Há quem frite pedaços de fígado. Há quem frite coraçõezinhos. Há quem frite a pele. Adélia frita um ovo na tarde de verão. Meio-dia já se foi no relógio e muita coisa ficará em sua memória nos próximos dias. Neste fim de ano, ela torce para que o próximo ano seja melhor. É o que afirma todo mês de dezembro desde que entrara na fase adulta. Tem sensações de estar fazendo as coisas de forma errada o tempo todo. O telefone nunca toca com notícias de fogos de artifício. Seus dias andam com sabor de soro fisiológico de geladeira. Não admite que seu sabor seja o mesmo das lágrimas. Mas também não lembra o mar. Os oceanos foram feitos de lágrimas de Deus.
Em janeiro, usará as mesmas roupas e comerá mamão de fim de feira toda vez que der as três da tarde. Isso se ficar em casa e não arrumar um emprego. Para o próximo ano, ela promete aceitar oportunidades que antes não imaginara, por respeito aos diplomas conquistados até então. Bobagem. A grana é necessária e necessidades são sempre urgentes. Adélia parou de se olhar no espelho para buscar o reflexo de fracassada. Fracasso é quando não se sabe lavar bem um copo de vidro até o fundo. Sabe lavar louças muito bem desde o fim da infância. Isso não se consta em diplomas. E é um grande mérito. O queijo derretido das lasanhas sempre gruda na borda do prato. É preciso passar a unha do polegar para ajeitar o serviço. Todos já fizeram isso um dia. Talvez no próximo ano lave pratos no restaurante chinês da esquina. Adélia quer novos ares.
Desistiu de estudar no próximo ano. Todo curso é caro, mesmo aquele que ensina a decorar bolos ou fazer arranjos de flores artificiais. Certificados ou diplomas não valem nada no fim das contas. Pendurar em paredes é ultrapassado e guardar em gavetas ocupa espaços. Adélia tem poucos móveis, portanto, poucas gavetas em casa. Pensa em continuar assim no próximo ano. Menos coisa para limpar. Não gosta de vassoura, nem de pano de chão. Nem de formigas ou bolo de laranja, porque o último bolo de laranja que comprou se encheu de formigas com suas patas sujas de fezes e corpos de baratas.
Adélia termina de comer a gema mole do ovo com os grãos de arroz que restam no prato. A poucos dias do fim do ano, pensa nas mesmas promessas que faz todos os anos, como se a mudança da folha do calendário trouxesse automaticamente algum brilho novo à carcaça dos dias vindouros. Há quem frite batatas. Adélia frita miolos. Diariamente, Constantemente. Incessantemente. Até não ter mais jornais para forrar ao redor do fogão. É preciso se precaver. A gordura pode fazer qualquer um escorregar e fraturar o fêmur bem antes de ter as artérias entupidas, anunciando cirurgias terríveis. Largou o cigarro não como promessa de fim de ano. Nem pelos pigarros intermináveis que descolavam quando dava suas poucas risadas. Foi pelo preço do maço. A padaria da esquina, que fica do lado do restaurante chinês, suspendeu a venda do cigarro a varejo. Um impropério. Adélia calou o vício. Por grana. Por falta dela. De repente, pensou: e se eu voltar a fumar quando tiver emprego no ano que vem? Mas no restaurante chinês não se vendem cigarros. Mas na padaria sim. Um maço inteirinho com aquele papel azul que brilha ao sol. Com aquelas fotos de gente podre do lado de trás do maço. Com aquele cheiro doce que sai de dentro quando se rasga a abertura do pacote. Delícia que é fumar um deles depois de um café bem quente. Os cafés de Adélia andam fracos. Economia no pó. Meio quilo de café está pela hora da morte. Pensou nos mortos que já não tomam mais café. Esqueceu-se dos cigarros. A tarde era livre. E não precisaria passar a unha na borda do prato para tirar o queijo das lasanhas que gruda. Usava detergente de quinta com cheiro de maçã.
A tarde é livre. A tarde é livre. A vida de Adélia não. Precisa arrumar um emprego no próximo ano. Talvez lavando louças no restaurante chinês e levando à noite para casa alguns potes de comidas que sobraram. Brotos sem gosto e frangos com mel. Sopinhas aguadas com legumes boiando. Era bom demais não ter que mexer no fogão à noite. Não ter que lutar com o resto de gás do isqueiro até acender a porcaria da chama. O pano de prato sempre se encharcava antes de terminar a janta. Comida sempre curta e uma cozinha inteira para limpar.
É sábado e Adélia não sairá à noite. Não tem grana para uma cerveja que seja, nem mesmo daquelas aguadas. Seus poucos amigos já não sabem quase nada dela. Não imaginam que lavará pratos no ano que vem e que desistiu de estudar porque diplomas ou certificados não compram um maço de cigarro com papel azul brilhante. Não é má vontade de Adélia. É a vida mesmo. À noite ela sonhará com dragões e ano novo que acontece depois do nosso. Será o ano do cavalo. Ano de galopar forte. De deixar de ser mula. De lavar pratos e ganhar no fim do mês uma grana decente que pague as contas. Talvez consiga arrumar outro emprego paralelamente ao de limpar os pratos com mel grudado nas bordas. Mas não será queijo de lasanha. Talvez se case com um chinês e vá morar em Pequim. Ah, os planos de Adélia…
Que seu ano novo seja azul brilhante, como o dos maços de cigarros.


Munique Duarte (Santos Dumont, Minas Gerais, 1979). Jornalista e escritora, autora dos livros “O salto do guepardo” e “Espelho oxidado”.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “O ano novo de Adélia, por Munique Duarte

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