O sacrifício das flores

Foi lá no jardim querido, de orquídeas, rosas, jasmins e outras tantas
Contemplando quão belas flores
Onde imperavam a paz, a quietude; e o dia parecia eterno
Distante do corre-corre da vida
E dessa mesma forma, a quilômetros, afastado da ganância, do ódio, do sofrer, do amor desprovido
Costumava recostar-me no banco e simplesmente olhar
Acompanhar a simples e complicada arte do Criador
Foi nessa observação que concluí o óbvio
Que também as flores lindas, perfumadas, sejam elas, de beleza comum ou incomum, exóticas
Quase que todas, sacrificam-se antes do tempo
Percebi num menino arrebanhando verbenas para uma mãe aflita
Sua esperança? Libertá-la da dor de uma tristeza incontida
Uma senhorinha pesarosa, preferindo aos jasmins que as brancas rosas, e, dessa forma, embelezar um corpo frio sem a beleza da vida, jazendo exposto num ataúde
Pouco tempo lhe falta para a multidão conduzi-lo ao seu destino derradeiro.
Um jovem esperançoso, de coração partido
Ansioso em reatar o laço que o unia àquela que fora sua amada, preferia às margaridas as vermelhas rosas
Essas expressariam um “eu te amo” colorido, naturalmente perfumado, na esperança de reparar seu coração condoído, gravemente amargurado
São nesses momentos, como em tantos outros que compõem a história humana, que as flores se sacrificam
Sacrificam-se para apaziguar o aflito vitimado por uma tristeza incontida
Sacrificam-se para, em vã tentativa, “embelezar” o cenário funesto de um corpo sem vida
Sacrificam-se, verbalizando, exprimindo amor, do que vai a busca daquela de antes, alma gêmea de muitas juras trocadas
As flores também se sacrificam para o bem de todos nós mortais
O Criador ilustrando nas pétalas multicoloridas de um ramalhete exalando perfume
A pretensão sublime há muito promulgada
De, como, no sacrifício das flores, a natureza vai bem representar a expressão maior do amor de Deus, como exemplo, em reparar as chagas de todas as almas perdidas, desamparadas.


Marcos Evangelista (Camaragibe, Pernambuco, Brasil). Poeta.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Marcos Evangelista

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s