Minha mãe era uma mulher dura, de força moral, de respeito. Ela não falava de meu pai, que a deixou bem cedo. Ainda éramos bem pequenas. Vivíamos as três na casa, eu, minha irmã e minha mãe.  Minha irmã seguia os passos de minha mãe, acompanhava-a na missa, nas compras. Eu vivia em um mundo distante das certezas de minha mãe. Ela tinha certeza de muita coisa, eu me calava, silenciava as certezas que davam vida à existência de minha mãe.
Quando criança, depois da partida do sol, sabia que a noite chegaria. Muitas vezes, o céu tinha pontinhos brilhantes. Algumas vezes, buscava por esses pontos e eles sumiam.  O medo se aproximava de mim. Pensava nas histórias que minha mãe contava de assombrações. Escondia-me sob a coberta e, assim protegida, eu adormecia.  Em vésperas de domingo, minha mãe escolhia a roupa da missa. Lembro que gostava de sentir seus dedos acariciando os vestidos, como se admirasse a vida, como se cada vestido tivesse a lembrança de um tempo que ela guardava escondido. Entre um vestido e outro, avistei uma caixa amarrotada pelo tempo. Ninguém nunca teve ocasião de ver o interior da caixa. Quando perguntei o que havia lá dentro, ela disse serem documentos da casa. Que era uma caixa importante, não poderia ser mexida.
Certo domingo, depois de minha mãe e minha irmã saírem para a missa, minhas mãos foram ao invés da obediência. Mesmo sabendo que elas ainda se devotavam, fui pé a pé ao quarto de minha mãe. Uma lufada de vento abriu a porta do guarda roupa num convite secreto. Peguei a caixa com zelo, com medo que se desmanchasse nas mãos trêmulas. Abri a caixa… umas flores secas, papéis e um colar de contas azuis. Meu corpo se arrepiou quando toquei nelas, uma energia forte, era algo sagrado, instintivamente pedi licença e levei para meu quarto. Escondi em lugar invisível.
Quando dei por mim, havia crescido, era gente grande. Minha mãe ainda no controle das contas, da vida, minha irmã estudando longe.
Um dia vi uma estátua de bronze. Lembrei que lá em casa havia uma parecida, uma das obras que meu pai deixara. Interroguei a minha mãe e ela disse que eu estava inventando coisas que nunca existiram.
O pensamento dela escolhia as lembranças, ganhou liberdade. Ela rejuvenesceu o pensamento, perdeu a frieza, perdeu as certezas.
Uma noite, em seu quarto, sentadas na cama, conversávamos. Ela disse: “menti o tempo todo, nunca tive nenhuma certeza na vida, era uma necessidade de ter firmeza para criar as duas filhas. Agora, te falo, livre dos valores que me forçaram a fugir da passividade. Não devemos criar raízes, pois a vida nos interrompe num vai e vem do tempo, trazendo lembranças que estão escondidas na caixa”.
Levantou-se vagamente, sem nenhuma pressa, pegou a caixa e deu ocasião às lembranças, fotos de meu pai, cartas de amor, flores secas, um lindo vestido amarelo. Só faltou o colar de contas azul. Confessei minha traquinice de menina. Corri ao meu quarto. “Esse colar, minha filha, foi o que restou comigo da crença de seu pai. Esse azul representa o orixá que a acompanha desde o seu nascimento. Não respeitei sua mãe-do-corpo, desencantou-se de mim e partiu. Lembro-me de você dentro do meu corpo, protegida pelas águas.  Fui a um terreiro com ele.  Seu corpo balançou bem forte dentro de mim quando Ogum, o orixá da justiça apareceu, tocou em meu ventre e disse — “essa é minha filha”. As coisas que aprendi com o mundo em que eu habitava eram crenças que segui sem entender muita coisa.  Nunca questionei, acreditando ser o único caminho a ser percorrido em busca da luz.   Passei dias de trevas quando seu pai se foi. Andei buscando um rumo, voltei à missa. A dor me abriu entendimento, arrependimento e muita saudade. Sabe, filha, hoje tenho uma certeza que a vida me ensinou, ela nos guia para lugares de nossa vontade”.
Passados os dias, fui à procissão de encantados, chamada de Boitá. Meu coração se abriu ao me deparar com o meu orixá. Senti certa familiaridade.  Lembro-me de tê-lo visto nos meus sonhos. Certa vez, ele me livrou de uma agressão. Andava distraída quando me vi diante de um atacante.  Foi quando ele apareceu. Era um homem de roupa azul, tinha duas espadas no corpo. O rapaz fugiu assustado e eu pensei que era uma visão sem realidade, nascida do medo. Mas agora ele está aqui pertinho de mim e me abraça. Esqueço o medo da noite escura. Encontrei um novo prazer: sair pela noite admirando estrelas e vultos luminosos.


Aidil Araujo Lima (Bahia, 1958). Contista, com diversos textos premiados e publicados em Antologia. Participou da FLICA em 2016, no Mapa da Palavra pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em roda de conversas com outros escritores.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Contas sagradas, por Aidil Araujo Lima

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