar, convencer, calar. A palavra por si só é um signo neutro. Quando contextualizadas, as palavras são poderosas. Elas têm força. Têm energia. Elas carregam em si a força e a energia de quem as expressou. Com elas, podemos alterar o clima do meio em que estamos e até mesmo o comportamento das pessoas ao nosso redor, e, às vezes, sem que percebamos.
Elas são como espelhos, expressam nossas vontades, anseios, angústias, refletem nossa alma. Exteriorizam nosso mundo interior, embora nem sempre consigamos transmitir com palavras o que se passa no coração. Mesmo com todo o encanto mágico das palavras, elas nem sempre traduzem, completamente, nossas emoções.
O exercício da arte literária, em razão das múltiplas possibilidades oferecidas pela nossa língua, requer, do escritor, grandes cuidados e responsabilidades, principalmente no zelo com a preservação do vernáculo, no uso da fala e da escrita, que, para ser fonte de uma comunicação fidedigna, deve se apresentar dentro dos padrões de correção exigidos pela arte literária.
Sem esquecer que a palavra, escrita ou falada, como instrumento de comunicação, propicia grandes oportunidades ao ser humano e à sociedade, em seu crescimento e aprimoramento. E esse desenvolvimento natural passa, necessariamente, pela evolução do pensamento, do espírito e da alma de cada um que escreve e se comunica cotidianamente. Assim, a colheita de bons frutos vem com o cuidado e a preparação do terreno.
Toda essa sinfonia orquestrada pelos efeitos da palavra é regida pela batuta da alma. Ora pelos seus sons de suaves concertos de amor, ora sob os sofrimentos trágicos da vida.


Miguel Campos Sepúlveda (Rio de Janeiro, 1935), educador. Fundador da cadeira 09 da Academia de Letras de Toledo (ALT), Paraná.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O espírito da palavra, por Miguel Campos Sepúlveda

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