Era um belo dia de sempre. Despertei-me às dez da manhã e, por uma disciplina qualquer, abri a caixa de e-mail. Abri-o com a expectativa mesma de algo mais. Divindo-me entre tarefas práticas e meu mundo ‘criptografado’, entre realidade crua e subjetividade, olhei superficialmente a ‘caixa de entrada’, para depois seguir com os afazeres urgentes. Dentre informativos de emprego, literatura e afins, havia um raio de esperança, entitulado ‘Certificado’. O que poderia ser mais importante do que abrir aquele e-mail? Uma xícara de café preto para despertar-me e aquecer-me ao dia frio de verão? – sim, as estações já não são constantes. A urgência em alentar-me o hálito amanhecido? Ou, não havendo nada tão urgente, a importância estava em nutrir a chama da esperança? Seria aquele o dia em que receberia o reconhecimento de meus dias e noites de trabalho involuntário? Sim, porque escrever é para o escritor um tipo de trabalho involuntário prestado voluntariamente. Ao que escreve com a alma tal ato é como um impulso vital, um antídoto para os males nascidos da observação crítica, do mergulho na própria subjetividade, do emergir nu de emoções mergulhadas no profundo oceano do subconsciente.
Porquanto escovava os dentes, olhando-me nos olhos refletidos pelo espelho, observava a jovialidade que de mim se esvaía. Preocupava-me o futuro próximo e incerto. Todavia, havia no franzir de minha testa alguma esperança. Que nunca me falte o pão da inspiração!
Agarrei com as duas mãos a xícara de café, sem saber se o saboreava por gosto ou se o tomava por hábito. Sentei-me diante do computador e cliquei sobre o certificado de esperança. Em anexo, a tão desejada Menção Honrosa. Seria bom receber o prêmio em dinheiro. Lembrei-me, então, dos originais que enviei às editoras. No corpo de texto, nenhum dado pré-impressionante. Sempre só uma autora desconhecida enviando o que lhe parece valioso, transformador ou entretenido. Sempre eu e um talento não comprovado, não premiado, não capitalizado. Agora, haveria honra em meu trabalho. Haveria honra documentada e assinada por quem tem a palavra.
“Ninguém vai te dar nada!” Essas palavras me chegaram como objetos cortantes, que dóem e tatuam em alto relevo a pele. Talvez tenha sido o eco de uma verdade interna minha. Talvez expressassem o mais infantil de meus temores: ‘Ninguém’ significando a ausência total de alguém, e ‘nada’ significando a ausência de tudo. Ninguém vai me dar nada! Nem amor, nem amizade, nem trabalho, nem menção honrosa. Menção honrosa? Sim, porque essas palavras, que me caíram com a força de uma profecia, vieram à tona quando recebi, por e-mail, um pedido de desculpas pela equivocada “Menção Honrosa”. O documento enviado não era mais do que um “Certificado de Participação”. Ninguém vai me dar nada! Nem dinheiro, nem troféu, nem medalha, sequer uma simbólica menção honrosa. Poderia transcrever tal equívoco, do seguinte modo: “Veja, seu trabalho é muito bom!… Pensando bem, não tanto”. Cheguei a cogitar conspiração. Alguém do alto escalão da cultura, listado entre os ‘amigos’ de minha página social, e ofendido por alguma de minhas críticas ácidas à mesma cultura (não) oferecida, teria mexido seus palitos para desmoralizar-me após precipitada comemoração.
Como não pensar em boicote, quando o uso inadequado de palavras parte da comissão organizadora de um concurso literário? Como não considerar que a importância da literatura está, exatamente, no ‘bom uso’ das palavras? Sim, a vida pode ser irônica. Havendo, de fato, conspiração, há que se premiar quem atirou ao alvo, acertando-no em cheio e ao meio. Ninguém vai me dar nada? Talvez não. Talvez eu seja a pseudoescritora, cujas palavras só fazem sentido em seu mundo subjetivo. Talvez o único que me assemelha aos tantos escritores consagrados e imortalizado seja uma vida solitária e pontuada por miserável estilo de morte. Com sorte, uma autora a ser compreendida em tempos que ainda virão. Com sorte e um possível talento. Quão frágil pode ser o ego de um artista em tempos de capital? Em um mundo onde aparência e resultado são requisitos indispensáveis ao bom currículo, como não desmoronar-me após falso reconhecimento?
Enfim, restou-me excluir de minha página profissional, sob o mínimo ruído, o documento que dizia ser o que não era. Talvez, algum dia, eu explique publicamente o porquê de apagar as luzes de um ato comemorativo. Talvez eu o faça amanhã. Talvez o faça em dia de São Nunca… Talvez ao trigêsimo dia do mês dois do próximo ano. Segunda-feira, talvez…


Emanuela Rodrigues (Goiás, 1983). Escritora, poetisa e artista visual. É autora autopublicada da obra ‘Metamorphose de Sophia’ dentre outras. Escreve temas diversos, entre os quais regionalismo e realismo fantástico. Foi a responsável pela direção de arte da Philos #4 do ano 1.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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