Poema opaco

Percebo no tempo (que vem antes do aplauso)
que o mito se evapora.
Planície, tato no teto,
ausência de chão?
Pode ser que sim, mas
também pode ser que, talvez, não.
Fugazes saltos nos altos. Ferozes autos de solidão.
Multa para quem estacionar no colo do outro.
Prisão para quem demorar no abraço.
Pena de morte para quem disser que ama.
Altitude, vazio,
expressão do ator,
diria o poeta: – “suspenso”!
O palco repleto de ecos.
Opaco, ó palco, tão pleno de mim!
Máscara, mas cara a cara com o espelho.
Ato insensato de ficar na ponta dos pés.
Não é pássaro, mas voa.
Não é anjo, mas flutua.
Não é Deus, mas nos faz envergar diante do que se desconhece.
É feito de gente, a outra metade era mito.
Mas isso, já havia dito no prólogo.
O movimento tem música, mas o corpo onde está?


Paulo Emílio Azevêdo (Rio de Janeiro, 1975). Professor, Doutor pela PUC-Rio em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014). Seu mais recente livro, O amor não nasce em muros (2016), tem prefácio assinado pelo editor chefe da Philos.

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