“A salvação da fotografia vem da experimentação”
Lazslo Moholy-Nagy, 1947

Poderá o acaso continuar a assim chamar-se, se deliberadamente o procuramos?
Começamos por introduzir insistentemente a imperfeição da mão como instrumento da ação humana em tudo o que fazemos. As máquinas, inevitáveis, têm para nós como propósito último a conveniência. Ora, este fim nada pode dizer que interesse ao processo criativo. Por isso tentamos destituí-las ou pelo menos desviá-las da sua primária função, fazendo delas como que um fator secundário da humanidade com que impregnamos a nossa criação.
Ou seja, procuramos que seja percetível um lastro da manipulação humana na obra, procuramos o avesso, o interior, as costuras, aquilo que habitualmente se esconde.
Para isso, cultivamos uma ideia da arqueologia das ações fotográficas, procuramos deixar vestígios mais ou menos evidentes da nossa operação na matéria.
A intromissão intencional e tangível em todos os passos do processo não é uma tentativa, como poderá parecer, de controlar o aspeto do resultado. Aliás, o fim interessa-nos pouco, porventura. O que nos move é, à medida que percorremos o longo corredor da criação, abrir, se necessário à força, todas as portas ao erro e à imperfeição. Fazemos esse caminho no sentido inverso do virtuosismo e rejeitamos todas as formas de presumível perfeição, que percebemos quase sempre como uma miragem, um espelho falso, criado para nos confundir ou maravilhar. A perfeição e a verdade, transformadas ao longo das décadas em irmãs siamesas da criação fotográfica, não poderiam, para nós, estar mais longe uma da outra. Acreditamos mesmo que na procura da verdade poderá estar uma deliberada vontade de iludir.
Poderá uma “imagem perfeita” ser igual à forma com que os nossos olhos, já míopes ou cansados, ou que a nossa mente cética, ou que o nosso coração ingénuo, veem ou percebem o mundo?
Assim, se a repetição rumo à perfeição nos aborrece, só a experimentação nos poderá salvar do caminho frustrado da tentativa de alcançar uma verdade da qual duvidamos.
É então nesta ação, no percurso, no experimentar uma e outra vez que residirá talvez a nossa obra, dotada assim de um cariz quase performático, onde as consequências ou os resultados dessa mesma ação possam ser encontrados pelos outros e onde nós sejamos, à medida da nossa inocência cultivada, surpreendidos pelo acaso que perseguimos.


Magda Fernandes (Porto, Portugal, 1981)  e José Domingos (Paris, França, 1974). Colunistas da Philos e fundadores da Imagerie, Casa de Imagens, criada em Lisboa.

One thought on “ Palimpsesto, por Magda Fernandes & José Domingos ”

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