Você não sente, não vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo. Que uma nova mudança, em breve, vai acontecer. Assim dizia os versos da emblemática canção “Velha roupa colorida”, composta por Belchior em 1976. Eram tempos difíceis, como os de hoje. A força da palavra, canto torto, rompia e rasgava a carne de toda a opressão do mundo. O que esse cearense nos ensina é que há um corpo-vivo por detrás de toda a escrita, há a necessidade de afirmar nossa experiência de latino-americanos, construídos pela barganha das violências, e na escuridão das injustiças. E é pelas injustiças que cresce o desejo de amar e mudar as coisas. E amar, nesse mundo esquisito de hoje, é resistência. Belchior guardou uma frase para cada um de nós, nas dobras do seu blusão de couro velho e surrado, nas cordas do violão, no bigode e no sorriso faceiro de menino, com o nordeste estampado na cara e no coração. É difícil dizer adeus. É difícil dizer sobre o medo que senti quando voei de avião pela primeira vez, I wanna hold your hand, querido.
Ano passado, eu morri, mas esse ano eu não morro: é uma frase que deveríamos dizer, é um verso que a América Latina, essa região de veias abertas, deveria dizer e cantar sempre. Na modernização da sociedade, o diálogo parece estar cada vez mais distante e rude. Somos pobres demais quando falamos de experiências, somos incomunicáveis. O que predomina é a ausência, o silêncio, o trauma e o rio que nos engana. Belchior traz a palavra viva e crua, e por isso existe. E por isso resiste. Belchior nos dá a receita da resistência: é nunca fazer nada que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar.
A resistência em Belchior é pela melancolia, a melancolia do passado que habita reiteradamente os seus versos, afinal, o passado é uma roupa que não nos veste mais. A verdade do passado setentista do companheiro cearense, infelizmente, continua vestindo nosso presente, seja na perda dos nossos direitos, seja no retrocesso político que incendeia nossa capital, seja nos presos por portarem um vidro de vinagre, ou nos desaparecidos em nossas grandes cidades. O passado parece continuar nos vestindo, ainda que esteja apertado, porque amamos o passado e não vemos que o novo sempre vem.
A produção artística de Belchior é uma tese sobre a melancolia. Esse traço, tão brasileiro quanto latino-americano, como afirmou outro conhecedor de nossa identidade, Moacyr Scliar. A melancolia que veio nos porões dos navios negreiros da África, que veio embalada nas velas portuguesas do colonizador, que esteve na fuga do massacre indígena e que atravessa as canções de nosso rapaz latino-americano. O que não é melancólico ao pensarmos na atualidade das suas composições? À palo seco, para ficarmos numa canção-poesia, referência a um de nossos poetas maior João Cabral de Melo Neto, é um poema sobre a tristeza, sobre o desespero e sobre o que nos resta: – dançar um tango argentino (Manuel Bandeira). Ao mesmo tempo em que faz do desespero a faca de corte, poeticamente, divinamente poética, nessa construção sonora de linguagem cabralina: e eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês. Verso tão sonoro que evidencia não somente a carne sendo penetrada, mas a intensidade (quase sentida como dentes sendo rangidos) daquele que sabe ter em mãos (e voz) a força da luta.
Melancolia e poesia não rimam somente enquanto palavras, rimam também nessa poética da melancolia que é Belchior. O que aprendemos com o agora poeta morto é sobre os poetas mortos que o atravessaram: Poe e seu blackbird (ou seria o pássaro negro dos Beatles?), Pessoa e as lágrimas nos olhos, Caetano sendo contradito, o palo seco de Cabral, o terror de Anthony Burgess e mais e mais e mais. Porque é de poesia que se faz a vida e a obra de Belchior. Ele é o pássaro negro que pega as asas quebradas e aprende a voar. E tenta nos ensinar a fazê-lo também.
Mas hoje, o que resta a esse coração selvagem? Ao meu e ao seu coração, que não conseguem digerir bem as perdas? Como digerir as perdas? Uma amiga me liga, diz que a comida não desce. A morte de Belchior é uma comida que não desce. Já é outra viagem. A vida não anda pisando devagar não, amigo. Som, fúria, solidão e saudade. Vem viver comigo, vem morrer comigo. Não sei de quantas quedas se faz uma desilusão ou de quantos sonhos juvenis se faz nossa utopia. Fico na esperança de ainda haver possibilidade de poesia depois disso tudo, cantar o amor e a saudade de casa, daquele amigo que foi atropelado cheio de esperança e fé, saudade do interior, do verde marinho. É que o mundo sempre estará naquela estrada ali em frente, Belchior me diria.

Pela geografia, aprendi que há, no mundo, um lugar, onde um jovem como eu pode amar e ser feliz.
Procurei passagem: avião, navio…
Não havia linha pr’aquele país.
(da canção “Caso comum de trânsito”, de 1977)

Sonhou e escreveu o Brasil. Belchior cantou o sonho e, com ele, o sonho se vai. A morte de Belchior é um pouco da morte do sonho. I have a dream… My dream is over! E o seu legado é o legado pela liberdade criativa num país atravessado pela sua história recente, um 1-9-6-4 que não sai do corpo, o perigo na esquina, a repressão, o exílio. Também submerso na liquidez e nas incertezas de seu tempo, Belchior cantou a juventude reprimida e o seu desejo de mudanças reais, com atores e ídolos que ainda são os mesmos. Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil, quem sabe? A vida realmente é diferente. A vida é muito pior. Hoje, mais do que nunca, Belchior vive, canta muito mais. Belchior voltou para a casa. Foi para o céu dos loucos, onde está Cartola, Cazuza, Noel Rosa e Nelson Cavaquinho. Levou consigo os sonhos de toda uma geração, o sonho de mudança, uma mudança para o futuro. Levou consigo o sonho e a vontade de viver as coisas novas, que também são boas. Levou consigo a utopia, que não passa de uma jovem que morre em alguma curva do caminho. Levou consigo a vontade de ver o amor, esse ser andrógino, tomar conta das praças e das pessoas. Como me disse outra amiga, Belchior desapareceu novamente.
Mas estamos no embate, querido Belchior. No corpo a corpo com as desigualdades, com a arrogância e a tibieza política, suportando o dia a dia, as ditas coisas reais. A consciência também vem carregada de luta: e essa luta pelo sonho não é branca, nem suave, nem limpa, nem leve. Ela começa no lado A do disco de estreia, e perpassa o lado B de nossas vidas como cidadãos do mundo – Like a complete unknown, like a rolling stone, me diria Bob Dylan – essa luta, ela nega a ilusão das proibições. Aliás, eu queria dizer que tudo é permitido. Sei também que nada é divino, nada é maravilhoso ou eterno. Mas, por favor, não saque uma arma, não me agrida, não me fira a pele com balas de borracha, cassetete na cabeça, nem me sufoque com seu gás lacrimogêneo. Eu sou apenas um professor, uma professora.
Deve haver um pouco de Belchior em todos aqueles que se cansam das mesmas palavras, das mesmas respostas, dito e pronto, tá feito. Deve haver um pouco de Belchior em todos aqueles que sentem esse mundo esquisito na pele, dia após dia. Deve haver um pouco de Belchior naqueles que reconhecem em suas fotografias 3X4 a estranheza dessa vida. Deve haver um pouco de Belchior em todos aqueles que sonham com o cheiro de nova estação, ou em certas ocasiões, o pesadelo e o gosto amargo dos golpes. Deve haver um pouco de Belchior em todos aqueles que sonham com um lugar para amar e ser feliz. E a felicidade… Ah! A felicidade é uma arma quente, meu amigo.

Mas eu inda sou bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisas, cuidemos da vida
Senão chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta, moço, sem ter visto a vida.
(da canção “Na hora do almoço”, de 1971)

Isso aqui é somente um texto. A saudade, ao vivo, é muito pior.


Adenize Franco (Inácio Martins, Paraná, 1979). Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Docente do curso de Letras na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO).
Luiz Henrique Soares (Jaboti, Paraná, 1995). Acadêmico de Letras na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Belchior e a poética da melancolia, por Adenize Franco & Luiz Henrique Soares

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