Logo de manhã, o sol escaldante já ardia sobre o pasto, maltratando as últimas mudas de milho e feijão ressecadas, totalmente sem vidas. A seca impetuosa, avassaladora e vingativa, castigava mais uma vez toda a região dos rincões do nordeste. Isso tudo, mesmo diante dos apelos dos bravos sertanejos, que gastavam seus últimos trocados em velas e suas últimas esperanças em preces e promessas para todos os santos.
Meu pai, assim que acordou, me chamou para acompanhá-lo em visita à roça. Enquanto isso, minha mãe tentava tirar um pouco de leite de seu peito para amamentar meu irmão mais novo. Tudo em vão, pois seus seios há muito tempo ficaram secos e flácidos. Minha irmã de 11 anos, ainda dormia, tentando enganar a fome o maior tempo possível.
Seguimos, eu, meu pai e o nosso cachorro, Vulcão, debaixo do fogo do sol que queimava nossas cabeças. Coloquei esse nome no cachorro, devido à sua cor meio avermelhada, depois que vi uma foto das lavas de um vulcão em erupção, numa revista da escola em que frequentei somente até a 4ª série primária. Ao apear do jumento, meu pai passou a olhar as plantações totalmente perdidas. O solo seco e rachado, de tão quente, queimava os meus pés descalços, pois eu caminhava atrás, junto com Vulcão, seguindo os passos lentos do jumento. No céu claro e límpido, sem nenhuma nuvem, destacavam-se apenas resquícios de fumaças negras, engendradas pelas queimadas que se espalhavam por todos os cantos, com suas labaredas destruindo tudo, como uma serpente voraz. Meu pai balançou a cabeça negativamente, coçando uma das sobrancelhas. Imediatamente, ao olhar para ele, percebi uma fisionomia de tristeza que se desenhava em seu rosto queimado e sulcado pelas rugas. Então adivinhei que as coisas não estavam nada boas. Tudo estava de mal a pior, numa situação desesperadora. Vulcão roçava nos pés de meu pai, sentindo também o seu desânimo, enquanto gania baixinho. No meio do caminho, deparávamos com urubus e carcarás que faziam festa nas carcaças dos animais mortos.
Uma semana antes, a tristeza já rondava nossa casa, pois minha avó, mãe de meu pai, morrera. Não tivemos nem tempo para chamar o médico. Aliás, acredito que nunca houve médico por esses cantos, pois eu jamais vi ou conheci algum. O máximo que se vê são alguns curandeiros e suas ervas milagrosas. Pelo pouco que eu entendo, acho que a minha querida avó, que gostava muito de mim, morreu de desnutrição ou fome, apesar de todos os dias ela ser atacada por uma tosse crônica, que muitas vezes acabava em cusparadas de sangue.
Ao retornar dos pastos e das plantações, passamos pelo curral para olhar os últimos animais que ainda nos restavam. A tristeza tornou-se maior, pois as duas vacas e um bezerro morreram de fome e de sede, um ao lado do outro. Aliás, uma das vacas foi um presente para Maria, a minha irmã mais nova, no dia de seu nascimento, oferecida pelo seu padrinho, que tinha algumas terras na vizinhança. Esse padrinho, que agora mora na capital, nunca mais voltou lá em casa, pois meu pai o tocara depois de o haver pegado com minhas duas irmãs mais velhas sentadas em seu colo, uma em cada perna. Enquanto beijava o pescoço delas, ele lhes mostrava algumas moedas. Meu pai só não matou o homem, seu compadre, porque minha avó, que agora está morta, não deixara. Ele perdoou as filhas, achando que elas estavam só brincando, na flor de suas inocências.
No entanto, tempos depois, estando uma com quinze e outra com dezesseis anos, minhas irmãs passaram a fugir de casa à noite, e voltar com o dia clareando, ou, às vezes, passar dois ou três dias fora. Meu pai explicava para mim e para Maria que elas faziam isso porque estavam trabalhando. Eu não compreendia direito a conversa, mas, no âmago, sentia que algo estava errado.
Na cidade, minhas irmãs começaram a andar com os homens e mulheres da pior espécie. Depois de aguentar por muito tempo as andanças delas, ouvindo chacotas por todos os lugares em que passava, meu pai, numa raiva súbita, expulsou-as de casa. Elas fizeram muita falta, pois, de qualquer maneira, sempre traziam algum dinheiro ou alguma comida para nós. Agora tudo se acabou. Elas foram para a capital, onde viraram putas num bordel da periferia.
Enquanto fazíamos um buraco para enterrar pelo menos o bezerro, os urubus já voavam em círculos, de olho nas carniças. Ao chegar a casa, meu pai se entristeceu ainda mais. Maria, que gostava muito da vaca e a batizara de Margarida, chegou correndo para o seu lado, perguntando por ela. Ao saber de sua morte, agarrou-se à boneca sem cabeça com que estava brincando, passando a falar com ela com os olhos cheios de lágrimas, encostada no canto da parede de adobe.
Meu pai saiu de perto de sua filha. O seu maior medo era de que Maria acabasse como minhas outras irmãs, também virasse puta. Volta e meia eu ouvia meu pai conversando com minha mãe sobre as filhas rebeldes. Minha mãe sempre repetia que só podia ter sido castigo de Deus por ter parido duas filhas assim, já que na nossa família as pessoas sempre foram corretas, honestas e trabalhadoras, apesar da pobreza. Ao mesmo tempo, minha mãe comentava que não conseguia entender e nem enxergar nenhum mal que fizera a alguém para receber um castigo desse tamanho. Sempre depois das conversas, já com meu pai bem longe do quarto, minha mãe começava a chorar baixinho, com o coração dilacerado, pedindo a Deus para abençoar as minhas duas irmãs putas. Ali eu começava a entender que todas as mães têm o coração bom.
Enquanto Maria ainda chorava no canto, abraçada à sua boneca decepada, notei o quanto ela crescera rápido. Mulher tem dessas coisas, elas crescem e se desenvolvem primeiro que os homens, tornando-se mais adultas, mais responsáveis. Enquanto seu coração palpitava, nos movimentos que ela fazia durante o choro, observei seus pequenos seios brotando debaixo do vestido gasto, de tecido barato, como dois limões verdes.
Meu irmão mais novo, também morrera de desnutrição, sendo enterrado no próprio quintal de casa, sem ao menos ter sido batizado, já que o padre nunca aparecia por esses rincões, até porque ninguém tinha condições de oferecer a ele algum óbolo. Morrera enquanto tentava, em vão, sugar algum resto de leite dos peitos secos de minha mãe. Triste, numa letargia inexplicável, minha mãe só percebera a morte dele pouco mais de meia hora depois. Sua boca ficara presa no bico de seu seio esquerdo, com ela achando que ele dormia. Certo dia, com a seca castigando cada vez mais o sertão da caatinga, queimando e ceifando vidas, como se tudo estivesse em chamas, meu pai chegou para minha mãe anunciando que iria para Brasília em busca de um emprego melhor. Depois, ele voltaria para buscar minha mãe, eu e Maria.
No dia da partida, minha mãe olhou triste, porém sem nenhuma lágrima nos olhos, para a figura esquálida de meu pai montado no jumento. Somente com a roupa do corpo, sua silhueta desaparecera no horizonte, entre as nuvens de poeira deixadas para trás. Maria chorou novamente com a partida do meu pai. Eu me escondi no curral vazio para não me despedir dele. Sentindo raiva por ele nos abandonar, chorei baixinho sentado no capim seco. O Vulcão seguiu meu pai, mesmo correndo o perigo de virar alimento de algum faminto pelo meio do caminho.
Meu pai jamais voltou e nem ao menos deu notícias. Depois da morte de meu irmão mais novo e da partida de meu pai, minha mãe nunca mais rezou. Estava sempre com um olhar triste e vazio, à procura de algo que nem ela mesma sabia. Passados mais de seis meses, sem dizer uma palavra, ela morreu de tristeza, deitada no catre duro. Sua morte acelerou-se a partir do dia em que ela vira minha irmã Maria, a mais nova, com o corpo já formado, as pernas torneadas e os seios intumescidos, entrar num caminhão de saltimbancos que passava pela estrada, depois de um espetáculo na cidade próxima. Ela fugia, literalmente, da tristeza e da miséria, mesmo sem saber para onde. Eu não pude fazer nada, pois fora assim a sua vontade. O líder do grupo, um homem de quase cinquenta anos, havia prometido à minha mãe que cuidaria bem de minha irmã mais nova. Porém, o medo de minha mãe era de que Maria também virasse puta.
Fiquei sozinho em casa. Peguei meu velho facão, saindo sem rumo pelo mundo afora. Eu me envolvi com bandos de arruaceiros, que saqueavam retirantes pelas estradas e assaltavam fazendas pelo interior, escondendo-se na caatinga inóspita. Fui preso algumas vezes nas cidades em que passava, devido às noites de bebedeiras, brigas e quebradeiras em bares e bordeis. Depois de várias prisões, cansado de tudo, resolvi viajar para a capital em busca de uma vida melhor.
Já no cais, observando algumas mulheres que esperavam avidamente por algumas horas de amor com marinheiros e estivadores, lembrei-me de minhas irmãs.
O navio, ancorado no porto, balançava suavemente. As nuvens estavam carregadas, prometendo uma forte tempestade. As gaivotas, num barulho ensurdecedor, grasnavam em busca de restos de vísceras de peixes, jogadas pelos pescadores. Ao ver a figura imponente de Jesus Cristo com os braços abertos para a cidade, algumas lágrimas de emoção banharam meu rosto queimado pelo sol.


Vicente de Melo (Minas Gerais, 1960). Romancista e Contista, foi vencedor do “Prêmio SESC de Contos Machados de Assis”, do SESC-DF, edição 2005. Publicou o romance “A Saga de Um Candango”, em 2013 e as coletâneas “Contos Federais”, em 2007 e Vidas Vazias em 2014.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

One thought on “Vidas perdidas em chamas, por Vicente de Melo

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