Era um dos dias mais importantes na história da pequena cidade de Ponteiras, Pernambuco. Finalmente chegara o dia do casamento da filha do prefeito com o filho do delegado. Para uma cidade pobre, onde casais só juntavam os trapos, um casamento era um espetáculo e tanto. As moças da cidade se arrumavam no único salão de beleza da região. Os homens bebiam nas calçadas dos bares enquanto esperavam a tão comentada festa começar. A noiva fazia os últimos ajustes no vestido. O noivo, no outro canto da cidade para não ver a noiva e evitar o azar, parecia desconfortável no terno que seu pai lhe emprestara. A filha do prefeito e o filho do delegado finalmente se uniriam em sagrada celebração perante Deus e os homens.
Quando o relógio marcou dezessete horas, a igreja – que cheirava a rosas – estava lotada. Homens, mulheres e meninos se amontoavam entre as quatro paredes daquela igreja que, como tudo na cidade, era a única. O padre, de batina branca e azul, no púlpito, folheava a Bíblia, tentando não fazer feio diante de tal evento. Talvez isso o ajudasse a construir a casa paroquial que tanto queria. Os pais dos noivos conversavam entre si e recebiam os convidados que não paravam de chegar. Quem parecia não ter pressa era a noiva que, como dizem em Ponteiras, “embrulhava-se toda para ser desembrulhada na noite de núpcias.” O noivo não parecia o mais calmo dos sujeitos. Caminhava de um lado a outro, seguindo sobre uma linha imaginária que não levava a lugar algum. Quando todos já se interrogavam se a noiva teria desistido do casório, eis que um moleque, desses que só querem saber do bolo e salgadinhos, gritou na porta da igreja: “A noiva chegou”!
Do altar, onde o noivo caminhava inquieto, era possível ver o Opala vermelho do prefeito. Aquele era o carro mais bonito da região. Conclusão que não era difícil tirar, considerando o fato de haver apenas três carros na região. E aquele era o mais bonito entre os três. A noiva desceu elegantemente do carro, com seu vestido branco, buquê de rosas vermelhas e colar de pérolas que ganhara da sua avó para a data especial. Enquanto entrava na igreja lentamente, se exibindo para as outras moças, o noivo continuava sua agoniante peregrinação de uma ponta a outra do altar, em linha reta.
Quando finalmente ela se pôs à frente dele, estendendo-lhe a mão para se posicionarem diante do padre, e serem apresentados a Deus e ao povo em união sagrada, o noivo recuou um passo. “Não posso.” – Falou em voz baixa. O padre, temendo ter ouvido o que achava ter ouvido, retrucou: “O que disse?”. “Disse que não posso.” – respondeu o noivo em alta voz e continuou: “Eu não a amo, Padre”! O padre, olhando a igreja incrédula com o que acontecia, tentou chamar o rapaz pela razão: “O amor é superestimado meu jovem.” O jovem explicou: “Não posso, seu Padre. Eu amo a Dasdores”. “A puta?” – perguntou a noiva quase chorando. “Sim, ela mesma. Ela é a minha puta, isso é mais do que posso falar de você que nunca foi minha. Você é só um capricho do meu pai”. O pai do noivo, agoniado, sacou de sua pistola e foi logo dizendo: “Pois bem, agora você vai ter que seguir esse capricho. Ou casa com a filha do prefeito ou esqueço que é meu filho e lhe mando ver Deus mais cedo”. O noivo não recuou de sua decisão: “Não posso, meu pai. Prefiro morrer antes do tempo que ficar sem Dasdores. Viver sem ela é morrer em vida”.
Dasdores que até então ninguém tinha visto, saiu docemente dos últimos lugares da igreja, onde se escondia atrás das “pessoas de bem”, e se dirigiu apressadamente até o altar. “Tu quer mesmo ficar comigo?” – perguntou. “Quero sim. Tu aceita ser minha?” – perguntou o filho do delegado. “Desde que te conheci eu sou tua. Se teu pai te matar, eu morro junto. No além, ele não pode separar a gente”- respondeu Dasdores enxugando a lágrima que lhe escorria pelo rosto.
Os dois se aproximaram em pequenas passadas e se abraçaram forte, como se o mundo fosse acabar num abraço só. O delegado, vendo que perdera, apontou a pistola em direção ao casal e sentenciou: “Ou desabraça a puta ou mando os dois para o céu abraçado do jeito que estão”. O abraço não afrouxou um centímetro sequer. O pai da noiva, aproximando-se do delegado, lhe falou baixo ao pé do ouvido: “Abaixa essa arma, porra! Casamento é fácil arrumar, reeleição é só uma vez na vida.” Sob tal ordem, o delegado baixou a pistola e saiu contrariado da igreja. A noiva, chorando e esbravejando com Deus e com o mundo, saiu apoiada pelo pai. O padre, fechando a Bíblia, saiu expulsando as carolas que reclamavam do “sacrilégio”. As moças queriam ter a coragem de Dasdores. Os homens queriam ter a coragem do filho do delegado.
A igreja agora se fazia vazia. O casal de amantes, levantando a cabeça, buscou alguma viva alma que o julgasse, mas ninguém sobrara nos bancos de madeira. Os dois então se beijaram entre risos e soluços de felicidade. Benzeram-se diante da imagem de Cristo crucificado e saíram porta afora, rua afora, mundo afora. Cristo crucificado era agora a única testemunha do amor entre a puta e o filho do delegado.


Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Poeta e contista, é também professor de história, graduando-se pela Universidade Federal de Alagoas.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Dasdores, por Francisco Carvalho

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