Todos que passavam pelo jardim da casa de número 112 da tranquila Alameda São Rafael se encantavam com a beleza do lugar. O baixo muro de pedra mostrava uma vista com odor sonoro e colorido, que preenchia de paz a mais singela alma humana.
Havia, no lugar, duas grandes craibeiras povoadas por pardais, rouxinóis e bem-te-vis; além de rosas, margaridas, girassóis, e tantas outras flores entapetadas no chão, que nos deixavam embriagados em meio à música e ao colorido daquela natureza. Que natureza! As cores, o cheiro, o som e a brisa do lugar geravam uma verdadeira fusão de sentidos e sentimentos, que nos faziam viajar para um recanto de sonhos, do mais puro equilíbrio e perfeição do universo, um lugar onde o que imperava era a vontade de sentir-se vivo, de aprisionar-se ali, tornando-se parte de um mundo maravilhoso.
Em meio a esse cenário paradisíaco, moroso e calmo como a brisa que o cercava, um louva-deus, com seu belo verde, lentamente saciava sua fome com um pedaço de grama verdinha e brilhante, uma constante naquele lugar. Seus gestos desengonçados, sua cor e suas longas patas não se deixavam perceber em meio a tanta beleza do espaço que ocupava.
Ao passo que se alimentava, ele devaneava sobre a vida solitária que levava; os pouquíssimos amigos que tinha, quase nenhum, e que aos poucos eram devorados por seus predadores (é a ordem natural da vida!); o tempo em que voava aos bandos ceifando lavouras e se divertindo eram momentos que as lembranças não consentiam autorização ao esquecimento.
Repentinamente, ouviu um pequeno barulho e olhou para o lado; viu uma ala enfileirada de formigas desfilando com pequenos pedaços de sementes e folhas, entrando direto no minúsculo orifício, chamado formigueiro, e daí pensou consigo: – Tanto trabalho e ordem, e, no fim, a vida se vai num flash sem o prazer de ser vivida!
Sua jornada no jardim se esvaía a passos de minhoca – se é que minhoca dá passos. Quando percebeu um click… outro click… e mais outro click. Era o romper de um pequeno casulo, pendurado como trapezista no tronco de uma bela margarida. Aos poucos, o casulo ia se rompendo, e ele, estático e curioso por descobrir o que estava por vir, parava de se alimentar. Seus olhos, congelados, eram presenteados com o surgimento de uma bela borboleta.
As cores de suas asas o deixavam imóvel, hipnotizado com as formas, círculos e curvas que preenchiam o pequeno manto negro usado para que a mesma alçasse voo. Suas longas asas e antenas tentavam, aos poucos, coordenar seus primeiros movimentos. Ora pendia para a direita, ora pendia para a esquerda, e aquele vai e vem aprisionava toda atenção do nosso louva-deus.
Após relutar por alguns minutos consigo mesma em meio à falta de equilíbrio, ela finalmente consegue dominar seu voo, fazendo círculos em torno de si mesma e das coloridas flores do jardim. Tanto a beleza de sua forma como a de seus movimentos não a faziam cultivar a vaidade – sentimento que envenena a mais nobre alma presente entre os habitantes do nosso belo planeta azul.
Ela velejava ao vento, sorrindo para todos os bichinhos que ali estavam, menos para o louva-deus, que se camuflava em meio à grama. Sua vergonha e timidez o impedia de se aproximar daquele ser apaixonante e belo. Sua vergonha era pela sua aparência, uma vez que achava que Deus teria sido injusto ao dar-lhe pernas gigantes, desproporcionais ao seu franzino corpo, e por tê-lo pintado de forma monocromática.
Mesmo assim, seus verdes olhos insistiam em perseguir o bailar da borboleta: ele a viu lançar-se entre as bromélias, rodopiar entre as rosas e seus verdes espinhos, girar em torno de um imenso girassol, até pousar suavemente de volta ao tronco da bela margarida, onde os escombros de seu casulo ainda estavam presos.
Logo, seus olhos fitaram o olhar de nosso verde amigo. Ela, parada, olhava para ele, enquanto ele tentava disfarçar, escondendo sua face atrás de suas finas patas. A borboleta resolve então lançar-lhe um sorriso, e aquela bela imagem faz reluzir em sua imaginação a graça do dia mais ensolarado; sua mente e coração sentem o prazer semelhante ao de ver o mais doce orvalho que desce de uma pétala e beija a grama após uma fina chuva de primavera. Toda essa fluidez de sentimentos, aos poucos, vai transformando vergonha em orgulho, e timidez em coragem.
Lentamente, ele começa a tirar as patas da frente dos seus olhos, e um sorriso ainda tímido começa a se desenhar em seu rosto. Então, ele enche seus pulmões de ar, ergue a cabeça, e, inesperadamente, sente o bico de um rouxinol faminto atravessar-lhe o peito, quase o partindo ao meio. Ele ainda vê uma lágrima descer dos olhos da platônica borboleta, enquanto rapidamente é levado para o ninho no alto da craibeira, servindo de alimento para dois filhotes da ave predadora.
É a ordem natural da vida…


Ivanilson Santana (Maceió, 1971). Contista, finalista do Festival da Palavra, 2012.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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