Há outros universos além deste

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O gordo, com sua redonda face corada, acordou para a manhã cinza. Chovia fraco. Defecou logo sua tonelada de detritos. Vestiu suas botas encouraçadas, esgarçadas pelo peso e seguiu pela rua de pedras.
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Jamais dormia, muito embora somente tivesse conhecido o escuro. O calor era insuportável e o cheiro era morno e podre. Sentia solavancos. Gemidos? Algo estranho ao escuro. Luz? Escorregava para o nada (?) e nadava. A água espirrava e molhava o esfíncter maiêutico, conforme parecia subir, subir, subir e desvanecer-se no infinito além da porcelana. As conjecturas desapareciam em um redemoinho que anunciava a próxima escuridão.
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Não escolhia se ia ou vinha. O mundo é que girava, muito embora o Sol parecesse correr. Com ele, as nuvens e um pouco de chuva. Cinza. Observava os seres irracionais que se escondiam de suas rajadas ferozes. Tanto mais corriam, tanto mais bradava. Cinza virava azul. A Lua vinha. Aquietava-se até se agitar novamente. Era algum tipo de deus antigo que, com o Tempo, destruía tudo ao seu alcance, bastava insistir.
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Lembrava-se de uma floresta. Era um animal. Lembrava-se das pastagens e do gosto da grama fresca. De repente uma dor repentina e a escuridão. Dormia? Não acreditara nos dogmas da religião da cura, mas ainda sentiu, cegamente, a navalha lhe cortar a pele dos músculos. Não resistiu, afinal, o próximo passo seria tornar sua consciência em vestimenta e possuir um humano para si. Esgarçada hemorragia de arrebatamento.
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No início, era o nada. Sim, o nada existe, contra o que há, que é tudo. Então a explosão. Bósons especializando-se em matéria. Expansão e calor. Então frio e constância. Longa constância. Nova explosão. Seres miúdos retiravam suas partes descoladas e as trincavam ainda mais. Assentaram-lhe na lama. Lentamente diluía-se nas tempestades. Lentamente, desgastava-se nos pisões. Lentamente escorria para os esgotos, rios, mares e então empanava com o fruto da criação as nádegas de um gordo, com sua redonda face corada.
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José Henrique Zamai (Divinolândia, São Paulo, Brasil, 1991). Advogado e escritor.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por José Henrique Zamai

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