A multidão se reunia em frente à casinha ilhada pelo grande jardim, destinado à depravação pelo pisoteio dos presentes. As palmas rosadas se esticavam em seus caules como se temerosas de seu iminente e triste fim, enquanto os filhos da velha tentavam conter, de toda forma, a massa de gente que se aglomerava gritona, resmungava, reinava pela falta de notícias. Distinguiam-se, em meio aos gritos, aqueles desesperados, que a velha lhes havia salvado a vida, diziam, milagreira que era. Porém, mais alto bradavam os descrentes, clamando pela verdade e pela morte, que a velha os enganara a todos o tempo inteiro. Para tanto, chacoalhavam o portão de ferro que, por pouco, não cedia a tais investidas zangadas. O filho mais velho da moribunda, que pendia sua força contra as grades, encolerizava-se com a afluência, desgostoso ao pensar na pobre mãe acamada, enquanto ouvia tantos desagrados. “Mas que falta de compaixão” – ele gritava acima de todas as vozes, arranhando mãos e coiceando pés que teimavam em ultrapassar os limites que impunha. Sua irmã pranteava pela situação e pela mulher que, a cada minuto, definhava em seu pequeno quarto, como se escorrendo vagarosa para a urgência da morte. Corria para todos os lados, ora auxiliando o irmão em sua penosa tarefa, ora segurando a mão da velha, de modo a impedi-la de escoar ainda mais.
A anciã era dita milagreira na cidadela, curando chagas para não restar nem cicatriz, revivendo rebentos natimortos de imediato após a paridela, curando de bebedeira a ciúme, mas, para tanto, deixando se esvaírem suas lágrimas prodigiosas. Há tempos que corriam pelas ruas as prosas de seus feitos aguados de lágrimas, e muitos do gentio tinham parte em propagar a conversa, enquanto tantos outros a procuravam para comprovar a teoria.
Deveras, a sala em que a velha atendia seus pacientes era adornada de prateleiras na gestação de pequenos frascos de conteúdo aguado. Após análises, rezas e bênçãos, um dos numerosos frascos era designado ao enfermo, fadado ao ritual de banhar suas chagas ou seu estômago com o fluido. Mas era unânime a sentença: “uma vez aberto o vidro, o odor exalado era como o da flor mais bela e perfumada do mundo, ao desabrochar-se enrolando em seus sentidos”. E muitos bradavam, nos colóquios, que aquelas eram as lágrimas mais poderosas do mundo, enquanto outros desgostosos se incomodavam e diziam, solenes como esses sempre são, que os primeiros estavam tragando nada mais do que uma qualquer água de flor. E, por muito tempo, a cidade se dividiu entre “crentes e descrentes da velha Amélia”, fomentando as inimizades que mantinham para se socorrerem da aura densa de tédio que caía sobre eles, empurrando-os contra o chão, obrigando-os a acorcundar. Quando a velha então caiu de cama naquela manhã, a notícia correu furiosa e os portões da casinha atraíram, como ímãs, seus opostos que se aglomeraram aos brados, seguidos pelos crentes que cantavam serenos. Já parecendo sob os deslumbres de seus últimos momentos, tremia na cama à mercê do berreiro que se instalara logo além da janela do quarto, e se aborrecia com o azar de não ser deixada para morrer em paz. Diante de suas senhorinhas companheiras, reclamava que nenhuma alma deveria partir diante de tanto tumulto, nem ouvindo os choramingos de medo de seus filhos. Amélia mantinha sua voz forte e calma e seus olhos cristalinos, a despeito do corpo que parecia murchar sobre o colchão. Por fim, encontrou forças para se levantar uma última vez, zelar suas pupilas sobre as pessoas que se aglomeravam na rua, separadas de seu grande jardim pelo portão rangedor. Deixou-se olhar para cada um dos rostos, e muitos se calaram diante de sua face que parecia tão feroz naquele momento. Na iminência de sua última bênção ou da confissão de sua fraude, não disse palavra nenhuma, e só voltou para se deitar quando o silêncio, obrigado pela sua figura, já era quase completo. Ao mirar os seus, dentro do quarto, deu a sentença: “a morte às vezes é mesmo uma cretina” – e voltou para se espalhar tranquila sobre sua mortalha.
Os ânimos se exaltaram na pequena casinha quando entendido que aquele piscar tão demorado dos olhos de Amélia era senão o derradeiro. Iolanda, sua filha, chegou das correrias a tempo de presenciar sua última olhadela ao esmo, antes de se esvair para sempre. Tentou impedi-la de findar, correndo para abrir novamente seus olhos curandeiros, e viu que, apesar de sua alma já ter se esticado para a eternidade, seus olhos permaneciam vivos, brilhantes e videntes. No reflexo da íris apagada da idade, viu passar sua vida e algumas imagens a despeito de sua sabedoria sobre o tempo. Estava como pasma observando os olhos da mãe morta, vendo seu futuro que claramente se desfiava através de sua existência determinada, o que, somado com a recente perda, a fazia prantear baixinho. Diante da notícia, a multidão em frente à casa se acalmava: faziam silêncio os adoradores da velha e amenizavam suas cóleras os descrentes. Iolanda só então foi afastada do corpo que jazia em seus muitos anos e dores, para ser consolada noutro cômodo por Camilo, seu irmão, que enfim tinha a chance de largar os portões. “A morte é uma cretina, ela anunciou” – comentando o momento que apenas passara, dando vazão ao olhar quente que todos receberam da velha que, nem um pouco como uma despedida, parecia mais o olhar de alguém que se contenta com a enfim chegada.
Iolanda permanecia em seu assento ainda visualizando na mente as imagens passadas dos olhos da mãe para os seus. Para explicar sua perplexidade tão insistente declarou a descoberta: “Vi minha vida nos olhos dela, vi o futuro”. As senhorinhas ali presentes, que já preparavam o corpo da defunta para o velório, se sobressaltaram. Não queriam abrir as pálpebras da defunta, que diziam dar má sorte para quem o fizesse, mas, no antro do afinco de Iolanda e da própria curiosidade, olvidaram suas superstições. Uma a uma fizeram o movimento que lhes mostrou aquilo que entendiam ser o futuro iminente, correndo depois para a janela anunciar o primeiro e tão recente milagre póstumo de Amélia. “Tem nos olhos os destinos” – gritavam – “Tem nos olhos as determinações de Deus”. O povo, que já desintegrava seu êmbolo, empacou nos passos, muitos já distantes, para ouvir as senhorinhas que proclamavam o acontecido. Aos poucos, o tumulto voltou a empurrar os portões da casa, ameaçando sua integridade, para amenizar os brios curiosos. As palmas rosadas do jardim foram colhidas para adornarem o corpo murcho e sem vida que ainda pesava sobre a cama, destinado a ter seus olhos abertos até onde suas pálpebras suportassem.
Através da noite que já descera, os visitantes duravam suas presenças, esperando dar uma última olhadela na mulher, e acendiam candelabros para acalentar sua alma e confortar seus próprios olhos da escuridão da rua. Eram deixados para entrarem sozinhos, porém sob a vigília das senhorinhas, para ver o que as íris da velha lhes mostrariam. Muitos saíam perplexos e não diziam palavra sobre os seus futuros agora conhecidos, prometendo nunca mais chegar nem mesmo perto do casebre da velha. Outros saíam aliviados, mas nem por isso diziam o motivo para tal. A notícia da morte da curandeira e de suas vidências póstumas fez aumentar a afluência que se acumulava na porta, de modo que se passaram três dias até o povo enfim dispersar. E ainda assim, a cada hora, chegavam mais examinadores de olhos para ver seus destinos refletidos abaixo daquelas pupilas. O corpo de Amélia, porém, como temiam seus filhos, começava a se decompor enquanto ainda duravam as visitas dos curiosos, e as flores que lhe adornavam definharam, e mesmo as do jardim se fizeram acabar. Porém, o odor das enfloras continuava a se alastrar pela residência, até que encontrada sua fonte: o próprio corpo da velha. Apodrecia cheirando a flores, como as ditas lágrimas que observavam das prateleiras. E como as conversas que sempre correm, a de agora dizia que Amélia tinha mel no lugar de sangue, e por isso não fora surpresa quando certo dia a casa amanheceu infestada de abelhas e borboletas discutindo por um espaço sobre o corpo sem vida.
Por fim, e para desespero de muitos crentes, Iolanda e Camilo deram a sentença de que o corpo deveria ser sepultado. Na mesma tarde, um enorme cortejo acompanhou o cadáver salpicado de insetos, calmamente carregado até o cemitério posto sobre uma beirada da cidadezinha. Para Amélia, fora destinado o pico do morro que abrigava a mortalha coletiva, para que, de longe, pousasse seus olhos sobre seus crentes. Mas os olhos da velha, na verdade, foram deixados em casa para serem conservados nos frascos de suas lágrimas, o que estranhamente aconteceu através dos anos que desde então se passaram. Ainda recebem muitas visitas de quem por acaso se vê no caminho da cidade de Amélia e ouve a história incomum. Para tanto, os interessados hão de seguir o odor de flores que se faz forte do nada para, subitamente, ir em frente até ver uma colina cheia de palmas rosadas que apontam para todos os lados. Abaixo dela, tem uma casinha bonita protegida por portões de ferro, que abriga um par de olhos azuis apagados, mostrando futuros enquanto nadam em suas próprias lágrimas para sempre.


Letícia Copatti Dogenski (Sananduva, 1994). Autora da novelaOnde as Nuvens Fazem Sombra (Autografia, 2015).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

2 replies on “Longe dos olhares de Amélia, por Letícia Copatti Dogenski

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