Hoje, tem a marca dos quarenta.
Perdido entre canais de filmes, séries e variedades, procura qualquer coisa incansavelmente pelos botões do controle remoto. Ana está atravessada por algum outro pensamento que não a falta de programação na televisão. Com a cabeça apoiada pela mão direita, os olhos piscam pesados e sôfregos por causa das duas cervejas que tomou enquanto fazia o jantar. O barulho das crianças diminuiu gradativamente. Agora, só um chiado, que provavelmente vem do filme que estavam assistindo. A rua segue quieta e até o cão parou de latir. Um carro passa e alguém entra no prédio.
Ana levanta. Pisando quase de lado, vai, tropicando, fechar as cortinas. Ajeita o pijama, prende o cabelo para trás enquanto diz “boa noite” junto com um longo e rouco bocejo. A vida familiar e doméstica corre sem abalos.
O trabalho, ruim de novo. Não adianta estender o horário pela terceira vez na semana. O jeito é fechar tudo e ir para casa. Sexta, dia de pizza, e finalmente poder tomar uma, duas ou três cervejas e dormir um pouco mais tarde, sempre no sofá, vendo algum filme ou esperando começar o programa de reforma de casas ou até ouvir o barulho da troca de porteiros.
Antes de desligar o computador, alguém bate à porta. Instintivamente, fecha o notebook, guarda os papéis na gaveta e se levanta, segurando o celular em uma mão e a carteira na outra. O novo assistente, Mario, entra com um sorriso estranho e vulgar, dizendo: “Lipe, quero tirar uma dúvida com você”. Mas, vendo o movimento contrário do colega, desiste. Pela terceira vez na semana, sente uma pontada no estômago. Na testa, duas linhas grossas se aproximam, prontas para sentenciar pela boca o “por favor, chame-me de Sr. Felipe”. Faz com as duas mãos o sinal de quem já encerrou o dia. Mario abre caminho e pede para descerem juntos. Com o terno pendurado no gancho feito pelo dedo, se despede antes de passar na catraca, com um simpático, porém ainda vulgar, “bom final de semana, Lipe”!
Parado na porta da estação, mexe nos bolsos. Há tempos não sente vontade de fumar. Sobe as escadas, cutucando a pele do dedo. Rói as unhas. Rói a pele. E as linhas da testa continuam segurando uma certa inquietação ou curiosidade ou, talvez, um desconforto.
Chega a casa, dá um beijo na testa de Ana, larga o paletó na cadeira da mesa de jantar, vai para o quarto e volta com a roupa de sexta-feira. As crianças estão na casa da vó. Abre a cerveja e senta no sofá. Com o panfleto da pizzaria na mão, decide por soltar os quarenta da testa. Levanta o pescoço, vira a cabeça, carrega o peito de fôlego e pergunta:
– Você acha que eu tenho apelido de criança?
Da cozinha, ouve Ana rindo para baixo, abafando e estagnando uma possível gargalhada.
Sábado à tarde, houve futebol. Suou debaixo de um sol sem brisa. Voltou para casa seguindo o traço cinza de um toró que se arrumava no céu. Não ia demorar muito, a água ia arriar feio. Um pouco antes de chegar à porta do prédio, Felipe é subitamente puxado. Um encontro casual, “mas que merda!” Baixa a cabeça tentando desguiar a possibilidade de novamente as linhas da testa se unirem num código que ainda não decifrou. Mas não há jeito:
– Eita, que coincidência, Lipe!
A conversa dura um pouco mais do que gostaria. Desvia de assuntos que possam se estender, temas corporativos e logo se vê salvo por um grosso e pesado pingo desprendido de uma nuvem que só pode considerar ser um gongo. Despede-se apressado com um aperto de mão mole, seguido por um “Até mais, nos vemos segunda”, mas não sem antes receber a tacada final e derradeira:
– Bom finde, Lipe!
Ao entrar em casa, molhado de suor ou de chuva, ou dos dois, esfuziado de um calor que se espalhava em manchas vermelhas pelo pescoço e no rosto, com os olhos raiados de sangue, tira as chuteiras sem se preocupar com o lugar indevido delas, abre a geladeira e rompe com sua própria testa bradando:
– Puta merda! Que puta merda!
Passado o toró, o sol volta a bater e rebater num clarão entusiasmado.
Felipe e Ana levam as crianças ao shopping para ver um filme. Resolvem esperar na praça de alimentação e aproveitam para comer um lanche.
Na mesa ao lado, um casal se entretém com o que parecem ser piadas internas. Ana se distrai com o rapaz que é alto, um pouco forte, um pouco bonito. Olha com o canto dos olhos, dando garfadas demoradas e cheias. Felipe olha para o outro lado e vê um casal comum, como ele costuma classificar os casais que se sentam nas praças de alimentação de shopping para tomar torre de chope enquanto riem despreocupadamente. Desiste da cena e observa a menina no caixa do restaurante por quilo, que vende a torre de chope e porções de frango a passarinho. Talvez solteira, tem jeito de solteira. Não chega a ser bonita, mas também não é feia. Pela cor do batom, é discreta. É simpática com os clientes, mas não em excesso de sorrisos. Tem um ar curioso. Como ele, está atenta ao trânsito das pessoas que se levantam, sentam, passam, olham o cardápio, digitam no celular e desistem de comer. Por um breve momento, encontram-se em um corredor de espaço vazio, mas logo perdem-se pelo muro de gente que passa no mesmo instante em que Felipe iria sorrir um sorriso de canto ou fazer um sinal com a cabeça, tentando concordar qualquer coisa que os deixassem cúmplices da multidão. Baixa a cabeça para dar uma garfada e sente a boca amargar a lembrança do sabor do cigarro.
À noite, Ana e Felipe trepam escondidos no silêncio. Ela goza na memória do rapaz da mesa ao lado, e ele mecanicamente.
Minado pela insistência de Mario em diminuir seu nome, e pelo que essa revelação se entrelaçou numa espécie de epifania, dessas típicas de se ter sentado de frente para um terapeuta, conseguiu que Mario fosse transferido para outro departamento. No dia em que ele foi se despedir, Felipe fingiu falar ao telefone, mas, sem sucesso, pode ler nos lábios um “a gente se vê, Lipe”!
Chega a casa, sexta à noite, cheio de atitude e cheiro de cigarro. Em vez de pizza, resolve só tomar cerveja. Conta da transferência de Mario, mas é recebido por um longo silêncio. Decide, quase heroico, revelar para Ana o verdadeiro motivo da rixa com o assistente. Há erro nessa atitude desesperada, pois as manchas vermelhas aparecem novamente ou é aquele calor repentino que sobe pelas costas ou uma simples ansiedade pela resposta. E com o pano de prato pendurado no ombro, Ana contrai os lábios e responde enviesada:
– Se você quer mesmo saber, você tem sim apelido de criança, Lipe!
Felipe empaca na cozinha. A dor no estômago dá lugar à azia. O calor das costas se transforma em memória: lá pelos seus dezoito, quando decidiu virar adulto e a vida pareceu ficar tarde demais para um menino e cedo demais para um adulto. Entre arrepiado e estarrecido, decide furiosamente mudar de nome:
Alberto.
Carlos.
Francisco.
Nelson.
Nos sábados seguintes, não houve futebol. Comprou um maço de cigarro e fumou sentado na praça perto de casa, aninhado no miserê feio de moleques que andavam de skate e fumavam bek sem preocupação. Arriscaria pedir um trago, mas disfarçar o gosto e o cheiro da nicotina já parecia o bastante para os quarenta e um anos.

***

Ana voltou a fazer natação, em finais de semana alternados, para ficar com as crianças. Quando estavam com ele, pediam para ir ao shopping. E, cada vez mais frequente, passou a sentar-se sempre na mesma mesa. Pedia uma torre de chope e uma porção de polenta frita com queijo esparramado por cima, enquanto os meninos demoravam a entrar e sair da sessão. Passou a contar o tempo em que ele ficaria livre do papel de pai pela torre de chope. Três litros equivaliam, mais ou menos, a três horas de folga ou três horas em que ele concatenava e murmurava baixinho ensaios de como pedir o telefone da moça do caixa, depois de descobrir que se chamava Andreia. No mesmo dia em que Ana decidiu que pediria o divórcio, depois de gozar meses e meses pensando no rapaz da mesa ao lado e encontrá-lo na academia do bairro, dando aulas de natação. Pouco tempo depois, os três litros de chope passaram a diminuir mais rápido do que as três horas de folga. Sozinho na mesa da praça de alimentação, observava a moça do caixa através do vidro da torre de chope e ela retribuía o olhar com gestos atrapalhados.
E assim, seguiram-se os meses.

***

Olham pela janela a faixa longa e grossa de mar aparecendo na paisagem. Andreia se desvencilha do cinto de segurança para dar um beijo no seu rosto e logo após o estalo diz em tom de confissão que “foi uma ótima ideia descer pra praia, Carlos”.
Ele sorri despreocupado ou experimenta um contentamento enquanto encara a estrada vazia à frente ou é só um jeito de concordar com Andreia.
Hoje, a marca tem a marca dos quarenta e cinco.


Leonardo Richner (São Paulo, 1981), trabalha com educação corporativa e faz parte do coletivo literário 9s/Fora.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A história de um homem comum ou a história de um homem normal ou a história do nome e da torre de chope, por Leonardo Richner

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