“[…] dixitque ad eos audite somnium meum quod vidi”
Gen.37-5:6

A Yosef, saba sheli.

Diz-se que José nunca falou – ou ninguém o escutara – enovelados numa amálgama de palavras, até as palavras serem só uma, e estarem todos contidos nela, numa mesma pergunta e numa mesma resposta. Escuta. Todos tinham algo que dizer, por dizer, para dizer, na ânsia de se coroarem indígetes de uma qualquer narrativa, de aos atropelos quererem, cada um por si, ter uma linha, uma parte, encarnarem alguma figura, por mais derrisória, forçarem-se na trama, tomarem assento na estória da criação.
Todos menos José. José estava fora das palavras, ou tão dentro delas que mal as escutava, José permanecia silente, se a ausência é a maior das presenças. Um sonho. Entre o abarroteamento sonoroso das radio-vídeo-difusões, das cornetas, sirenes – outras que não as de pés de cetáceo e os lábios untados das toadas marinheiras – das monofonias e polifonias, de um disparo atordoante de vozearias, soando, ressoando, até estalarem todas as cordas que tinham, José permanecia silente.
Esgoelavam-se, rangiam, guinchavam. E José nada escutava ou pronunciava.

José era o homem silencioso. José sonhava enquanto os demais linguarejavam, ensaiavam os seus papéis quotidianos, pai deste, filho de outro, apóstolo, mercenário, rei. José não tinha um papel, José era José, as mãos ásperas e longas, os dedos como corais, com o farelo das madeiras incrustado nos metacarpianos, com o rosmaninho e o azeite perfumando-lhe as palmas gretadas de viagens, as mãos que transformavam os metais, as mãos que criavam mundos, as mãos silenciosas de José. Um sonho meu. As mãos de José erguiam casas e árvores em terras inférteis e com as migalhas e bagas de mel que restam aos simples na quadragésima, recheavam as mesas de fartura.

Diz-se que quando tivera José um sonho e o contara aos seus irmãos, todos o odiaram. Do silêncio de José desabrochavam mundos intransitáveis, sem a vultuosidade dos falatórios, José tinha espaço. Um espaço cujos limites traçava e destraçava e onde guardava o que ficava por dizer, o que ninguém escutara. Um sonho meu que sonhei. Recolhia as palavras que os outros abandonavam como folhas no vento, limbo a limbo, reconstituía uma alegria, uma tristeza, um chiste ou um queixume, e tudo guardava dentro de si. Extraía o trinado das aves, o rumorejo dos rios, com a lucidez do seu silêncio distinguia, o timbre de cada árvore. E como o epígono da mais preciosa fórmula alquímica, José permanecia impenetrável. Escutando a música de dentro, falando a música de dentro,

Escuta, escuta a madeira – o alaúde, reverbera,
a alma está na madeira, são duas, o imo,
da árvore, e o queimor dos dedos, do homem
– uma terceira, a dele, a sua, do alaúde; a melhor
é a nogueira, nela as cordas dançam – escuta;
o alaúde, é um barco, a música navega, assim,
filamento após filamento, destilada suavemente,
ouve a madeira; é uma gota, uma gota de mar –
e nos estaleiros, o eflúvio, cada barco é
um alaúde, leves, de manejamento grácil,
para as correntes dóceis, – abetos,
deslizando nas costas suaves do Egeu,
da Lícia, densos, como caixas de pinho,
caravelando, com a solidez que só tem
a morte, não cediam aos vórtices
do grande mar, apossaram o mundo;
[de que se faz a tua madeira,
pesa, flutua; o seu odor, inebria,
dissimula-se, com que afinco,
te debruças
sobre as tábuas, dia, noite,
nunca; constróis, cerzes,
aplanas,
de que te fazes


Helena Barbagelata (Lisboa, 1991). É licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Pós-graduada em Línguas, Literaturas e Culturas. Desenvolveu estudos de investigação em Língua, Pensamento e Cultura Helénica na Universidade Nacional e Capodistriana de Atenas. Vencedora do “Prémio Poesia e Ficção” (Edição de 2012), com a obra “O Mar de Todos os Deuses”, atribuído por unanimidade pela Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade de Língua Portuguesa e pela Câmara Municipal de Almada. Colabora como autora e ilustradora em diversas publicações, destacando-se: Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira, Diversos Afins – Entre Caminhos e Palavras, e Mallarmargens – Poesia e Arte Contemporânea. Participa em antologias no espaço latino e tem sido agraciada em vários concursos internacionais. Publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). É colunista e Curadora da Philos.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Alaúde I – O sonho do carpinteiro, por Helena Barbagelata

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