Pontal do Lago. O lago é o de Corumbá, em Caldas Novas, Goiás. Estamos sentados na grama, às margens do lago, um lugar maravilhoso (exceto pela música sertaneja goiana que não para de tocar). Leio um livro. Pelo menos, tento. Láli lê outro. Jane lê no facebook um texto do site “Sensacionalista”. O silêncio é grande (exceto pela música sertaneja goiana que não para de tocar, mesmo ao longe). – Que merda! Brada Láli, quebrando o silêncio e obrigando-me a parar no meio de um parágrafo. – O passarinho cagou em mim! Bem na cabeça! – reclama Láli. Sou obrigado a concordar com a indignação de minha filha. Por que essa porcaria de passarinho não foi cagar lá em Brasília? De Caldas Novas a Brasília são menos de 200 km. O passarinho, com um pouco de boa vontade (como a boa vontade de Obama em fechar Guantánamo), e em velocidade média, podia chegar facilmente e em pouco tempo a capital. O passarinho poderia, por exemplo, fazer um voo rasante pela Esplanada dos ministérios e cagar bem na cabeça da Kátia Abreu, que está lá para defender o agronegócio e foda-se para a agricultura familiar e os Sem Terra. Depois (e essa música sertaneja goiana que não para!) o passarinho poderia passar pela Câmara dos Deputados. Aí, ele poderia cagar na careca do Eduardo Cunha. Se ele cagasse na boca do Cunha, de onde tem saído os maiores ataques ao povo brasileiro, seria eleito “Passarinho do Ano 2015” pelas esquerdas, pelos sindicatos dos trabalhadores, pelos movimentos em luta pela terra e pela moradia, pelos movimentos em luta contra a homofobia, o racismo e pelos que lutam por democracia. E até por setores do PMDB e da socialdemo-cracia. Se o passarinho passasse pelos gabinetes do Silas Malafaia e do Marcos Feliciano, deputados-pastores, ou pastores-deputados, sei lá, e desse mais uma boa cagada, com certeza receberia uma mensagem do nosso papa Francisco: “Jesus Cristo te abençoe, criatura de Deus! Viva a fé verdadeira! Abaixo o dízimo!” Rumo ao Senado, o passarinho faria a alegria nacional, seria assim como lavar a alma de duzentos milhões de brasileiros. No Senado, duas ou três cagadas básicas, em três coronéis que há mais de meio século precisam ser cagados: o coronel de Alagoas, Collor de Mello; o outro coronel de Alagoas (êta lugar pra ter coronel!), Renan Calheiros e o coronel do Maranhão, José Sarney. Se pudesse dar uma quarta cagada seria no ACM, o Toninho Malvadeza, mas esse já partiu dessa para uma pior. E o passarinho, ao invés de ficar depositando seus dejetos nos lindos cabelos encaracolados de minha filha, poderia dar uma esticadinha até o Supremo. Como o Joaquim Barbosa não está mais lá, que Deus (ou o Capeta) o tenha, o passarinho faria um grande favor se enchesse a careca do Gilmar Mendes (“Devolve, Gilmar!”). Mas, não! O porcaria do passarinho tinha que cagar logo na cabeça de Larissa! Já sei: vou botar um alçapão, pego esse maldito passarinho, e mando para Brasília. No Sedex 10!


Reinaldo da Silva Fernandes (Brumadinho, MG, 1963). Vencedor do 4° Concurso de Literatura São Francisco Xavier, 2016.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Maldito passarinho, por Reinaldo Fernandes

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