Era nos finais de tarde que minha mãe se sentava para costurar. Lá de fora, enquanto eu brincava faceira, ouvia o barulho da máquina “Leonam” que hoje descansa sobre o gabinete de madeira marfim. Atraída pelo som, logo me despertava a curiosidade de querer saber se ganharia um vestido novo.
Deparava-me com minha mãe costurando no quarto da bagunça, onde guardávamos os brinquedos e passávamos o maior tempo curtindo nossa memorável infância. Lá estava ela, cortando e costurando barras de lençóis, toalhas, roupas do dia a dia; fazendo remendos, bainhas, trocas de elásticos. Porém, as roupas de festa eram modeladas por uma profissional contratada de papai que passava vários dias entre nós, anotando as medidas, provando os modelos que saíam da mesma peça de tecido, que chamávamos de fazenda, com pequenos detalhes que diferenciavam um traje do outro: golinha redonda, grega na barra da saia, mangas princesa, lapelas com botões.
Perguntei à minha mãe, quem a havia ensinado a costurar. Disse-me ela que fora a nona. E que se sentira insegura ao lidar com a primeira camisa e o primeiro bolso. Sabiamente a nona a confortava, dizendo que não se importasse com as falhas, pois na próxima tentativa faria melhor.
As mesmas mãos que alinhavavam ajudaram-nos a ajustar nosso caráter e nossos ideais. No traço dos moldes, ela delineava o composto da família, sua união, encontros e desencontros e a visão de um futuro atraente. Nos remendos, os laços afetivos eram fortalecidos e as mágoas compensadas. Nas casinhas de botões, a medida exata das correções aplicadas às nossas travessuras e o limite a nós impostos. Na reposição dos elásticos, a lição de flexibilidade diante dos contratempos era visível. Soube nos mostrar que o alinhavo da fé, da sabedoria, do discernimento são pontos e pespontos perfeitos para nos adaptarmos às circunstâncias. Nos bordados, as cores expressavam a alegria da alma, as qualidades e as atitudes benfazejas que teciam o belo da peça terminada.
Assim, pela composição da costura, sigo sabendo que seus ensinamentos estão estampados nos mais belos retalhos, perfeitamente alinhavados no tecido que me veste a índole. Sei que a honestidade, a justiça, o respeito, são bainhas fundamentais para qualquer ser humano. E essa costura trago perfeita em meu coração.
Na vitrine das minhas lembranças, ainda desfila a fineza da educação que nasceu da modista que me vestiu com o bom gosto da polidez. E as marcas de suas faces e mãos não poupadas pelo sofrimento me cobram gratidão pelo que sou.
Quando a tampa da máquina se fechava e o som da costura não mais se ouvia, as mãos postas de minha mãe rogavam bênçãos para os filhos e esposo que, com ela, se uniam em oração. E adormecíamos em paz.


Ana Welter (Paraná, 1960). Integrante do Clube da Poesia e fundadora da cadeira número 13 da Academia de Letras de Toledo (PR).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Minha mãe modista, por Ana Welter

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