Há um tempo, fui à Chapada Diamantina descalçar os pés. Voltei com a câmera abarrotada de fotos e a mala encrostada de lama. Lavei blusas, shorts e cangas. Deixei roupa de molho e descobri o poder do Vanish.
Um short, porém, teimava em sua cor de trilha. Lavei-o uma, duas, três vezes, mas o danado era tinhoso: “Por que ser branco se posso ser da cor da Bahia?”. Enfim, dei-me por vencida e o deixei num canto do armário… “Depois-vejo-o-que-faço-com-você”.
Meses depois, numa limpa de roupas, deparei-me com ele: “Ainda com esperança de me ver com cara de loja?”, desafiou-me com um risinho de vencedor. Num derradeiro cala boca para seu nariz em pé, coloquei-o no Vanish. Esfrega daqui, esfrega dali – o short chorava lágrimas de lama. No campo de batalha, o barro pingava e escorria pelos braços. Até que… Tcharam! Ei-lo branco outra vez!
Eu devia ficar feliz com a vitória. Mas, olhei “praquela” água cor-de-burro-quando-foge e ah! Veio-me um sentimento de “balão estourado, de filme que acaba, uma tristeza de gol contra”… As palavras de Vargas Llosa, que me acompanharam na viagem, vestiram certinho minha nostalgia da Bahia.
Aquela lama era meio mágica: escavada por escravos à procura de diamantes, esfregada no rosto em banhos medicinais, fotografada por turistas e pisoteada por guias em seu ganha-pão. Eu possuía um tiquinho dela, e agora um pedaço de Bahia escorria pelo ralo.
Aprendemos desde cedo que roupa não é importante – importa o que vestimos por dentro. Enjoou? Doe. Encardiu? Jogue fora. Perdeu? Compre outra – e outra. Filosofia hippie na embalagem – por dentro, consumista até dizer chega.
“O que fizemos com as coisas para devotar-lhes tal desprezo?”, Peter Stallybrass se pergunta, em seu ensaio O casaco de Marx, roupas, memória, dor. De onde tiramos a noção de que somos formados pela pureza das ideias, e não pelo despudor das coisas?
Antigamente, chamavam o puído das roupas de “memória”. Bonito, não? É como dizer que roupa tem poesia – e não tem? Panos se casam no corpo: a calça pega o formato do quadril, a saia gasta ao se esfregar na bolsa, a blusa amarela debaixo do braço. Em silêncio, o armário conta pedaços de uma vida. Quem mais, afinal, tem as mesmas roupas que você?
O pensamento ia longe enquanto pendurava o short no varal. Coloquei-o sobre a face – cheirava à loja e a sabão. Cheio de malícia, porém, sussurrou: “me vira do avesso”. Devagar, obedeci. Junto à etiqueta cortada, o short exibia um restinho de triunfo: encardida, a borda de dentro sorriu para mim.


Luisa

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “A poesia das roupas, por Luisa Benevides

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