Azul saturno

O corte

A palavra sangra
Pois é viva
Por baixo e por dentro
A voz
A voz
A voz
Diz

À frente, apenas o grande passado
É possível
Recolhido sob a forma de um planeta
Audível longínquo
Orbitando o sol frio e azul
De um antigo sistema morto
Onde quintais vários
Marcam o ritmo de um ciclo
Que nunca mais!

Olha o Saturno digerindo o mar!
Olha o Sol expelido por trás!
Eu ontem era um
Hoje sou tantos e tantas
Que nunca mais!

A sorte nos trouxe, amor
Uma sombra nova
Densa feito nuvem de tempestade
Eletrificada como o clarão que dela deriva.
À deriva, olho o susto
Com o qual meus ouvidos
Ouvem o espanto do meu corpo
Em estar à deriva na clara substância
Que deriva da sombra e da sorte da sombra.

A tempestade cai desvairadamente
Sobre as cinco casas que me habitam
E meu pensamento pensa:
De repente é deus atormentado
Por ter sido inventado
E estar enjoado do seu próprio destino.

De repente é a má consciência
Recaindo feroz sobre a neve
De uma nova consciência por se criar.

De repente é o repente do tempo
Relâmpago azul no horizonte
Saltando o abismo sem fim.

De repente é o fluxo em refluxo
De um oceano possível e passivo
Revertendo, enfim, as direções
Pelas quais navegamos, inertes.

O corte.
Palavra sangra
Pois é viva.
Viva!


Evandro Alves Maciel (São Paulo, 1980). Poeta, graduando Filosofia pela Faculdade de São Bento, de São Paulo e fotógrafo amador. É autor do livro de poemas “Veneno de Ornitorrinco” (Ed. Patuá, 2016).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Dossiê de Literatura Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Evandro Alves Maciel

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