Eu moro num apartamento na General Osório. Apartamento é maneira de dizer, trata-se de uma quitinete. Das mais feias, por sinal. O prédio é sujo, nada funciona, não há portaria e, na verdade, a porta da frente, do lado de uma padaria, não tem tranca. No prédio, além de morarem, algumas pessoas também tocam seus negócios nas quitinetes. Já conheci a menina que faz depilação com cera quente e linha no 38, uma outra, cliente da primeira, que se prostitui no 55, o rapaz que vende drogas no 22, um outro, cliente do primeiro, que faz manutenção em computadores e impressoras no 51. À exceção da moça da cera quente eu já fiz negócios com todos os outros. No prédio existe um microcosmo todo próprio, todo dele, a fauna, composta por essas figuras, entre outras que não me chamam tanto a atenção, seus cachorros e gatos, as baratas, pulgas, ratos e demais pragas mais ou menos toleradas, interage com uma flora composta de fungos, limo, trepadeiras, flores de plástico e samambaias de xaxim. É lindo, apesar da arquitetura dos fins dos sessenta tirar um pouco do tesão da coisa toda. É lindo, apesar da minha quitinete ser horrível. Mais do que tudo isso que contei, o que mais me fascina no meu quarto é um buraco de bala na parede, do lado de onde eu coloco o guarda-roupas. O buraco tem uns dois centímetros de diâmetro, alguns milímetros de profundidade. Ele me fascina. Como uma pequena cratera lunar, bem ao alcance das minhas mãos. A história dele eu conto daqui a pouco, assim que terminar de contar como eu vim parar aqui. Morava uma família aqui bem antes de mim. Um senhor muito obeso, de quem eu comprei a quitinete, que não andava em função da diabetes ter comido metade da sua perna. O peso era demais para outra perna, tomada pela gangrena, em vias de também ser devorada. Sua mulher, que sofria, ela também, de males diversos, fumava um cigarro atrás do outro, literalmente acendendo um cigarro no outro, reacendia a cinzas de tabaco, dedos, lábios e dentes amarelos, e tinha uma voz de caminhoneiro, além de um bigode de mascate. Suas três filhas, a caçula, ainda uma criança, que eu jurava iria se tornar a coisa mais linda do mundo na idade adulta, mas que foi uma decepção para mim quando, conforme crescia, ia se parecendo mais e mais com os pais, tanto no tamanho quanto no bigode. A do meio, que já saía de casa para trabalhar e, sozinha, sustentava a todos. A mais velha, dezessete anos de idade na época em que eu comprei o apartamento, faltava-lhe um dos dentes da frente, era de longe a mais inteligente da família, hoje mora no 55 e potencialmente, conforme aferi recentemente, se depila no 38. O velho separava sua cama do que ele chamava ‘quarto das meninas’ por um lençol todo manchado e cheio de buracos causados por pequenos incêndios de cigarro. Venderam-me a quitinete depois de uma pequena tragédia na família. Eu trabalhava na construção civil, ora mexia massa, ora quebrava paredes, passava fio, carregava tijolo, essas coisas. Suava o diabo o dia todo debaixo do sol, mas valeu a pena. Na obra eu conheci o Willy, que me apresentou à minha namorada. Willy era um peruano vivendo ilegalmente no Brasil, um misto de trabalhador e patrulheiro, muito alto para um peruano, estava ele, naquela época, junto com a irmã da garota que viria a ser minha namorada. Ela ainda estudava, num colégio público no Parque D. Pedro, era magra demais, mesmo para uma menina de quinze anos, mas eu não me importava, achava-a linda. Não que ela fosse, mas eu assim pensava. Eu era inocente, ela também. Willy não era. Eu dormia numa chamada cama-quente num dos cortiços do Glicério. De dia, enquanto eu trabalhava, dormia na minha cama um porteiro que trabalhava todas as noites. Aos finais de semana, quando nenhum de nós trabalhava, ele passava a noite nos bares, puteiros ou na casa de seus amigos para que eu dormisse. Eu passava os dias caminhando no centro, sentava-me na Praça da Sé para ver os pastores pregando para os transeuntes, conversava com um e outro que passava, ia no cinema, para que ele dormisse. Com o tempo, passei a andar com o Willy e com as duas meninas. A namorada do Willy era ainda mais nova que a irmã, mas fazia faxina em casa de família para sustentar os pais inválidos e as irmãs. Aconteceu automaticamente. Willy saía com a mais nova, eu com a mais velha. Começamos a namorar no primeiro dia. Logo fui conhecer seus pais, naquele apartamento da General Osório do qual falei antes. Em pouco tempo pode-se dizer que viramos todos uma mesma família, o leão marinho que as meninas tinham por pai, a mãe, as meninas, Willy e eu. Todos juntos naquela quitinete de menos de vinte metros quadrados. A mãe não se importava, desde que colocássemos comida dentro de casa, o que geralmente fazíamos. Eu passava o tempo com a minha pequena, Willy com a dele, brincávamos com a caçula, tomávamos café e fumávamos cigarros paraguaios com a velha. O pai, por outro lado, nos odiava, ficava ruminando na extremidade do cômodo, os olhos pregados na janela. Eu, por minha vez, o odiava. A falta de uma perna, o fedor das pústulas na perna que sobrava, a carne preta sempre à mostra, ele me enojava. O homem não tinha nenhum asseio, era um péssimo exemplo para as meninas. Não tinha também qualquer gratidão por Willy e eu colocarmos comida em sua mesa. Eventualmente eu trouxe minhas posses para a casa e passei a morar com eles, no quarto das meninas. O velho desaprovou, mas não disse palavra. Willy também. Minha relação com o peruano azedou rapidamente, afinal ele não saía da minha casa. Eu queria um pouco de privacidade com a minha nova família, mas o maldito estava sempre lá, todo dia o Willy e a irmã do meio de cara fechada para mim, o velho rabugento olhando pela janela, a mãe fumando e assistindo à novela, a menorzinha, um anjinho de tão linda, brincando com uma boneca muito velha. Todo dia a mesma cena. Por uns dois anos. Naquela época todos os meus bens se resumiam a uma mala cheia de roupas surradas, material para fazer a barba, uns dois ou três livros e uma garrucha, que eu carregava sempre no bolso da jaqueta, porque São Paulo além de ser uma cidade fria é também perigosa.
Tudo, exceto as roupas, herdado do meu pai. Eu não comprava coisas para poder poupar dinheiro. Queria comprar uma casa. Meu pai nunca teve uma casa. Por isso que, quando ele se foi, eu fiquei no olho da rua e acabei vindo parar nessa cidade. Até aquele gordo moribundo tem um teto dele e meu pai, trabalhador e estudado, nunca teve. Eu ia mudar essa sina, custasse o que custasse. Por isso poupava o máximo que podia. O único luxo que me dava era ir ao cinema. Eu ia para casa após os trailers, sempre. Desde que eu descobri o cinema e assisti ao meu segundo filme e me decepcionei, porque eu havia imaginado uma história completamente diferente quando assisti ao trailer na sessão anterior. Fiquei nervoso, quis meu dinheiro de volta, não me deram, chorei de nervoso. Decidi nunca mais assistir a um filme inteiro. Os trailers, porém, ainda me enchiam de assombro, eu tinha que os assistir, era quase como um vício. O maior ponto positivo de assistir somente aos trailers é que não há quaisquer pontos negativos. Um trailer deve te capturar logo de início, porque ele dura pouco, não há tempo a perder com introduções demoradas, ele vai direto ao ponto. A ação não para, não há monólogos infinitamente longos, cenas constrangedoramente entediantes onde nada acontece. Tudo acontece num piscar de olhos. E o melhor, você nunca se decepciona com o final da história porque não há um final, você pode criar tudo na sua cabeça. E é isso o que eu mais gosto. Certa vez minha namorada insistiu tanto para que eu ficasse até o final do filme, dizendo que ela não queria assistir ao maldito filme sozinha, que queria passar mais tempo comigo que não fosse ‘dentro daquele quarto imundo ou perambulando por essa merda de cidade’ e toda essa baboseira e eu já estava pressentindo mais uma briga, o velho ia me encher o saco, ia ser aquele drama; eu já podia ouvir a menorzinha chorando, a do meio ia ficar de cara fechada para mim pelo resto da semana, ia ser um tédio, que decidi assistir ao maldito filme até ao final. Foi um dos piores enganos que já cometi na vida. Eu havia visto o trailer daquele filme, havia gostado, tinha criado toda a história na minha cabeça, era perfeito. No fim das contas o filme me decepcionou, me entediou, eu queria ir embora, mas não podia por causa dela, tremia de raiva. Aquilo estragou o meu dia. Eu segurava a garrucha dentro do bolso da jaqueta para me acalmar. Caso você ainda não tenha entendido o quão grande é o prazer de não conhecer uma história até ao final, eu vou voltar ao caso do buraco de bala. Quando eu morava com aquela família pouco antes do pai morrer, carcomido de gangrena, da filha do meio se arrancar com a mãe, carcomida de desgosto, e com a menorzinha, a que se transformou numa baleia bigoduda; antes do Willy ser enterrado como indigente no Perus, que, de certa forma, é uma tremenda ironia; antes da minha namorada começar a fazer programa a troco de praticamente nada, antes de tudo isso acontecer, não havia buraco de bala algum na parede do meu quarto. Naquele dia em que assisti ao filme até o fim eu fiquei extremamente contrariado. Eu cheguei em casa e me deparei com aquela cena de sempre.


Herbert do Nascimento (Santo André, 1987). É tradutor e vive atualmente em Dublin, Irlanda. Escreve sobre cenas quotidianas das grandes metrópoles. somentenao.wordpress.com

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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