Para Olga e Igor Yemereev

“O homem, devo dizê-lo, finge que dorme, mas na realidade ouve sons. O celeiro range interminavelmente a noite inteira, a cada rajada de vento as madeiras respondem com um gemido particular e levíssimo, e a orelha do homem está atenta às rajadas e aos ruídos do celeiro. Até que se aborrece.  Às vezes, sonha com Boris.”
Roberto Bolaño, O Espírito da Ficção Científica

“Nada mudou. O corpo sente dor, necessita comer, respirar e dormir, tem a pele tenra e logo abaixo sangue, tem uma boa reserva de unhas e dentes, ossos frágeis, juntas alongáveis.  Nas torturas, leva-se tudo isso em conta.”
Wislawa Szymborska

Laurita Morales manuseava as pilhas de papel armadas pela secretária sobre a mesa durante a sua ausência.  Dentre aqueles calhamaços, uma carta do Centro de Pesquisas Espaciais, um convite para que Laurita participasse de um experimento para octogenários, termos e condições a subscrever, o cosmos a esperar. Inúmeras foram as palpitações de Laurita ao se surpreender com a entrada súbita do engraxate na sala.  Era o noivo de Rosina, “a menos vesga de todas”.  Ele testemunhara o sequestro de Pietro Paolini e, esbaforido, soltou uns versos:
“A madrugada passou em nós a sua língua fria,
As simetrias do Quadrado alteraram-se
Quando demos por nós
Metamorfoseados pelo fogo do meZcal,
Uma ximbica arrancava com a cabeça de cachalote
E o corpo do cantor de ópera,
Jogados na mala traseira onde o enxovalharam
Entre os caixotes, entre os gigantes estrangeiros
Bateram as portas brancas e metálicas
E as galochas sumiram”
Seriam as mesmas galochas que desapareceram no dia treze de abril de mil novecentos e dezessete?, perguntou-se Laurita.  O engraxate não sabia responder.  Disse que era tudo o que lembrava.  Acenou em reverência militar à Laurita e retirou-se da sala mediante um agrado em pesos.  O quanto não vale um verso no continente dos detetives selvagens.  Já no nível da rua, o homem puxou Rosina pela mão e ambos partiram para acompanhar a procissão. Gesticulavam a mecânica  da cruz em frente ao peito vezes seguidas, preparavam-se para imolações. Os pães de aveia com manteiga forravam o estômago e nutriam a excitação pela fé.
Da sacada, Laurita observou o casal partir.  Não conhecia aquele engraxate.  Ele era um índio, de rosto enrugado e bafo de bebida.  Deixara a mulher na rua ao invés de subirem juntos, talvez se acabrunhasse com a fealdade dela, a mona.  Certamente, ele seria um dos cento e oitenta e três proprietários de camarotes que adornavam o Quadrado.  Antes que o caos se instaurasse, o barítono sequestrado fora contratar os serviços dele e de nenhum outro.  Supunha-se que os agentes estivessem agora no encalço do engraxate falastrão com pretensões poéticas.  A Praça Alfred Jarry enchia-se de enigmas geométricos e espiões secretos.  As retas rebelavam-se ao poder frenético dos deuses e dos homens. Dos ângulos obtusos e agudos formava-se um losango, desfazendo o Quadrado K-4 original.  O coreto afundava no areal fosforescente no meio da praça, centro da circunferência contida pelo quadrilátero. As musas e membros da orquestra imploravam para que um guindaste os resgatasse. Ao alto, outras nuvens, bolas de substância irritável, à guisa de vacas prenhas, aguardavam abrir as fendas para um dilúvio premeditado. A gente ludibriava-se com o ergot , a droga fermentada nos pães matinais. O coreto que se danasse e fosse parar em Hades, na busca do quinto dos infernos.
Laurita apressou-se em chamar Dulac, da agência parisiense associada a Morales y Morales desde a véspera da Primeira Guerra Mundial.  Tinham assuntos a tratar, inclusive sobre a rota das galochas.  Na tarde camaleônica e rastejante do chão ao teto, a voz de Dulac nascia e morria na cacofonia criada pelas linhas distantes.  Apesar da dificuldade, ele relatava que as autoridades italianas forneceram alguns elementos sobre o barítono desaparecido.  O sujeito que tratava o manual científico de Humboldt como bíblico, despira-se no camarote do engraxate sem importar-se com as quinceañeras na praça e ameaçara com cinto o lustrador dos calçados havia passado pela casa “kalabukhovsy”  na rua Prechistenka durante a juventude.  De acordo com o cartório de Nápoles, o registro de Pietro Paolini constava em cinco certidões de nascimento distintas, em datas consecutivas.  Amnésico, o pai de Pietro Paolini continuava a insistir com o tabelião para que finalmente registrasse o seu filho.  E não só.  Durante quarenta e cinto anos, este pai amnésico pedira desculpas a um vizinho por causa do extravio de uma roupa pendurada no varal entre as varandas.  O que mais apavorava Pietro Paolini: a perda da memória.  Quer se lembrasse ou não, a carreira de rápida ascensão fora patrocinada por uma cantora lírica polonesa, colecionadora de lenços de seda estampada e maridos, seis no total. A fortuna da diva de Varsóvia o favorecera e enfurecera Ludmila, uma governanta atenta aos mimos do artista em troca de migalhas de afeto. O barítono, com aspirações mundiais sob as luzes sulfurosas das ribaltas, não tardou em dispensar as duas mulheres, ignorando seus paradeiros.  Era possível que uma destas amásias estivesse envolvida no sequestro.  Dulac prometia aprofundar-se na busca de vestígios.
Finda a ligação com Dulac, Laurita repousou os olhos semicerrados sobre a mesa.  Visões circularam no interior da sua cabeça, perturbada pela melodia do acordeão do Orfeu dos Chiapas, o único sobrevivente da orquestra afundada junto com o coreto no meio da praça. As investigações precisavam continuar.  Entretanto, a voz de Dulac tomava-se pelo fading.  As reminiscências agitavam-se entre as várias espécies de coisas, inclusive as lácteas e Laurita temia que quando visse Dulac, deixaria de vê-lo para sempre.  Ele, o anti-sentimental, seduzira Laurita em Paris num passeio aos jardins do Grande Palácio. Amantes encobertos pelo êxodo das andorinhas russas, latochki, e corvos ultramarinos ultrapassaram os sete vales de Simurgh sem nada se prometerem.  Na cama sobre lençóis encardidos, compartida com aqueles pássaros, despediram-se e reencontraram-se.  Entre os braços espirais, os corpos convergiam em um ponto gramatical, o ponto final da frase, mas que se prolongara nos rastros de um romance fantasmagórico. A força que os impulsionava desvanecia, vindo a renovar-se absoluta por um sentido de escrita contínua.  De uns tempos para cá, a voz quase finada de Dulac insinuava que o parágrafo estava por se completar.  Eles que, em seus países diversos, sequer se habituaram um ao outro.  Lágrimas arranharam o rosto da Grande Investigadora como pegadas felinas.
Laurita envelhecia e ninguém poderia socorrê-la, lamentavam as musas do coreto mergulhado no areal e cujas cabeças permaneciam emersas.  As musas que entoaram por Pietro Paolini, antigo dono do cãozinho Zamor.

***

Um zumbido feminino, fantástico e aflautado divertia Pietro Paolini: latochki (“написание”[1]), repetia-se.  O canto da andorinha fazia cócegas na orelha peluda do barítono.  Sob a ilusão de salvar a memória vaga e pobre do refém, os olhos chispantes de uma mulher direcionavam-se a ele em vã tentativa.  Ele esquecia-se do passado sem disso aperceber-se.  Em sonho, Pietro Paolini refletia tão somente que, sem a força para levantar um forno gigante de três pernas ou uma montanha, como montaria no cavalo árabe a correr mil léguas por dia, como? Pietro Paolini estendeu a mão direita e ela caiu sobre algo úmido e duro, deixou que ficasse, o seu cronoscópio. Estava quase despertando porque sonhava que sonhava.
No celeiro da hacienda de Ernesto Garcia e Madame Petróvska na aldeia, Pietro Paolini acordava sobre o leito de Procusto.  In terrorem, desconfiava que lhe houvessem amputado as pernas para caber na cama de ferro.  Não sentia o corpo.  Qual não seria o seu espanto ao perceber-se esguio! A cama era, de fato, mais comprida do que seu corpo original. Os algozes, que remontavam a Elêusis, apiedaram-se dele e o anestesiaram antes de o esticarem. Meia dúzia de braços robustos se atarefara de alongar o moribundo.
Importava que o corpo se acomodasse entre o gradeado tal qual o passado se encaixa nos limites da vida. Três camaradas louros, sardentos e de ombros largos, em cópias perfeitas, havia chance de que fossem irmãos, descalçaram o barítono, antes de o atarem à cama. Com o fito de desarmar um homem, convém arrancar-lhe as galochas em primeiro.  O homem da urbes não sabe ir com o pé em matéria bruta, requer disfarces.  Rasgaram-lhe o debrum da roupa e enroscaram o cinto nas pernas.  Tomaram medidas com uma fita métrica. Em mil anos, Pietro Paolini não apagaria a agonia mais do que mortal que o acometia. A testa banhava-se em um vapor viscoso, exalando colônia Old Spice.   O olor de fungos podres, a maturação do ergot, subia às narinas assim como o olor de pães frescos.  Uma porta abria-se e fechava-se.
Os sapatos de Pietro Paolini jogados sobre o piso haviam perdido o resplendor polido pelo engraxate; desvendados os pés, salientavam-se as calosidades, ossos novos que se feriam ao menor contato. O limpa-botas massageara as protuberâncias, aliviando o martírio de Pietro Paolini momentaneamente. No entanto, o sequestro levara-o do camarote do engraxate para  aquele lugar ermo, de murmúrios em russo.  Uma coronada na nuca apagara o clarão.  Escalpelado, Pietro Paolini representava o sujeito amoroso sem que nunca houvesse amado.  Vulnerável, expunha-se a carne viva aos mais leves ferimentos.  Sob o poder dos sequestradores, Pietro Paolini permanecia com o cérebro mole e os pés em gélida nudez.  Ao abrir os olhos, pestanejaria nervosamente e confrontaria os seus malfeitores, sujeitos de cérebros doentios e inconsequentes, de pés calçados em botas e cadarços firmes, inclusive Madame Petróvska, ciente, desde a infância, da lista de crimes que cometeria.
Pietro Paolini, como um menino de pijama, riu de seu próprio medo e sentiu a urina arder a urticária entre as coxas.
“Façam-me um favor”, disse Madame Petróvska. “Mudem as roupas dele.”  Vladmir, Boris e Sorokin, membros da Sociedade Cirúrgica Russa, assentiram.

[1] Latochki, andorinha em russo.


Kátia Gerlach (Rio de Janeiro, 1980). Radicada em Nova York, graduada em Direito pela UERJ. Mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law. Professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas e da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas.  Autora de Colisões BESTIAIS (Particula)res pela Editora Oitoemeio, Forrageiras de Jade (2009) e Forasteiros (2013), editados pelo Projeto Dulcineia Catadora. Colunista da Philos e do Jornal Rascunho.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Transmudamentos, por Kátia Gerlach

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