Ela adormeceu.
Presenciar os sepultamentos sempre a deixa triste, não sei o motivo de ela querer estar presente. E não sei o motivo de eu nunca a convencer a não vir.
Olhando para ela, eu vejo em seu semblante sereno o amor que brota do seu ser, o amor que ela compartilha com os humanos; o amor que ela sente ao sentar-se em uma colina sobre a grama úmida de orvalho e sentir o calor do nascer do sol… Eu não sinto isso, não com a intensidade que ela sente. Acho que esse é o maior motivo das nossas discussões… Eu, apesar de ser um anjo da guarda, não sinto essa ligação com eles, não como ela, um anjo que leva suas almas depois da ceifa.
– Ah Jael…
– O que foi? – ela perguntou, passando as mãos nos olhos inchados do choro
– Já acabou?
– Sim – eu respondi, levantando-me e ajudando-a a se levantar – Devemos ir agora. Nosso próximo tesouro está prestes a nascer.
Demos as mãos e em um piscar de olhos estávamos na sala de parto, a próxima alma que eu guardaria seria a de uma menina… Assim é bem melhor. Jael se emocionou, tocou levemente o rosto da menina que receberia o nome de Clara. Ela olhou para mim e se foi. Esse é o único momento em que ela tem contato com a alma antes de levá-la… Mas não foi assim com Rúbem.
No momento da nossa criação somos divididos, duas partes de uma mesma alma. Enviam-nos para a terra, cada um com sua tarefa, eu sempre fico com a luz, ela sempre fica com as trevas.
Não nos vemos muito depois que chegamos aqui, mas quando nos vemos, apenas por uma fração de segundo, somos capazes de nos entendermos, de ver o que a outra sente. As trevas sempre trabalham mais do que nós, os anjos da guarda. Enquanto ficamos guardando apenas um humano por vez, os anjos da morte levam dezenas de almas para o outro lado do véu. Acho que isso explica o motivo de eles serem tão sensíveis.
Jael é diferente. Sempre foi. Ela parece não entender que não deve ser tão próxima deles, dos humanos. Tudo começou quando voltamos pela milésima vez à terra, eu fui designada para uma alma especial, sua missão na terra seria curta, ele não chegaria a completar três décadas.
Todos nos reunimos em um acidente de carro, quando o melhor amigo de Rúbem fora levado. Jael apareceu para colher a alma e viu quando a morte beijou o rosto de Rúbem. Ela soube que ele seria o próximo.
– Jael – eu a chamei, assustada por vê-la segurar a alma enquanto ficava encarando o rapaz caído no asfalto – Você tem que ir!
Ela olhou para mim, seus olhos lacrimejantes me mostravam a tristeza que ela sentia ao levar uma alma tão jovem.
– Por que eles devem voltar tão cedo? – ela me perguntou – Eu não entendo.
– Não somos capazes de entender os planos, Jael. – eu me aproximei e toquei em seu ombro – Vá. Cumpra seu dever.
– Me ajudem… – o rapaz gemeu e esticou uma das mãos.
Nós nos viramos e vimos que o rapaz caído no asfalto falava conosco. Jael soltou a alma e se ajoelhou ao lado dele.
– Não se preocupe Rúbem, você será salvo! – ela disse.
– Jael! – eu a puxei. A alma que ela deveria levar para o outro lado estava perdida.
Quando a morte beija um ser humano, ela deixa a marca da partida para que os seus anjos possam levar as almas para o lado do véu onde ficam os desencarnados. O véu é apenas um fino tecido transparente que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos e nenhum vivo é capaz de ver o véu ou através dele. As almas recolhidas que se perdem não passam pelo véu e ficam vagando pela terra.
– A alma está perdida! – eu disse mais vigorosamente – Devemos recolhê-la imediatamente.
Jael se levantou e fomos em busca da alma. Ela sentiu-se ligada à Rúbem e eu soube que aquilo causaria problemas.
– Ele tem um coração puro.
– Eu sei Jael, eu sei.
Quando avistamos a alma, eu voltei para o lado de Rúbem e Jael cumpriu seu trabalho. No dia seguinte, Rúbem já estava em casa quando ele se lembrou de Jael. Por ter recebido a marca da morte, ele pôde nos ver naquele momento tênue entre os dois mundos, e por algum motivo, ele se lembrava dela. O que não acontecia normalmente.
Para meu susto, Jael apareceu no quarto onde ele descansava, ela sentou-se ao seu lado na cama e esperou que ele acordasse.
– O que pensa que está fazendo? – eu perguntei.
– Quero vê-lo.
– Você o verá quando vier buscá-lo!
– Não assim, quero vê-lo vivo.
Ele acordou e a viu, seu semblante refletia a alegria que ela sentia. Mesmo já presenciado esse tipo de atitude dela, eu sempre me surpreendi por vê-la apaixonada, mas, ser correspondida é o problema.
– Quem é você? – ele perguntou ainda sonolento – Como entrou aqui?
– Não precisa se preocupar – ela respondeu passando a mão pelo rosto dele – Eu não vou te machucar… Estou aqui para te ajudar.
– Jael – eu a chamei, andando de um lado para o outro, não me preocupei em chamar a atenção de Rúbem. Eu sabia que ele não era capaz de me ver… Ninguém vê seu anjo da guarda – Pare com isso! Agora você já o viu, vá embora!
Ela parecia não me ouvir, mergulhados em um mundo só deles, Rúbem e Jael conversaram sobre céu e inferno, sobre o acidente que matara um de seus amigos e do fato de que Rúbem iria em breve deixar o mundo dos vivos.
– E não há nada que você possa fazer? – ele se levantou, parecia que havia finalmente entendido o sentido da conversa, ele percebera que iria morrer muito jovem – Isso não pode estar certo… Quero dizer, eu ainda tenho muito que fazer… Estou quase me graduando e…
Não se preocupe! – Jael se levantou e o segurou pelas mãos – Tudo tem um propósito.
– E qual é o propósito de um jovem morrer? – o temor de deixar o mundo que conhecia deixou Rúbem agitado.
– Não pense nisso agora, venha. – Jael o abraçou e juntos andaram em direção à janela.
– Jael… JAEL! – eu gritei para que ela parasse… Mas ela se foi, levando nos braços o seu novo amor.
As consequências geradas pelo relacionamento entre um ser humano e um anjo são mais catastróficas do que as geradas por um ser humano e um demônio. Jael nunca se importou com os problemas que a alma sofre quando atravessa o véu, muitas vezes essas almas passam por um purgatório para pagar pelos pecados cometidos na vida terrena, e um homem que se relaciona com um anjo… Bem, essa alma pode nunca ir para o céu.
Eu demorei muito para encontra-los, sempre me importei mais com a vida que as almas seguem depois de atravessarem o véu e Jael se preocupa mais com a vida na terra. Talvez por ela não saber exatamente como seja a vida no mundo dos vivos.
– JAEL! – eu gritei quando a vi sentada em um pomar, Rúbem repousava a cabeça em seu colo – Você sabe que isso terá consequências! E não serão nada boas!
– Ele não pode deixar esse mundo sem ver a beleza que o cerca! – ela dizia sem olhar para mim – Ele tem que conhecer o mundo antes de deixá-lo.
Ela me olhou e eu pude ver o amor que ela sentia por ele… E pelo mundo! Eu nunca havia pensado nisso, talvez o amor que ela sinta pelos humanos seja – na verdade – por eles viverem plenamente os sentimentos. Sem que eu percebesse, eles haviam desaparecido novamente. Jael o levara para conhecer outro lugar especial.
Quando os encontrei novamente, Rúbem estava deitado nas areias brancas de uma praia deserta, Jael estava paralisada olhando para o horizonte.
– Jael? – eu perguntei, estranhando a energia que a rodeava – O que foi?
Só quando me aproximei eu percebi que Rúbem não estava deitado, estava caído e Jael não olhava para o horizonte, ela encarava as costas da morte que se distanciava e ao lado dela, a alma de Rúbem.
Ela não me respondeu, não olhou para mim ou para a alma confusa de Rúbem, simplesmente o pegou pelo braço e fez seu trabalho levando-o para o outro lado do véu. Eu sabia o que ela faria em seguida, por isso fui para o quarto de Rúbem. Não sei quanto tempo nós ficamos lá, olhando as fotografias que estavam coladas na parede. Eu não queria aborrecê-la, sabia que ela sofria e mesmo não entendendo direito eu sempre respeitei esse período que só acabaria quando ela visse os humanos se despedindo dele.
Enquanto estávamos sentadas, observando os familiares de Rúbem velando seu corpo, ela me olhou e sorriu, como se pedisse desculpas.
– Eu não consigo resistir. – ela disse – Eu os amo profundamente. Eles são seres complexos e simples ao mesmo tempo; são capazes das piores barbaridades e das maiores generosidades. Eles se importam com tudo, menos com o que realmente importa. Eles buscam beleza a todo custo, mas são incapazes de ver que a beleza está por toda parte… Eles são incríveis e assustadores.
Quando ela deitou a cabeça no meu ombro, eu respirei fundo. Clara estava prestes a nascer e eu não queria interromper aquele momento. Eu a olhei e vi que ela havia adormecido.


Luciane Souza (Brasília, 1983). Uma apaixonada por literatura; começou a escrever contos quando ganhou uma máquina de escrever aos 14 anos. Desde então dá assas à imaginação. Seu primeiro romance intitulado Estrelas Artificiais foi publicado independentemente pelo Kindle Direct Publishing, Amazon.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Os anjos da Terra, por Luciane Souza

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