“Moça, me dá um salgadinho desses” – passa ele trôpego e maltrapilho, um trapo humano que ainda vagueia. Embora seu olhar não acompanhe o movimento, ele passa e pede um salgadinho. “Não dou não” – diz ela aflita, com as mãos nervosas e suadas, passando-as pelos salgadinhos do carrinho e protegendo suas moedinhas de todo dia. “Não dou não” – foi o que ela disse com a boca crispada e sem olhar nos olhos dele. Outra consumidora, com salgadinhos nas mãos, oferece-lhe um. Já havia sujado o suficiente os dedos com farelo amarelo e com o excesso de sal dos salgadinhos baratos, que mais pareciam isopor com corante. “Pode ficar com um meu” – disse ela.
Ele sai… Pernas bambas sob a força do álcool, sob a força do mundo, das responsabilidades, desabando sob a força da solidão. Ele e o salgadinho vão embora trôpegos. Ele mantendo-se em pé por um equilíbrio quase sobrenatural e o salgadinho ficando pelo caminho a cada bambeada.
“Se ele tem dinheiro para cheirar e para beber, ele tem dinheiro para comprar um salgadinho” – diz a senhora sem muita convicção. E olhando ainda do chão para o carrinho de balas, angustiada e pesarosa por não ter podido oferecer o salgadinho, diz, já um pouco mais resoluta, com voz de quem se convence com o argumento: “fica aí gastando o dinheiro com porqueira, pode comprar comida da minha mão”.
O ponto de ônibus está cheio, há muita gente, e é preciso vender as balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos, biscoitos… Ela não diz, mas pensa, justificando sua recusa. “É preciso ganhar a vida. Olha, minha filha, tenho 63 anos e já vivi muita coisa. Eu mesma empurro meu carrinho, ando quase uma hora com ele para poder vender minhas coisas neste ponto. Se ele quisesse, faria como eu: compraria umas coisas e as venderia e teria dinheiro, né?” – ela conversa com a moça sentada no ponto de ônibus, a do salgadinho, embora no fundo ela tenha começado um diálogo com o passado. “Eu sou da época em que se valorizava o trabalho. Minha mãe e meu pai trabalharam duro. Não era como hoje em dia que esses marginais acham que podem viver assim, não”.
A moça que aguardava o ônibus rende o assunto, essas conversas que se tem ao longo da vida, mas que quase nunca se dá importância. Embora muito provavelmente seja importante para uma das partes, decerto não o é para a moça que só aguarda seu ônibus passar, doida para chegar a casa no domingo à tarde, ver a família, talvez ainda dê tempo de assistir um pouco de televisão, mas ela diz: “é, minha mãe fala mesmo que era muito diferente, né?”.
“Ô minha filha, eu ainda me lembro de quando eu tinha 15 anos. Era mamãe quem penteava meu cabelo. Tinha muito cuidado a mamãe.” Esse tópico não tem nenhuma relação com o salgadinho, mas é preciso compreender que o diálogo é com o passado, e não com o ponto de ônibus. “Na minha época, a gente usava um vestido rodadinho assim” – ela mostra na cintura o pregueado do vestido – “era de uma chita bonita, de flores, não tinha isso de usar calça não, só calça de pijama” – ela diz, e repete o gesto do vestido como se pudesse vesti-los naquele momento, o vestido e o passado. “Mamãe sempre dava um jeito de comprar uns vestidos bonitos, ou então ela mesma os fazia”.
O ponto de ônibus é um espaço rotativo. A essa hora, quem acompanha já não é mais a moça do salgadinho, mas a que estava sentada logo ao lado, com a filha de uns 8 anos, também sentada, com os pés balançando sem alcançar o chão, tentando entender o vestido de chita e o mundo do trabalho de antes. “Não havia essas coisas de colocar no cabelo, não, a gente usava laço de fita” – ela tenta explicar para a mocinha como era o outro lado da conversa, o muito tempo atrás que a espreitava ali e agora. “Você acredita, hoje em dia, a minha filha quer sair para uma festinha e quer usar salto alto, veja só, a infância não é mais como antigamente” – faz o seu papel a mãe que aguarda o ônibus. Quem sabe a situação não lhe permita o momento de educação e repreensão da filha… Boas mães não perdem a oportunidade de se fazerem entender. “Ela quer usar salto alto e maquiagem, veja só”.
Mas a senhora não quer ver, não quer entender, ela ainda está tentando ajustar o vestido e o laço de fita. Ela ainda quer percorrer todos os quilômetros rodados com aquele carrinho para vender suas balas. Ela quer fazer o trajeto de novo. Desta vez, com os cabelos penteados pela mãe e com um lindo laço de fita que os segura no lugar, já não sei mais se o cabelo e o passado. Nesse momento, a veste é do corpo e da alma, é como se calçasse a dor da solidão com os tamancos baixinhos que ela usava quando criança, e não com salto alto. Ela queria apenas que a mãe voltasse a penteá-la. Quem sabe quisesse afugentar esses perigos da venda a que está submetida, como ter de negar comida a um bêbado ou suportar a rotatividade do ponto de ônibus, onde insiste em se levantar e se ausentar, e se sentar e soltar meia dúzia de palavras sobre o clima e o passado idealizado, antes de se assentar numa poltrona e seguir viagem. Ela queria usar seu vestido de chita que era rodadinho assim, e ficar sentada, com os pés balançando sem alcançar o chão, pedir bala para a mãe e ouvir a mãe negar dinheiro.
Ela leva o mundo naquele carrinho, embora só venda as balas, os chicletes, pirulitos e salgadinhos. Ela anda quase uma hora com o mundo inteiro ali, naquela caixa de isopor, que também leva refrigerante e água mineral. Ela recarrega a bateria do mundo todos os dias ao reabastecer com a bala preferida do ponto de ônibus, provavelmente aquela que se paga com o troco da passagem. Ela reabastece o mundo inteiro todos os dias. Ela encara o mundo de frente a cada vez que diz não a um pedinte. Ela carrega 63 anos de história, de solidões, de decepções, de dores na lombar. Mas ela queria mesmo era passear com o vestidinho de chita, com o mundo todo à sua frente. Sem carrinho, sem pedintes, sem ouvintes desatentos. Ela, o passado, o vestido, o tamanco baixinho e o laço, servindo de veste para o ponto de ônibus, deixando um pedacinho de solidão com cada um dos viajantes, muito além das balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos. Muito além.


Pâmela Côrtes (São Paulo, 1989). Mestranda em Direito e escritora de qualquer coisa nas horas vagas, ou mestranda nas horas vagas e escritora de qualquer coisa em tempo integral. Seus trabalhos podem ser lidos no blog Em recortes.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Balas, chicletes e salgadinhos, por Pâmela Côrtes

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