Poderia, neste texto, citar diversas autoras, nacionais e estrangeiras, que publicaram obras sensacionais, que ganharam prêmios ou que ainda não tiveram o devido reconhecimento da genialidade da escrita. A lista seria extensa. Mas o que cabe discutir no momento é “as mulheres sempre tiveram oportunidade/liberdade para escrever”? Infelizmente, a resposta é não.
No tempo em que William Shakespeare escrevia, na Inglaterra dos anos 1600, a mulher que arriscasse fazer o mesmo era considerada louca, uma bruxa que provavelmente acabaria morta na fogueira. Se Shakespeare tivesse uma irmã com o mesmo talento que o dele, ela não atingiria, em hipótese alguma, o reconhecimento que ele obteve.
Um século depois disso, algumas mulheres nobres passaram a escrever poemas, mas logo caindo no esquecimento. Resumindo, somente no século XIX é que vemos mulheres realmente engajadas na escrita. Muitas se aventuraram nos romances, um gênero “mais fácil” de criação. Naquela época, as casas possuíam somente uma sala de estar, que agrupava toda a família no final do dia. A mulher escritora podia ficar em algum canto da sala, fingindo que escrevia cartas aos familiares, mas, na verdade, elaborava suas próprias histórias. No caso de interrupções, que deveriam ser muitas, a retomada do que já estava escrito era mais fácil, o que não aconteceria no caso de um poema. Assim, Charlotte Brontë escreveu “Jane Eyre” e sua irmã, Emily Brontë, “O morro dos ventos uivantes”.
No século XX, as mulheres não eram mais as mesmas, afirmando-se cada vez mais no cenário literário. No Brasil, até bem pouco antes disso, as mulheres deveriam ser educadas, mas não instruídas. Escritoras tiveram que lutar muito para ganhar o seu espaço. Lembro-me de Lygia Fagundes Telles que, após lançar um de seus primeiros livros, ouviu de um crítico literário que ela escrevia “como um homem”. Um “elogio” sem significado algum para ela.
Hoje, a realidade não é tão diferente. Uma pesquisa da professora da UnB, Regina Dalcastagné, nos revela que 72% dos autores publicados no Brasil são homens, brancos, de classe média, moram no Rio de Janeiro ou São Paulo, são professores e jornalistas. Sobre o Nobel de Literatura, dos 112 escritores premiados, 13 são mulheres.
Muito já foi conquistado. Mas olhe a sua estante. Conte quantos autores são homens e quantos são mulheres. Quem ganhou? Eu, daqui, já sei a resposta.


Munique Duarte (Santos Dumont, Brasil, 1979). É jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Lecionou língua espanhola por dez anos, tendo estudado no CELEC – Córdoba (Argentina). Tem textos publicados em diversos sites, revistas e jornais literários, como Jornal Relevo, Jornal Opção, Revista Diversos Afins e Livro&Café. É idealizadora e apresentadora do programa mensal Literatura na Rádio Cultura, em Santos Dumont-MG. Participou das antologias Escritos de Amor (Casa do Novo Autor Editora) e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro (Taba Cultural). Foi um dos autores selecionados na 1ª Mostra de Tuiteratura, apresentada em São Paulo, com frases poéticas do twitter. Desde 2010, mantém seu blog de contos e poemas, Textos Imperdoáveis. É colunista da Philos com a sessão “Não deixe de ler”.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Escritor e Editor chefe da Revista Philos. Biomédico e Mestre em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco. Cursou História crítica e social do pensamento, da literatura e das Artes (Portugal). É co-fundador da casa editorial Camará Cartonera e do Espaço Cultural Maus Hábitos (Brasil). Autor dos livros A tarde dos elefantes e outros contos (2014), Polissemia (2015) e Olhos de Onda (2016). Artista visual e colaborador do Espacio Cultural Violeta (Chile) e do Colóquio Escrever nas Margens (Portugal). Colabora com diversas revistas de literatura latina na Europa e América Latina.

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