Benedito sentia vergonha das mãos, retornadas à maciez da primeira infância porque estava aposentado. Esfregava as palmas contra o ralador da cozinha e, sob qualquer pretexto, feria o quintal com uma enxada velha. Os olhos pretos e pequeninos visualizavam uma rua de canos de esgoto à mostra; não, não essa em que vivia triste desde a volta. Naquela outra rua tão feia e tão mais suja, vivia feliz e tinha bem menos do que tem. Suspirava por toda uma cidade cada vez mais distante, onde aprendera aquele jogo esquisito e sua força era requisitada. Os calos encaixavam nos bastões lisos e ele rebatia mais forte do que qualquer um. Aqui ninguém entendia como é que se jogava, aqui ninguém entendia a necessidade e o prazer do combate, aqui as missões acabaram, pensava Benedito.
– Não faça nada. Já volto. Não mexa em nada. Não saia do lugar.
A mulher saiu para comprar os ingredientes do cozido. Benedito gostava de mastigar um pedaço de carne de sertão, lambuzado no caldinho, ao mesmo tempo em que a língua dissolvia uma batata macia. Salivava. Mal as pernas tatuadas pelas varizes saíram de seu campo de visão, Benedito levantou-se, deu dois petelecos na gaiola do bem-te-vi derrotado pela canícula; o silêncio do pássaro o irritava. Saiu da varanda em direção ao quintal, nos fundos da casa. Pegou um porrete repleto de calombos ao pé de carambola. Era o cabo sem a lâmina da enxada. Deslizou-o por entre as mãos. A ausência dos calos o impedia de segurá-lo com firmeza. A puída bermuda de algodão ameaçava escorregar pelas pernas finas. Puxou-a até a ponta da barriga oval e endurecida. Quando finalmente ajeitou-a, fez aquele movimento pendular. O porrete criou uma fenda no ar e ele recordou que o céu de Havana, em julho, era tão límpido como o de Salvador, em janeiro.
As mãos estavam menores, disso ele tinha certeza. O rim direito acusou uma pontada; olhou com desgosto para o caramboleiro. Nem tudo que se tem veio de coisa errada e nada pode ser dado. Ele aprendeu quando voltou. É preciso ensinar essas coisas. Decidiu se esconder atrás do tanquinho, no fim do quintal. Poucos minutos depois, Cotinho surgiu trotando sem camisa. Usava um short preto curto e manchado de lama. O peito afundado estava coalhado pelo pano branco. Ligeiro posicionou o corpo em perfil, o cotovelo direito servia como mira, e a brita zuniu feito bala até alvejar uma carambola. A munição estava aos pés descalços. Cotinho agachou-se rapidamente, pegou outra brita, cuspiu nela, estancou de perfil, mirou e… acertou outra carambola. A mão esquerda catou as duas carambolas. Cravou os dentes amarelados nas amarelas hélices agridoces. O sumo banhava o peito do menino. Só era gostoso comer muito rápido. Só era seguro comer muito rápido.
– Pivete! As carambolas são minhas!
Benedito surgiu por detrás do tanquinho com o porrete em riste.
– Só comi duas.
– É tudo meu, filho da desgraça!
– O senhor nem come. Nem gosta… O senhor é gente ruim!
As mãos de dedos longamente tortos deslizaram pelo porrete. Em Havana, dizia-se que ele era capaz de rebater uma bola até bem depois do Malecón tão distante. Benedito ajeitou os braços como um pêndulo. Abriu a boca de gengivas enegrecidas sugando o ar. Cotinho agachou; uma brita na única mão. Uma hora depois, a mulher encontrou Benedito esparramado de costas, sob o resguardo da sombra do caramboleiro.


Flávio VM Costa (Salvador, 1983). Poeta e escritor.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Benedito, por Flávio Vinicius Moreira Costa

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